Ler o texto da M. Fátima Bonifácio no Atlântico:

por M. Fátima Bonifácio

Há mais de trinta anos, Mário Soares cometeu um dos feitos mais difíceis da História: travar a revolução, sem cair na reacção: os anos de 1974 a 1976 contêm o apogeu do seu génio político. É verdade que cometeu outras proezas. Mas há muito se tornara límpido que o “pai da Pátria” não tolerava ser expropriado do PS, uma criação da qual se achava o legítimo proprietário. O congresso “Portugal: Que Futuro?” foi o prenúncio do declínio que culminou no esquerdismo serôdio da sua candidatura presidencial.”

Declaração de interesses: não gosto de Mário Soares. Sem dúvida que foi central no pós-25 de Abril, mas isso aconteceu quando eu era um toddler. Do que me lembro da actuação de Soares, o fio condutor parece ser precisamente a promoção do seu poder e influência, agindo segundo o interesse pessoal e nunca segundo o interesse nacional (e menos ainda, mas desse eu quero lá saber, segundo o interesse do PS). As posições de Mário Soares nos últimos anos são absurdas e fazem-me desconfiar que ou o tal faro político de Soares é um mito muito distante da realidade ou que, de facto, a idade não perdoa. A melhor descrição do Dr. Soares que já li foi produzida por Cavaco Silva, num dos volumes da sua autobiografia política; de memória, dizia que Soares tinha um paradoxal gosto por pompa e pelo cerimonial para um socialista republicano.

(Discordo do texto da Fátima Bonifácio num ponto: na campanha presidencial de 2005/2006 não foi apenas o inner circle de Soares a considerar que a campanha seria ganhadora e poria Cavaco em grandes dificuldades. Lembro-me, por exemplo, de ouvir o Luís Osório dizer - com evidente satisfação - que Cavaco não conseguiria retirar um voto de esquerda a Soares; e vários elogios surreais foram emitidos na comunicação social por comentadores e jornalistas que eu até pensava terem alguma noção da realidade.)