Leio no Sol que um estudo britânico resolveu culpar os obesos pelo aumento do preço do petróleo, dos bens alimentares e - não podia faltar - pelo aquecimento global. Não quero defender a obesidade, que é um grave problema de saúde para os obesos, no entanto ocorrem-me, perante esta notícia, algumas considerações. Em primeiro lugar o espanto por continuarmos tão propensos a encontrarmos bodes expiatórios para os problemas mundiais (houve tempos em que a culpa de todo o mal era da judiaria internacional); a natureza humana é inquisitorial e por mais séculos que passem continuamos iguais. De seguida, o protesto contra a falta de seriedade intelectual que permite que alguém produza conclusões de factos com causas múltiplas e não totalmente catalogadas (no caso do aquecimento global falta até provar que de facto exista e devido à acção humana, uma vez que o globo está há seis anos sem aumentar as temperaturas médias) de forma tão simplista, chegando à conclusão que a culpa é dos gordos, que estes comem muito, gastam mais combustíveis fósseis directa e indirectamente, e, mais uma ignomínia, provocam o aumento do preço dos transportes públicos. Por fim, o desgosto por esta paranoia higienista e securitária, que nos quer transformar mesmo que coercivamente em seres sem vícios, saudáveis, exercitados, consumindo as exactas calorias necessárias em cada dia e respeitando as doses diárias recomendadas de vitaminas e minerais, sem oscilações de peso pouco saudáveis, com índice de massa corporal domado, todos iguais, sem excentricidades alimentares ou locomotivas, uniformes.

Acho que para certas pessoas está na altura de reler o Brave New World. Ou talvez não, que ainda convencem ministros da saúde a obrigarem os recém-nascidos a dormirem ao som de intermináveis cds com receitas de vida saudável.