Pois, está-se a ver que o argumento dos afro-americanos e restante elite liberal americana perante qualquer ataque ao casal Obama será “isto, no fundo, é uma questão de racismo”. Uma senhora, Mary C. Curtis, queixa-se hoje no Washington Post que os ataques a Obama não dão azo às mesmas lamentações de Jeremias que os ataques sexistas feitos a Hillary Clinton durante as primárias. Não é provável que a senhora vá ler este meu post, mas para os que concordam com ela, aqui vai a explicação, devagarinho, ponto por ponto, da razão do erro dos seus argumentos.
i) Hillary era a candidata e não o conjuge do candidato, pelo que qualquer ataque sexista era muito mais prejudicial.
ii) A campanha do marido de Michelle Obama foi profícua em atques sexistas a Hillary, concretamente arrasando todas as suas concretizações enquanto Primeira Dama ou apresentando-a apenas como uma herdeira de Bill que, sem ele, nunca teria tido vida política. Isto perante um percurso bastante mais longo e influente para a coisa pública do que o de Michelle Obama. Se Michelle Obama não foi solidária com um dos membros da sisterhood de que fala Curtis, é má ideia reclamar agora a solidariedade que não disponibilizou.
iii) Bill clinton, nesta campanha, é quem pode ter o tratamento dos media e opinião pública comparado com Michelle Obama (ou, do lado republicano, Cindy McCain). Pelos vistos Mary C. Curtis não reparou, mas os media e a opinião pública não foram propriamente meigos e melosos com Bill. E não há quem falte para insinuar que Cindy McCain mais não é que uma Barbie.
iv) Uma Primeira Dama não é avaliada nos mesmos moldes que um(a) canditato(a) a POTUS. Se é muito interventiva a malta assusta-se – e com razão, que não vão desempenhar qualquer função para que teriam sido eleitas – e isso aconteceu com Hillary em 92 e com Bill em 2008 e Obama se tem o mesmo tratamento não é com certeza por causa da sua cor de pele. Há quatro anos a Teresa Kerry foi muito censurada por ter aconselhado a um jornalista to shove something up his ass (desculpem o vernáculo anglo-saxónico) e por ter representado Laura Bush como uma mulher que nunca na vida havia trabalhado – uma Primeira Dama também não deve ser mal-educada ou deselegante. A função da Primeira Dama é essencialmente protocolar e é por essa adequação que é julgada. Cabe a Michelle Obama adequar-se aos critérios dos eleitores e não esperar que os eleitores mudem de ideias devido aos seus bonitos olhos.
v) Afirmar que Michelle Obama tem uma aproximação aos problemas raciais dura e amarga não é invenção, é constatação a partir dos seus discursos e testemunhos.
Mas, claro, é mais fácil justificarem-se com a questão da raça.

