Não concordo mesmo nada. Comparar Obama a Zapatero, além de reduzir o debate a um bipolarismo impossível na política norte-americana, aniquila pela raíz aquilo que pode ser uma boa ideia.
Felizmente que nos EUA (e também em Portugal) esses estigmas não pegaram, ainda que alguns sectores (em Portugal) e a oposição (nos EUA) o tentem fazer mesmo que, reparem, seja essa a única falácia que conseguem apontar no candidato. Muito bem está Obama quando o argumento relevante contra a sua candidatura é a inexperiência e a “mansidão”. É bom sinal! Sinal, talvez, do descrédito nos líderes musculados e prepotentes, de desconfiança dos líderes de aparelhos partidários cujos discursos soam familiares e se revelam vazios, do desespero em relação àquilo que nos rodeia e/ou que nos dão a conhecer, do inconformismo com aquele que que elegemos e que (não) nos representam. Mas também sinal da confiança na política como serviço e não como carreira, da esperança num futuro mais sensato que o presente e da mudança que só a participação democrática pode resolver.
Penso que aquilo a que assistimos tem uma conclusão muito simples e que a mim, particularmente, me agrada muito: os políticos convencionais esgotaram ou estão prestes a esgotar as suas últimas hipóteses. Obama pode não ganhar em 2008, mas ressurgirá em 2012 na pele de outro qualquer candidato que nessa altura apareça e que herde o seu discurso. E não apenas nos EUA. Em muitas outras democracias já apareceram e vão aparecer outros Obamas, pois os Obama significa a real vontade de mudança política e a urgência dos eleitores em reaverem a democracia.
Obama já ganhou! Tudo aquilo que ele simboliza já está conquistado. Os delegados da esperança, da confiança e da mudança já foram ganhos. Possivelmente não chegará à Avenida da Pensilvânia pois o caminho é sinuoso, está armadilhado e é de passo difícil para quem fala em acabar com lobbies e sentar à mesa os Imperadores Ming e os Jokers deste mundo (no qual até talvez ele próprio, enquanto Presidente, se incluiría…), mas os processos de mudança da mentalidade dos eleitores e de participação política estão irremediavelmente iniciados e quanto a isso já nada há a fazer.
De resto, a prova está bem à vista. Nem lá nem cá se dispersa o apoio ao senador do Illinois em função do partido, da raça, do poder, ou da cultura. As suas ideias valem mais do que isso e o que representa ultrapassa divisões artificiais. Podemos teimar em ficar cépticos ou podemos acreditar que há solução para a intrujice que nos rodeia. Eu, que não sei se sou mais teimoso ou mais céptico, já me decidi pela segunda e acho que não me vou arrepender.
PS – Gostava de ter escrito isto melhor, mas espero que se entenda…


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