Em bom rigor, ninguém pode manifestar-se surpreendido com o rumo das políticas governamentais - e menos ainda como elas são apresentadas, em cerimónias de propaganda que quase fazem lembrar os parteitags de Nuremberga (mas com uns mimos tecnológicos a mais, tipo fundos com imagens em tempo real da “monstruosa” realidade que se quer alterar), em que nos é dito que aquilo que é ali anunciado é, não só absolutamente indispensável para o desenvolvimento sustentado e justo do país, como será o garante da construção de Shangri-La neste nosso território.

Agora anuncia-se a construção de túneis e afins em Alcântara (no mesmo local, mais metro menos metro, onde o último túnel levou mais dez anos a terminar do que se previu). Nem vou aqui referir a desnecessidade de se gastar dinheiro em obras públicas faraónicas - para este assunto haverá certamente outros materiais. Mas tem de se reconhecer: este governo não tem ideazinha nenhuma para o desenvolvimento do país que não passe por obras públicas. Aquela política em que confiou Cavaco, numa época em que se demorava um dia para chegar a Bragança, exactamente a mesma que os alegres defensores deste governo vilipendiam como a prova de que Cavaco era uma fraude, porque não tornou Portugal um país produtor em exclusivo de tecnologia de ponta, quem sabe inventando mecanismos para teletransportar pessoas e bens para Bragança. Mas as necessidades básicas de infraestruturas já foram supridas; agora só restam obras para afagar egos de governantes sem ideias inovadoras.

E, se alguém me conseguir ajudar, que bloqueamento económico é criado pela passagem de uns comboios de contentores em Alcântara? Será alguma questão de feng shui? As energias daqueles espaço são quebradas pelos contentores? Não se resolvia o problema contratando um ou dois esotéricos para irem lá proferir uns mantras? (Isto sem ofensa para os interessados pelo esoterismo, claro, que legitimamente podem ofender-se por serem associados ao Governo.)