Publicado por: Maria João Marques | Julho 5, 2008

Reflexões sobre a natureza humana

Esta histeria actual à volta dos dons oratórios de Obama revela, na minha opinião, a propensão humana para valorizar mais a forma que o conteúdo. Obama é, dizem, um grande orador (e, sem dúvida nenhuma, é) logo, é um político excepcional. Não interessa se as palavras têm algum conteúdo para além de noções vagas (e velhas) como mudança e esperança ou, sequer, se se contradizem entre elas nos vários períodos de tempo (como sucede) ou se têm correspondência nos actos políticos concretos do candidato. O que interessa são (só) as palavras. Afinal houve já quem dissesse que vender políticos é como vender sabonetes.

Este marketing pessoal é irritantemente frequente nas pessoas que nos rodeiam. Esclareça-se, antes de continuar, que nada tenho contra as preocupações com a imagem. Eu própria sou bastante vaidosa. Também compreendo a necessidade que todos temos de, profissionalmente, transmitirmos a imagem de nós próprios que pretendemos, evidenciarmos o melhor que temos e disfarçarmos as nossas falhas; contudo, o eu profissional é uma espécie de máscara que usamos, num meio onde surgem amizades mas, sobretudo, relações profissionais. Diferente é a minha opinião quando o marketing pessoal é feito no meio das pessoas de quem gostamos – amigos ou família – de forma continuada. Geralmente esta característica associa-se a insegurança ou falta de auto-estima e é desculpável, por vezes até enternecedora (na maioria das vezes, maçadora), nas pessoas de quem gostamos; uma pessoa que tenta com insistência que os outros conheçam o melhor dela porque acha que, se não o fizer, os outros não reparam e não vão ter boa opinião ou, catástrofe, cessam de lhe dar o seu afecto, é uma pessoa com uma ideia frágil de si própria que deve ser respeitada e ajudada a ganhar auto-confiança.

Há no entanto, casos de marketing pessoal que não se desculpam – tanto nos políticos como nos eleitores. São aqueles que fazem por transmitir uma ideia falsa da pessoa que promovem. Curiosamente, encontravam-se alguns (poucos, felizmente) casos crónicos deste padecimento num meio que frequentei muito enquanto jovem universitária, o CUPAV. E digo curiosamente porque é dos locais onde menos se desculpam estas fanfarronices mentirosas: não só a Igreja é amiga de promover a verdade, como a espiritualidade inaciana incentiva ao auto-conhecimento e ao reconhecimento dos nossos defeitos e dos nossos pecados à luz dos infindáveis amor e perdão de Deus.  Mas lá se descobriam, ao lado de ostentações pouco católicas das respectivas boas acções, declarações reiteradas de desprendimentos dos bens materiais ou de categorias sociais em pessoas cujas opções de vida tiveram uma grande orientação da vertente económica e de status (que eu considero legítimas, todos temos que alimentar a família e educar os filhos no melhor contexto, excepto em pessoas que vilipendiam e vilipendiaram estes critérios), tiradas messiânicas sobre acolhimento e integração de imigrantes em quem nunca inscreveu a empregada doméstica na segurança social, no meu caso lembro-me de ter ouvido alguns disparates por ter a minha própria empresa (quando era a única que já trabalhava e pagava ordenados a outras pessoas) como se tivesse trocado a alma pelo sucesso económico em pessoas que não decidiram propriamente ir para os podres bairros de lata das cidades indianas limpar as feridas aos doentes. Claro que em alguns esta deficiência desapareceu com a idade; o mais grave é que outros são trintões e padecem da mesma necessidade de mostrarem que são melhores do que são na realidade, que são bons mesmo nos momentos quando, na verdade, são imperfeitos, mesquinhos, invejosos, maldosos. Tornou-se indiferente o mal que se faz, desde que se dê a ideia que se está a fazer bem, que se é conciliador, isto misturado com umas lições de moral a quem se desfere o golpe para confundir a assistência (que é imprescindível, ou lá se vai a reputração de boa pessoa) e dar a ideia de grande elevação moral.

Há pouco tempo foi-me permitido – estas coisas vêm por alguma razão – assistir a um exemplo destes. E logo provocado pela mais soez das razões: divergências políticas, que um dos intervenientes, pelos vistos, não consegue suportar (um defeito muito grande por si só). Uma pessoa (com a assistência inevitável) dedicou-se a proferir mentiras sobre outra, a atacar com ferocidade deliberada algo que (erradamente) julgava ser, para o outro, tão intocável como as suas convicções políticas, tudo isto misturado com lições de amizade (à pessoa que a quem se desferia estes golpes) e de moralidade mais geral e do término de um projecto (felizmente pouco importante) comum em tom de birra. Como a hipocrisia se alimenta a si própria, os passos seguintes foram dedicados a propagar a ideia que que agira muito bem (a reputação, não esquecer) e com toda a lisura, pelo meio propagando mais mentiras. O último capítulo (so far), execrável, é uma declaração pública de que nunca se pretendeu terminar o que de facto se terminou (em tom de birra), colocando assim o ónus noutros, e ainda sugerir uma reunificação, tudo envolvido em moralizações mal-escritas sobre um orgão muito particular do corpo humano.

Neste caso ninguém perdeu o emprego nem resultaram famílias destruídas. Mas, se exceptuarmos aqueles casos de mal absoluto de psicopatas vários, esta história contém o que de pior há na natureza humana: a falsidade levada a um nível tão profundo que tem por objectivo que a própria pessoa tenha dificuldade em destrinçar o que de facto é – para não se desgostar em excesso. Há quem levante a possibilidade de burrice e infantilidade; eu não concordo: ninguém é assim tão burro e a infantilidade só se desculpa nos estados etários adequados. Na minha opinião é apenas a confiança no envólucro: podemos ter qualquer comportamento vil desde que continuemos com umas tiradas pseudo-boazinhas, sempre, mas sempre, com público. De regresso à espiritualidade inaciana: muito mundano.


Respostas

  1. Inocência perversa, o pior pecado, contra o Espírito, fazer o mal convencido estar a fazer o bem. Não se chega aqui espontaneamente, foi uma opção deliberada para nunca mais tomar decisões difíceis.

  2. Eu não acredito na parte de estar convencido de estar a fazer o bem, reconheço; acho mesmo que é uma questão de imagem projectada.


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