Publicado por: Maria João Marques | Junho 16, 2008

Scolari, o Shylock brasileiro

Tenho visto como muito curiosas as afirmações sobre a contratação de Scolari pelo Chelsea: há os que se mostram indignados porque Scolari se vendeu e há os que garantem que Scolari aceitou o convite do Chelsea só por boas razões (desejo de mudança, progressão na carreira, experiência de um grande clube europeu,blablablá) e nunca devido às volumosas quantidades do vil metal associadas a esta contratação.

São duas posições muito curiosas. Os primeiros (que, em alguns casos, até se desculpam pela amargura de perderem um seleccionador do calibre de Scolari, que conseguiu aquilo que interessa: os melhores resultados de sempre da selecção nacional de futebol) não explicam porque diabo Scolari deveria abdicar da oportunidade de treinar um dos maiores clubes mundiais e enriquecer para o resto da vida durante o processo. Que lealdade deveria Scolari a Portugal para não aceitar a proposta do Chelsea, ele que é brasileiro? (Mesmo se fosse português, porque deveria um bom treinador abdicar desta oportunidade dourada para seguir este tão-tão-tão-tão grande designío nacional que é conduzir a selecção de futebol?) Os segundos tipos de opinadores são ainda mais engraçados: pelos vistos, aceitar uma proposta profissional devido a recompensas monetárias estonteantes é de pessoa mal formada; todas as razões são aceitáveis, agora aceitar trabalhar para, em troca, receber muito dinheiro, não se faz. O dinheiro é um objectivo maldito que apenas se cruza com o destino destas pessoas talentosas e de grande capacidade técnica por acaso. Haja paciência. Ficaria mal a Durão Barroso fugir para a Comissão Europeia apenas para ganhar muito mais; Scolari faz muito bem em aceitar emprego de quem lhe paga mais.

(Obviamente tenho pena que Scolari saia, eu que sou muito desinteressada do fenómeno futebolístico. Ainda me lembro quando as notícias das nossas participações em europeus e mundiais eram as greves dos jogadores, o facto de termos ficado em casa, um penalti na sequência de uma mão ou um jogador a dar uns sopapos no estômago de um árbitro. Com Scolari há bons resultados. Claro que provavelmente seria impossível segurar Scolari com a concorrência do Chelsea, mas não havia necessidade de fingirmos que somos bons de mais para Scolari e que ele tem que provar constantemente que merece o lugar, que há dúzias treinadores de igual mérito à espera da selecção portuguesa. Mas, enfim, nós por Portugal não gostamos de quem nos dá resultados; as vitórias morais são sempre mais aliciantes. As sondagens favoráveis a Sócrates são sintoma do mesmo problema.)


Respostas

  1. os responsáveis da FPF não disseram porque scolari não ficava, mas ele até que foi bem explícito e afirmou que a FPF não chegou aos valores que estavam em discussão em cima da mesa. por todas as razões e mais alguma, tenho de facto pena que ele não fique e possa consolidar esta nova selecção que nos representa.

  2. ainda há sondagens favoráveis ao senhor josé?

  3. Só Maria, sim, claro, não conseguimos competir com o Chelsea, mas também se escusavam afirmações como as de Madaíl a dizer que Scolari ficava dependendo da prestação no mundial e que tinham pensado despedi-lo depois daquela cena de quase-pancadaria com um jogador (se decidiram não o despedir, para quê falar disso agora?!).

    Tangas, pois, custa a acreditar, não é?

  4. Concordo consigo, e acima de tudo com Scolari. Sou português e patriota, mas se me convidassem para um cargo fantástico onde ainda por cima me duplicavam o ordenado, não pensaria duas vezes.
    Esta falsa despreocupação com o dinheiro é que começa a enjoar. As pessoas fingem que não fazem as coisas pelo dinheiro, que o que conta é uma espécie de “amor profissional”… Claro que é importante ter lealdade para com o trabalho que se tem, mas o facto é que, sem dinheiro, ninguém faz nada da vida.

  5. Concordo consigo, e acima de tudo com Scolari. Sou português e patriota, mas se me convidassem para um cargo fantástico onde ainda por cima me duplicavam o ordenado, não pensaria duas vezes.
    Esta falsa despreocupação com o dinheiro é que começa a enjoar. As pessoas fingem que não fazem as coisas pelo dinheiro, que o que conta é uma espécie de “amor profissional”… Claro que é importante ter lealdade para com o trabalho que se tem, mas o facto é que, sem dinheiro, ninguém faz nada da vida.

  6. Ah, e já que falamos de Scolari e da Selecção, deixo aqui um prognóstico pessoal do novo seleccionador: se falhar Carlos Queiroz, será Flávio Teixeira (isso mesmo, o “Murtosa de sempre”…)

    PS – peço desculpa pelo duplo comentário de há pouco.

  7. PR, o Carlos Queiroz ainda identifico, mas se me vem falar do Flávio Teixeira… não faço ideia de quem é… treinador do Olhanense?!

  8. Não… É o adjunto de Scolari, também conhecido por “Murtosa”.

    Decerto já viu (ou ouviu falar) no anúncio à CGD onde Scolari aparece como vinicultor, e onde pergunta quem o apoiaria se ele decidisse enveredar por esse ramo. A certa altura, há um homem de bigode, também brasileiro, que diz: “Sempre atrasado, senhor Felipão”. E Scolari diz a já célebre frase: “Ah, o Murtosa de sempre”.

  9. Pois, eu é mais séries em dvd… (neste momento estou entre dois episódios do Shark) Sou verdadeiramente iletrada no que toca a televisão generalista; já escandalizei várias cabeleireiras por não conhecer nenhuma daquelas pessoas “conhecidas” (= estrelas de tv) que aparecem nas revistas que se lê quando se vai ao cabeleireiro.

  10. Só mesmo um post sobre futebol para por o pessoal a comentar. Aproveite-mos este euro porque suspeito que os próximos tempos vão ser menos agradáveis.

  11. Teremos sempre as eleições americanas e o amigo Obama…

  12. Mário

    Como poderá constatar, se ler alguns posts mais antigos, já deixei aqui comentários em muitos outros temas não futebolísticos. Além disso, não percebo porque é que tem essa aversão ao futebol; o facto de alguém gostar desse desporto não implica que seja um zero à esquerda em temas mais sérios ou mais intelectuais (como preferir…).

    Um abraço

    PS – escreve-se “aproveitemos” e não “aproveite-mos” ;)

  13. «PS – escreve-se “aproveitemos” e não “aproveite-mos”»

    Tem mais que razão. Um erro desses é tão óbvio que nem pode ser desculpado por ter sido escrito à pressa.

  14. PR,

    Estava a brincar, porque gosto de futebol e até só sócio de 2 clubes :) Desconfio sobretudo dos intelectuais que não tenham as mesmas paixões que o povo.

  15. Ah, ok. Peço desculpa pela reacção um pouco intempestiva.
    Sócio de dois clubes? Isso é que para mim, já era “muita fruta”…


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