Eu, que tenho a mesma compulsão da Joana quanto às séries e filmes de adaptações de livros da Jane Austen e até de derivados (para introduzir aqui vocabulário da nossa actualidade financeira) de Jane Austen como Miss Austen Remembers ou Becoming Jane, recebi hoje de manhã a adaptação da BBC de 2009 de Emma. Depois de a ver vos direi o que me pareceu esta sucessora da insípida adaptação com a Kate Beckinsale e do bem conseguido filme com a Gwineth Paltrow (ainda que o Jeremy Northam deixe a desejar na sua execução das danças Regência). Entretanto entretenham-se com esta crítica assassina de Nick Cohen para a Standpoint.
Arquivo de Abril, 2010
Chegou hoje no correio
Posted in Antianémicos on Abril 30, 2010 | Deixar um Comentário »
Quem estará à altura de protagonizar esta fase difícil nacional?
Posted in Vacinas, Vitaminas on Abril 29, 2010 | Deixar um Comentário »
Sim, era mesmo um salto quântico o que Paulo Rangel lhes pedia, ao PSD e ao país. Mas era a ruptura necessária. Paulo Rangel desafiou-nos a mudar de vida, a libertarmo-nos de maus hábitos, de vícios de décadas, de erros repetidos. E com o entusiasmo e vigor de quem acredita nessa necessidade urgente.
A necessidade dessa ruptura mantém-se, mas não foi a solução escolhida pelo PSD. E assim, também não foi a solução a apresentar ao país. O PSD escolheu a “unidade do aparelho” e a gestão de expectativas do poder. E mesmo que tenha abrangido Paulo Rangel e Aguiar-Branco, não está a abranger as suas ideias nem as suas propostas. Embora hoje o negue, Passos Coelho escolheu o consenso, o bloco central. E isso é o pior que nos pode acontecer agora. A nós todos.
Quem estará à altura de protagonizar esta fase difícil nacional? Quem estará à altura de nos ser útil, de nos colocar de novo no caminho possível para sair do buraco onde estamos metidos? Sinceramente, começo a olhar para o CDS. É certo que o CDS é mais imprevisível do que eu desejaria e esteve por um triz de ceder à tentação. Mas até agora evitou esse erro, de embarcar numa coligação que o iria adulterar completamente. (Quem se mete com o PS leva, disse um ministro exemplar. Mas quem se mistura com o PS é destruído, digo eu). Sim, o CDS é actualmente o partido onde vejo mais vitalidade e criatividade, capacidade de trabalho e de organização. Talvez também por não ter uma máquina partidária tão pesada nem tão ávida de lugares estratégicos. Está mais livre de compromissos internos e expectativas negociadas. Sim, pode estar no CDS a solução mais próxima e viável. E mesmo que não protagonize a saída do buraco, terá de ser considerado como um dos seus elementos-chave.
Ontem, no Roda Livre da TVI 24, voltei a ouvir a hipótese de um “governo de salvação nacional”. Nem Villaverde Cabral nem Rui Ramos consideraram possível sair deste impasse (o tal garrote, lembram-se?) com o actual PM. Não dá. E cada dia que passa começa a ser penoso, de facto. Estamos à beira de um ataque de nervos, ou de pânico, o que é bem pior. Portanto, vamos ver se esta solução possível é mesmo agilizada e se começamos a conquistar alguma credibilidade externa. Um governo liderado por alguém que seja percepcionado pelo país como alguém que leva o país a sério. Que transmita ao país a sua situação real e as soluções possíveis, o que implicam, o seu preço elevado mas também os benefícios previstos, e em que prazos. Enfim, com o que podemos contar e o que teremos de fazer para a sua concretização.
A minha pátria é a língua portuguesa
Posted in Ansiolíticos on Abril 29, 2010 | Deixar um Comentário »
Para alguns. Lá pelas bandas do Correio da Manhã é cada tiro, cada melro:
- “tabloide” sem acento agudo.
- “incomodo” quando deveria ser incómodo.
- “tinhamos” em vez de tínhamos (e sobre acentuação ficamos por aqui, pois são tantos os erros, valha-nos Deus…)
- “Ela teve uma conversa à minha rebelia” – juro que é verdade!
- “Devia tar perturbado com os seus negócios” – agora vá, todos ao mesmo tempo, chorem (ou riam) se vos apraz.
Ah grande Hugo Real. E antes que corrijam, carreguei aqui em pdf o print screen…
Ode
Posted in Anabólicos on Abril 29, 2010 | Deixar um Comentário »
Um filme bem português
Posted in Analgésicos on Abril 28, 2010 | Deixar um Comentário »
Não foi o PS que governou em maioria absoluta nestes anos mais recentes, surdo a qualquer sugestão da oposição? Foi. Não foi o governo PS que nunca deu qualquer informação nem explicação de como nos andava a gerir? Foi. Não foi o actual PM que nunca respondeu a quaisquer perguntas da oposição na AR? Foi. Não continuou o PS a manter a “grande mentira” sobre a nossa situação real e foi assim que ganhou as últimas eleições legislativas? Foi. Não tem o PS de assumir a responsabilidade pela nossa situação económica e financeira? Tem. E o PSD? Irá ou não resistir à chantagem política do PS e ao seu “abraço fatal”? Pelos vistos não.
Este é um filme bem português. Desculpa-se tudo ao irresponsável e mete-se tudo no mesmo saco. Depois virá o Presidente, que foi cúmplice de toda esta situação, apadrinhar estas reuniões pelos altos interesses da nação… E entretanto o PSD fica colado à desgraça nacional. Ninguém se irá lembrar da sua política de verdade, o seu maior trunfo político nestes tempos sombrios que se aproximam. Dirão que são todos iguais.
A ”unidade interna” do maior partido da oposição era fundamental, achava eu, porque a direita está em minoria na AR… e depois Paulo Rangel disponibilizou-se para colaborar num novo PSD… mas afinal eles não queriam um novo PSD, era tudo pura ilusão. Passos Coelho apenas ensaiou a voz forte, o discurso firme e rigoroso, para nos iludir. Está nitidamente refém do PSD que emergiu das Directas. Está refém do aparelhismo partidário, das expectativas do poder. Este era mesmo o pior PSD. Só o PSD de Paulo Rangel nos poderia ser útil, mas era uma minoria dentro do PSD. Uma minoria mais inteligente, lúcida, perspicaz, informada, criativa, com capacidade de regenerar o partido, mas não era isso que o PSD queria.
A ”unidade interna” do PSD, deste PSD que emergiu das Directas, vai-nos sair caríssima.
LOL
Posted in Antianémicos on Abril 28, 2010 | Deixar um Comentário »
Da próxima não se esqueçam de fazer o mesmo, se faz favor
Posted in Alucinógenos on Abril 27, 2010 | Deixar um Comentário »
Isto para nos distrair do cenário de provável bancarrota. A boa notícia é que foi tudo feito – sendo tudo gastar o que temos e o que não temos e nem sabemos se algum dia teremos, endividarmo-nos até ao tutano, assustarmos os impressionáveis estrangeiros das agências de rating com o nosso fraco crescimento económico e défice orçamental excessivo e despesa pública descontrolada, vivermos como aqueles aristocratas arruinados (a Becky Sharpe e o Rawdon Crawley do Vanity Fair come to mind) que só sobreviviam à conta do crédito que lhes era concedido e só lhes era concedido crédito enquanto mantivessem um prestígio aparente, que se concretizava num estilo de vida vistoso e dispendioso o que, claro, aumentava as necessidades de crédito – para nos salvar de uma crise económica em 2009 que se dizia que seria a pior dos últimos oitenta anos mas que na realidade passou depressa mesmo sem esgotar os pacotes anti-crise e que ninguém sabe que gravidade poderia ter tido.
Why do women wear jumpsuits?
Posted in Anestésicos on Abril 27, 2010 | 1 Comentário »
À la JPAB, vá-se lá saber porquê
Posted in Anestésicos on Abril 27, 2010 | Deixar um Comentário »
Não há volta a dar…
Posted in Ansiolíticos, Genéricos on Abril 27, 2010 | Deixar um Comentário »
Entre notícias de pressões da Comissão sobre a Alemanha (para agilizar a ajuda à Grécia) e sabendo-se da fragilidade que Merkel tem no seu país e que a obriga constantemente dar o dito por não dito, o Euro (ler agora como se de um texto do Pedro Arroja se tratasse) aproxima-se do seu fim. Não é hoje nem amanhã, mas num futuro relativamente próximo.
Poderá aparecer uma liderança forte na Alemanha (motor) que imponha a sua vontade unilateralmente sobre os restantes países da zona euro (inclusive a França), e assim obrigando à disciplina necessária para manter viva a utopia de uma moeda única num espaço tão díspar?
Pode.
Mas os palhaços que andam por aí estão agarrados que nem lapas, e esses só sairão quando o circo for abaixo.
O patético é que ninguém tem coragem de retirar a primeira estaca da tenda.
Auto determinação no coração da Europa?
Posted in Genéricos on Abril 27, 2010 | Deixar um Comentário »
Será que a luta pelo direito à auto-determinação vai chegar ao coração da Europa?
Já não nos bastavam os gregos a mostrar quão fácil é dar cabo de um país, agora os belgas descobrem que afinal não se entendem uns com os outros e que, tal como um casal desavindo mas civilizado, começam a equacionar se a melhor opção não será um “divórcio amigável”.
Entretanto os catalães lá aproveitam para se posicionar à boleia e dizer que, se for para separar alguma coisa, não se esqueçam que lá na casa espanhola também vive um casal com desavenças em que uma das partes também gostava de se separar. Nós cá no nosso cantinho também não podiamos estar longe dos movimentos dos “países mais avançados” e portanto também temos a nossa Olivença.
Acho interessante que ao mesmo tempo em que se discute uma maior integração europeia em áreas tão importantes como a justiça ou a fiscalidade, aqueles onde a instituição Europa fixou sede sejam eles os primeiros a pensar em cisões. Acho sobretudo interessante o momento que escolheram para discutir a questão: 6 meses antes de lhes darem a presidência da UE para as mãos.
Isto tem tudo para correr bem…
Mais um 25 de Abril que passou…
Posted in Genéricos on Abril 26, 2010 | Deixar um Comentário »
… e se este ano voltámos a ter a mesma receita dos últimos anos, com os mais institucionais a fazerem discursos de circunstância e os mais radicais a dizerem que é necessário outro 25 de Abril (não sei porque é que os oiço repetir isto há 30 anos mas ainda não os vi a fazer nada), fomos também brindados (e ainda bem) com alguns apontamentos inteligentes (como algumas passagens do discurso do Presidente, onde esteve manifestamente bem ao deixar a visão do quotidiano e do ataque táctico ao Governo para se colocar num plano mais elevado, dando algumas ideias para vectores estratégicos de desenvolvimento), e até mesmo pelos rasgos de humor quase sarcástico de José Pedro Aguiar Branco, cujo discurso foi tão inteligente quanto pouco convencional.
Convenhamos que ver o ex-lider parlamentar do PSD de cravo ao peito a falar de Lenine e a citar Zeca Afonso pode fazer alguns mais conservadores tremer nas respectivas cadeiras, mas a inteligência do seu discurso esteve em entrar no campo do discurso de esquerda e conseguir usar alguns símbolos que faziam parte da sua ”imagem de marca” para denunciar que uma coisa é falar e outra é fazer. Nesse domínio o PS tem-nos mostrado que enquanto em poemas e cantigas é fácil falar (veja-se Manuel Alegre), quando se está com um governo nas mãos o que é necessário é fazer, e nesse campo Sócrates e Guterres deviam dedicar-se era a escrever cantigas porque no governo os resultados não são famosos.
Falando do nosso 1º Ministro, foi dele mais uma vez a frase infeliz do dia. Quando lhe pediam para comentar o discurso do Presidente, à saida da sessão no Parlamento, Sócrates disse com aquele seu ar que tem tanto de convicto como de pomposo que Portugal está mergulhado numa profunda crise, tal como estão os países mais desenvolvidos.
Quando estamos abaixo desses tais países desenvolvidos, então é porque temos especificidades concretas na nossa economia, no nosso tecido empresarial e na nossa sociedade que nos tornam incomparáveis com eles. Já quando estamos tão mal como eles, então já somos todos iguais e o facto de estarmos todos no mesmo buraco até deve ser para nós motivo de orgulho porque estamos a acompanhar as “melhores práticas internacionais” (uma expressão totalmente inócua mas que repetidamente se ouve bradada ao vento).
Pelo amor de Deus haja critério…
Fernando Nobre: uma candidatura táctica e retorcida
Posted in Anestésicos on Abril 26, 2010 | 2 Comentários »
Quando vi surgir Fernando Nobre no cenário das Presidenciais, deduzi que havia ali mãozinha socialista. Depois percebeu-se, vinha ali pela mãozinha do ex-Presidente Mário Soares. E trata-se de uma jogada inteligente, de uma candidatura táctica e retorcida: um candidato de esquerda que é bem aceite pela direita. Querem melhor?
A candidatura também surgiu para garantir que Alegre fique para trás na corrida, Alegre que os deixou a comer pó nas últimas presidenciais. A minha ideia é mesmo esta: nunca os mesmos que perderam irão apoiar Alegre, só se disso dependesse a sua sobrevivência, o que não é o caso. Melhor do que Alegre, já têm o actual Presidente. Não esquecer que o eleitorado gosta de equilibrar os termos e o actual Presidente, com a sua cooperação estratégica, tornou-se inofensivo à esquerda. Assim, garantem as duas hipóteses: se o actual não for recandidatado, têm Fernando Nobre que entra pelo eleitorado de direita, tem essa vantagem. Outra vantagem de Fernando Nobre: parece mais maleável do que Alegre; mais previsível; mais modernaço também (Alegre é mais conservador do que parece). Fernando Nobre apresenta-se, além disso, como multicultural, uma espécie de circum-navegador actual (circum-voador?), dir-se-ia até universal… Além disso, Alegre já está colado ao BE, o que até dá ao PS um bom alibi (é que nunca se viu um socialista arrogante ir a reboque de ninguém…) Este apoio vai ser adiado e esquecido. Sim, é essa a minha ideia.
Não há dúvida, uma candidatura táctica e retorcida: que outro candidato poderia aparecer assim, com aquela áurea de Santo, um médico dedicado a causas humanitárias? Só precisa de dizer umas coisas consensuais até as pessoas se habituarem à ideia de que até dá um bom Presidente: as injustiças, as diferenças sociais, a pobreza… (Lembram-se que foi assim que Alegre nos comoveu com aquela Trova do Vento Que Passa?)
Dilemas do foie-gras
Posted in Alucinógenos on Abril 23, 2010 | Deixar um Comentário »
Não deixa de ser curioso as tendências controleiras da vida alheia destas pessoas que supostamente defendem boas causas. Não lhes interessa tanto resolver problemas, mas, sobretudo, condicionar as escolhas alheias. E, sintomaticamente, estas pessoas que tanto se preocupam com o bem-estar dos gansos (ou de qualquer outra coisa que contribua para o bem-estar da generalidade da população) – e aqui há a dizer que eu tento sempre não pensar na forma como os alimentos de carne animal são obtidos, já que nenhum dos processos existentes me parece ser fruto de um enorme amor pelos bichinhos, contudo, alas, não quero ser vegetariana – correspondem àquelas pessoas que jamais reconhecerão existir um problema moral no aborto.
Incursões pelo fariseísmo
Posted in Ansiolíticos on Abril 23, 2010 | Deixar um Comentário »
Num primeiro plano: a fé de cada pessoa é algo que reside na sua mais impenetrável intimidade e duvido que alguma vez possa ser inteiramente partilhada, mesmo com os que melhor nos conhecem. Pressupõe sermos absolutamente honestos sobre nós próprios, sobre as nossas fraquezas, limitações, defeitos, pecados, negrumes, maldades, medos, aquilo de que não nos orgulhamos ou de que nos envergonhamos. Se as qualidades e sucessos apreciamos exibir, já resguardamos o que é mais sombrio e os fracassos. Duvido que seja possível esse nível de verdade sobre nós se não (e apenas) diante do imenso, intenso, infinito, esmagador, curativo, avassalador amor de Deus. Sendo a fé algo tão íntimo e que as muitas manifestações públicas não permitem escrutinar, parece-me uma evidente imbecilidade julgar a qualidade da fé de outra pessoa, a propósito do que seja.
Num segundo plano, convoco a parábola do fariseu e do publicano. O fariseu, cheio de si, de soberba, de orgulho da sua irrepreensível fé, congratula-se por não ser como o publicano, que tem a clarividência de perceber como é imperfeito e, percebendo-o, sabe colocar-se diante da misericórdia de Deus, que é onde qualquer católico se deve colocar. Aplicando isto ao caso concreto, perante Nosso Senhor todos temos uma fraca fé e as diferenças relativas entre elas são indistintas quando a bitola é o amor de Deus. É ridículo e de um fariseísmo que fica mal fazer apreciações sobre a fé de outrem.
Num terceiro plano, mais concreto: não sei o que pode passar pela cabeça de alguém para considerar fraca a fé de uma pessoa que não pode tirar férias no dia da visita do Papa à sua cidade – porque, por exemplo, tem de fazer coincidir as suas férias com os períodos em que colégios e infantários e creches fecham e não têm onde deixar os filhos – e também não está em condições de dar uma falta injustificada e perder a remuneração respeitante a esse dia – ou porque o ordenado já não é abundante ou porque os encargos financeiros são avultados. Isso é uma imbecilidade e assusta que venha de alguém que já teve responsabilidades governativas e é muito próximo de quem pode vir a ser primeiro-ministro: porque revela não ter qualquer noção da realidade da vida das pessoas que governou e pode vir a governar.
Por mim, não faço qualquer juízo sobre a fé de um católico que só vai participar numa missa presidida por Bento XVI se tiver tolerância de ponto. Também – e relembro que ‘ir ver o Papa’ não faz parte das obrigações de um católico – não julgo a fé de um católico que antipatize com Bento XVI e não queira participar nesta visita. (Eu própria, que tinha uma embirração de estimação por João Paulo II, só estive em Fátima em 2000 porque fui com vários amigos, que incluíam alguns jesuítas, em peregrinação durante a noite anterior pela Serra d´Aire, momentos que foram para mim muito mais proveitosos que a Missa presidida por João Paulo II). De resto, nem sequer julgo a fé de quem escreve disparates sobre a fé alheia. (Já quanto às faltas de educação, aos vernizes finos que estalam com facilidade, aos lamber as botas a quem interessa, aos namoros com todos os partidos que podem atribuir um cargo ou outro, às ausências de noção de ridículo no que se diz e no que se escreve, a história é diferente).
O dilema português
Posted in Ansiolíticos, Tranquilizantes on Abril 22, 2010 | Deixar um Comentário »
A “dança da chuva” é a definição encontrada pelo Rui Ramos, no Roda Livre de ontem, na TVI 24. A “dança da chuva” para designar a atitude de negação do governo e do Presidente, mas também do país em geral, que tem escapado às grandes reformas desde os finais dos anos 80. Nada como um historiador para nos mostrar o caminho errado que temos seguido. É que, mesmo que os especuladores já nos rondem como abutres e o papel mais responsável fosse mesmo acalmar os ânimos, na verdade os nossos credores estão no seu direito de evitar correr riscos. É que quem vai financiar as nossas reformas adiadas e a nossa fraca poupança são precisamente as poupanças dos países nórdicos. Até quando estarão eles dispostos a fazê-lo?
Nem mais. A palavra solidariedade deixa de fazer sentido quando os países que a desejam falham nos sinais correctos: aprendemos com a lição e vamos mudar de vida. Agora pergunto: estarão eles dispostos a financiar um país falido que se anda a comportar como se não o fosse? Estarão eles dispostos a financiar um país com uma despesa estatal sufocante, um crescimento económico mínimo, uma ineficiência da Justiça? E neste panorama deprimente, estarão eles dispostos a financiar um TGV para Madrid? Refiro este pormenor do TGV porque ele diz tudo sobre a irresponsabilidade e decadência desta cultura republicana.
Rui Ramos referiu ainda não esperar muito de partidos que vivem do Estado social. Que só mudando radicalmente a sua lógica nos poderão servir para alguma coisa, como sair deste impasse em que estamos entalados. Foi isso que percebi. E é bem verdade. A sua cultura-base (dos partidos) está muito misturada com a cultura da administração pública: pesada, estática, conformista. Seria preciso um abanão, ou uma lufada de ar fresco, mas não temos, para já, personagens assim no cenário português, ânimos desses. A não ser que a população acorde, e lhes exija essa mudança, o que me parece muito pouco provável, e se acordar vai ser para protestar como os gregos, sem resultados benéficos…
Este Roda Livre ficou também assim, à procura da saída para este dilema português. Via-se perfeitamente o esforço colectivo para encontrar uma saída deste labirinto… mas todas as saídas estavam cortadas. Pareceu-me até ouvir a palavra garrote. Glup!
Pensar em política, como a possibilidade de agir e ver resultados, poderia ser tão estimulante! Política no sentido mais amplo, mais arejado, poderia ser sem dúvida um desafio interessante. Porque é que a política nacional é tão deprimente?
É só fazer as contas
Posted in Corticóides on Abril 20, 2010 | Deixar um Comentário »
Da cultura política do monólogo à cultura política da colaboração
Posted in Antianémicos, Vitaminas on Abril 19, 2010 | Deixar um Comentário »
Nem sei bem por hei-de onde pegar nesta ideia que me surgiu ao ler um post de Rui A. no Portugal Contemporâneo sobre Salazar e o cardeal Cerejeira, imagine-se! De certo modo, esta ideia já me anda a inquietar os neurónios há uns tempos, ao observar como a nossa política se reduziu à personalidade do Chefe, mostrar quem manda, adivinhar o que o Chefe quer, como agradar ao Chefe… Esta também é a dimensão da nossa mediocridade. Enquanto vivermos nesta cultura política centrada na personalidade do Chefe, actualmente definida por uma autêntica política do monólogo, não sairemos da situação desastrosa onde estamos metidos. E talvez seja esta, a habituação a uma cultura política centrada na personagem principal do filme, sem a intervenção ou colaboração das outras personagens, uma das razões para esta perplexidade actual em relação ao silêncio do PSD ou à sua fase de unidade e colaboração.
Agrada-me pensar que, pela primeira vez em muitos anos, desde Soares e o cavaquismo, iremos iniciar uma nova cultura política, a que eu chamaria de colaboração, centrada nos desafios, nas tarefas, num caminho possível a desenhar-se à nossa frente. Agrada-me pensar que este silêncio do PSD não tem apenas a ver com a expectativa da proximidade do poder, mas com a consciência da enorme responsabilidade e da real dimensão dos desafios que temos pela frente. Agrada-me pensar que pode já estar em esboço uma nova perspectiva de gestão do poder, em que as personagens fundamentais da nossa vida colectiva, os cidadãos, não são meros figurantes tratados como eleitores e contribuintes, mas como adultos responsáveis a quem se deve pôr ao corrente da sua situação real.
Sim, uma cultura política que responsabilize e mobilize os cidadãos, como nos mapas das cidades que percorremos pela primeira vez, Você está aqui, para nos orientarmos no percurso a seguir. Depois definem-se coordenadas, trajectos, percursos, e as consequências previsíveis, os cenários. Sem saberem onde estão, e com o que podem contar se forem por este ou por aquele percurso, como é que os cidadãos poderão estar receptivos às medidas que os vão penalizar e limitar ainda mais, medidas que a muitos irão mesmo condicionar à pobreza e a muitos outros manter nessa condição? Como irão sequer compreender os sacrifícios que lhes serão pedidos? Mas sobretudo, mostrar-lhes que se irá fazer tudo para evitar o desperdício da sua energia, do seu trabalho, dos seus sonhos, da vida adiada, arrumando a casa pública, o Estado. Cortando nas suas despesas, agilizando as suas funções, racionalizando as suas competências, substituindo investimentos supérfluos por investimentos essenciais, redefinindo prioridades. Esse sinal terá de ser dado.
É esta a ideia que me surgiu ao ler o post de Rui A., e de muitos outros posts na blogosfera, que apontam para uma nova cultura política. Se o PSD actual a conseguir assimilar e incorporar, ainda bem. Evitar-se-á certamente muito tempo perdido, e muito sofrimento também. Querem-nos fazer crer que não somos gregos quando já há sinais evidentes que o seremos muito em breve. Penso que o PSD estará preparado para assumir a sua responsabilidade. As minhas dúvidas estão no Presidente, que penso tudo fará para não comprometer a sua reeleição, e nos eleitores, que duvido que estejam receptivos para ouvir a verdade, habituados à cultura do monólogo do Chefe e à ficção nacional.
Beautiful moments
Posted in Placebos on Abril 17, 2010 | Deixar um Comentário »
Porque é que não somos levados a sério?
Posted in Farmácias de Serviço on Abril 17, 2010 | Deixar um Comentário »
E ofende-se o genuíno português ao ver o seu Presidente enxovalhado na República Checa! Que se vá preparando pois vêm aí mais enxovalhos… O Presidente foi ouvir lá fora aquilo que ninguém lhe diz cá dentro. Devíamos agradecer ao Presidente checo por lhe dizer directamente, cara a cara, o que precisa de ouvir: a verdade. Com a sua “cooperação estratégica” o Presidente é co-responsável pela nossa actual situação, pelo impasse em que nos encontramos.
E agora só uma pergunta incómoda. O Presidente quis desviar logo as atenções para a Irlanda. Mas a verdade é que não se ouve falar na Irlanda. Porque será? Porque é que a Irlanda é levada a sério e Portugal não? Nós não somos levados a sério porque, contrariamente ao genuíno português, eles não andam a dormir, são governos a sério e têm Presidentes a sério. São responsáveis, sabem o que é gerir recursos de um país e não o colocam em risco, nem a sobrevivência dos seus cidadãos, e já nem estamos a falar do seu bem-estar mas da sua sobrevivência. É por tudo isto que até estou grata ao Presidente checo. Disse o que precisava ser dito. E o Presidente ouviu o que precisava de ouvir.
De qualquer modo, já nada espero desta República onde o nível do programa é o da barbárie, onde já não se vê qualquer respeito pelas instituições-chave do regime porque já perderam toda a credibilidade, e onde a linguagem mais rasteira caracteriza as relações institucionais. Bem pode sorrir o Presidente, ausente da noção da responsabilidade que o seu cargo lhe conferia, que não há razões para isso… teve 5 anos para intervir, fazer valer os seus poderes, ainda que limitados, mas fazer qualquer coisa, ainda por cima sendo economista…
A vocação atlântica
Posted in Antianémicos on Abril 16, 2010 | Deixar um Comentário »
Ali o Ricardo Pais Mamede coloca a eterna questão do ovo e da galinha. Se “a Comissão Europeia vai criticando alegremente os programas de estabilidade e crescimento dos vários países por não serem suficientemente austeros” e, ao mesmo tempo, nos encontramos “[n]um espaço económico relativamente fechado, em que a esmagadora maioria das trocas comerciais se fazem entre os países membros”, pois realmente é difícil “ver de onde poderá vir a procura promotora do crescimento e do emprego”.
Sempre fomos um país pequeno e periférico, e essa sina será sempre a nossa, mas a História reservou-nos feitos que ainda hoje, mergulhados na maré de desgostos e assombrações, nos fazem pensar que podemos almejar mais, muito mais.
Urge, talvez mais do que nunca, redescobrir a vocação atlântica que nos é própria; é porventura o último sinal da nossa independência.
Bengaladas blogosféricas ao nível de Evelyn Waugh*
Posted in Anti-histamínicos on Abril 15, 2010 | 2 Comentários »
Depois de se ler este post do Maradona e este do Eduardo Nogueira Pinto, a questão que se coloca é: que estranho desígnio determinou que as almas embevecidas com PPC não tenham grande arte para a escrita?
*Aviso: os fregueses que não gostam de Evelyn Waugh não são atendidos nesta farmácia. Há mínimos para a convivência, mesmo de lados opostos de um balcão.
Obama tem trabalhado bem para tornar o mundo mais perigoso (algo que, de resto, não surpreende)
Posted in Alucinógenos on Abril 15, 2010 | 1 Comentário »
«During the course of the 1991 Gulf war, Iraq fired 88 Scud missiles at targets in Israel and Saudi Arabia. All of them were armed with conventional warheads. This despite the fact that Iraq then possessed large stocks of chemical and biological weapons. Indeed, after the war, U.N. chief weapons inspector Rolf Ekeus found that Iraq had armed 25 missile warheads and 166 bombs with biological weapons. None of them were used, even as the Iraqi military faced the overwhelming might of a U.S.-led international coalition in a war Iraq was sure to lose.
So what stayed Saddam Hussein’s hand? As the Iraqis tell it, they feared an American nuclear response. They had reason to.
In the run up to the war, senior officials—from President George H.W. Bush on down—made a series of barely ambiguous and sufficiently ominous threats to Iraqi leaders. The president sent a letter to Saddam which informed the Iraqi tyrant that “the United States will not tolerate the use of chemical or biological weapons. . . . The American people would demand the strongest possible response. You and your country will pay a terrible price if you order unconscionable acts of this sort.” Secretary of Defense Dick Cheney was equally blunt: “Were Saddam foolish enough to use weapons of mass destruction, the U.S. response would be absolutely overwhelming and it would be devastating.”
The Iraqis took those threats seriously. Four years later, Iraqi foreign minister Tariq Aziz told Ekeus that Iraq had been deterred from using its WMD because it interpreted these (and other) American threats as promises of nuclear retaliation.
This episode is arguably the most successful example of deterrence in action in recent history. Could the United States repeat that performance if we had to? Not if we were to follow the letter of the Obama administration’s 2010 Nuclear Posture Review, released (after many delays and much hype) last Tuesday.
Among the changes to American nuclear strategy announced in the review, the United States has now promised not to threaten or use nuclear weapons in response to a chemical or biological attack by a nonnuclear state.»
Agora a sério
Posted in Vitaminas on Abril 15, 2010 | Deixar um Comentário »
Eu moro a 500 m do Taguspark e ainda hoje não faço ideia que se trata de uma sociedade de capitais maioritariamente públicos. Como não sou figura pública nem tão bonito como o Luís Figo podem-me pagar apenas metade do que lhe pagaram que eu vou pequeno-almoçar, almoçar e jantar com o PM que estiver em funções, 7 dias por semana durante seis meses (mais não, que é para não dizerem que não estou a dar o meu apoio a alguém a título meramente pessoal).
Entretanto o FCP deu chapa 4 ao Rio Ave, o que me parece bem.
Inéditos presidenciais e a cultura republicana
Posted in Vacinas on Abril 15, 2010 | 1 Comentário »
Nem sei como pegar nesta ideia que me assaltou ontem ao ver a hesitação do PS, ou antes, do actual PM, em relação à confirmação do apoio à candidatura de Alegre. Só hoje percebi: o seu melhor candidato é o actual Presidente! E isto é inédito. Pela primeira vez, um Presidente eleito pelo centro-direita é o ideal para a esquerda aventureira (PS), radical (BE) e conservadora (PCP). Uma figura de cera num Museu não pode prejudicar a evangelização laica e paternalista da cultura republicana.
E o que caracteriza afinal a cultura republicana? Um insuportável paternalismo, em que se cultiva a admiração pela personalidade do Chefe: pessoa simples, de gostos muito simples… aquela reportagem sobre o dia-a-dia presidencial ficou-me registada na memória… as tarefas diárias de um Presidente, em que lhe dizem o que ler e onde assinar… e em que o próprio dirá ser muito diferente da vida de primeiro-ministro em que havia muito que fazer… e a grande inovação na mobília: a mesa para os encontros com o PM, porque não dava jeito escrever em cima do joelho…
Sim, talvez o actual Presidente tenha mesmo assimilado o essencial da cultura republicana à portuguesa, em que os cidadãos precisam de uma orientação para não se perderem no caminho, um pulso firme, uma rédea curta. E em que vêm em bandos aplaudi-lo, nas suas deslocações inócuas pelo país.
Quanto às outras características culturais republicanas, ficam ali a cargo do governo e do seu partido: a intolerância, a agressividade e a evangelização laica. Características culturais que pouco têm a ver com o sentir português: religioso, afectivo e tolerante. Mas desde quando é que a cultura republicana quis saber do sentir português, desde quando é que respeitou os cidadãos como adultos responsáveis e autónomos, capazes de decidir sobre o seu destino?
Mas é claro que esta minha ideia terá de ser aprofundada com uma actualização da História de Portugal, sobretudo do séc. XIX, que iniciei há uma semana. Para já, esta ideia aclarou-me uma dúvida pessoal: porque é que nunca me identifiquei com esta cultura republicana? Agora percebo melhor: todos os valores que interiorizei, a religião vivida de forma afectiva, do respeito pelo próximo e da tolerância, são a minha vacina vitalícia.
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Posted in Antiparasitários on Abril 14, 2010 | Deixar um Comentário »
E considerem-se avisados!!
Adiante, ando há uns dias a matutar de que modo deveria replicar ao Daniel Arrastão, perdão, Oliveira pelas insanidades que vai escrevendo, o educador-mor da corte sempre cheio de presunção. Claro que podia explicar-lhe que quem paga os subsídios sociais são os trabalhadores no activo e as empresas que mensalmente entregam as suas contribuições e quotizações, porque a Segurança Social é um gigantesco esquema-pirâmide, e escuso-me de lincar as pérolas sobre a pedofilia no seio da Igreja que o cortesão nos atirou, aos porcos.
Podia responder com o refrão na voz de Ms. Lily Allen:
Mas não. Há coisas que mais merecem ser de uma vez por todas descartadas. É o que vou fazer no Google reader.
O PGR e o Parlamento – II
Posted in Genéricos on Abril 14, 2010 | 1 Comentário »
Feita a introdução no post anterior relativamente à actuação do PGR em todo o processo Face Oculta, importa agora avaliar a decisão de Pinto Monteiro de não disponibilizar os seus despachos aos deputados do PSD em conformidade com o requerimento apresentado por este. E é precisamente esse o ponto do post de Menezes Leitão no excelente Lei e Ordem.
1. Repare-se que, mesmo que se entendesse que os despachos do PGR deviam ser inacessíveis ao comum dos cidadãos (e já vimos que os argumentos nesse sentido não colhem), a razão desse secretismo cessaria sempre a partir do momento em que, na comissão de inquérito, os deputados estão vinculados pelo segredo de justiça relativamente aos factos a ele sujeitos. Nesse sentido, a explicação do PGR de que não pode disponibilizar os seus despachos porque estão em segredo de justiça constitui um ilogicismo: é precisamente para que os deputados possam aceder a toda a documentação – incluindo a informação sob segredo de justiça – na prossecução da finalidade da comissão de inquérito, ou seja, no apuramento de eventuais responsabilidades políticas, que se sujeita os deputados ao dever de observância de tal segredo. Da mesma forma que é para permitir que o apuramento dessas responsabilidades políticas seja feito em tempo útil que o legislador permite a simultaneidade das investigações judiciais e parlamentares.
2. Se, a partir de agora, as entidades judiciárias se arrogarem o poder de recusar ao parlamento a entrega da documentação sujeita a segredo de justiça, então tal significará não só a violação da referida intenção legislativa, como também a inviabilidade do apuramento das responsabilidades políticas em tempo útil e, portanto, a inutilidade de qualquer comissão de inquérito que tenha por objecto factos com relevância criminal que estejam a ser investigados. No limite, e porque há investigações criminais sujeitas ao segredo de justiça durante mais de cinco anos (veja-se o caso Freeport), tal recusa constituirá uma sentença de morte para todas as comissões de inquérito relativas a tais factos, por muito politicamente graves que sejam. Com isso fica também a perder a investigação criminal, sabendo-se que, no passado, algumas comissões de inquérito apuraram factos com interesse para os respectivos inquéritos criminais.
3. Nesse sentido, faz bem o PSD em insistir com o PGR relativamente à entrega de todos os elementos pedidos. Nem que seja para evitar um precedente perigoso que aquela decisão ameaça criar daqui para a frente. Haja coragem também da nova liderança do partido em insistir nesse ponto, o que, aliás, se espera de quem pediu ao governo a demissão do PGR na campanha para as directas do PSD (pedido esse que em tempo devido critiquei por me parecer ameaçar a separação de poderes).
Isto dito, a separação de poderes funciona é uma estrada de dois sentidos: o PGR também tem de perceber que não pode colocar em causa os poderes de fiscalização do parlamento sem razões ponderosas e juridicamente pertinentes. Cabe agora ao parlamento explicá-lo a Pinto Monteiro.
O PGR e o Parlamento – I
Posted in Genéricos on Abril 14, 2010 | Deixar um Comentário »
Vale bem a pena ler este post de Luís Menezes de Leitão, um dos melhores académicos que o país tem na área do direito e também um jurista com coragem de dizer o que pensa, coisa bem rara na profissão e, em geral, nas nossas elites. Recorde-se algumas verdades entretanto esquecidas:
1. O PGR resolveu não abrir um processo de inquérito criminal, como a lei determinava (art. 262º nº2 do Código de Processo Penal) e proferir os seus despachos num procedimento de natureza administrativa, o que constitui, por assim dizer, uma anomalia jurídica, aparentemente ilegal por violação daquela norma. Vários penalistas têm, por isso, lançado dúvidas sobre a opção do PGR e, em especial, sobre a validade dos despachos por ele proferidos, tendo em conta a possível ilegalidade da primeira decisão de não abrir inquérito criminal.
2. Pinto Monteiro incluiu e terá comentado nos seus despachos escutas que foram declaradas ilegais. Ao fazê-lo necessariamente originou o problema de tornar públicas conversas cujas gravações tinham sido mandadas destruir. Quanto a isto, a responsabilidade será do PGR: os cidadão têm o direito a conhecer os despachos de modo a verificarem se as decisões tomadas o foram de acordo com a lei e não em função de outros interesses.
Numa democracia, a seriedade e a legalidade das decisões judiciais não se presumem: conhecem-se e discutem-se, pelo que a justiça só é democrática enquanto os cidadãos a puderem controlar através do seu escrutínio, o que pressupôe, como condições necessárias desse controlo, a obrigatoriedade da fundamentação das decisões e da sua publicidade.
3. A inclusão em despachos de escutas ou outros meios de prova considerados inválidos é recorrente nas decisões judiciais, pese embora as boas regras da arte preconizem a sua redução ao mínimo necessário. E assim é, porque, por vezes, se tornar difícil fundamentar a invalidade desses meios de prova sem fazer alusão ao conteúdo dos mesmos.
Mas perante este dilema, a solução do legislador e a prática judicial é muito clara: a publicidade dos processos e das decisões judiciais sobrepôe-se à privacidade dos visados, logo aquelas deverão ser publicadas com as devidas salvaguardas (omissão dos nomes dos intervenientes, por exemplo e redução da publicitação de tais conteúdos a um mínimo indispensável). Que assim é – e que é assim que habitualmente se procede -, demonstram-no os milhares de processos penais publicados nas bases de dados do ministério da justiça.
4. Resumida a questão desta forma, vale a pena utilizar a máxima kantiana, avançada em forma de pergunta: será que podemos generalizar o comportamento do PGR neste processo de modo a poder dizer que esse é o comportamento que se esperaria numa eventual situação análoga com que um qualquer procurador se confrontasse num determinado processo? Posto assim o assunto, parece-me que a resposta terá de ser negativa: antes pelo contrário, esperar-se-ia desse procurador que abrisse um inquérito, procedesse às investigações necessárias e que, decidindo-se pelo arquivamento, tornasse pública a sua decisão, devidamente fundamentada, mas, tanto quanto possível, despojada de citações retiradas de escutas consideradas ilegais pelo juiz de instrução.
5. Por último, sobra ainda de toda a actuação do PGR no processo uma contradição aparentemente irresolúvel entre a defesa “a outrance” da privacidade dos visados no processo e a demora de mais de quatro meses na devolução das escutas ao Tribunal de Aveiro para que as mesmas fossem destruídas em cumprimento dos despachos do Presidente do STJ. E quanto a isso, o silêncio tem sido ensurdecedor tal como o foi relativamente à questão da ausência de inquérito quando a lei a isso aparentemente obrigava. O que verdadeiramente causa incómodo é que, depois de tantas explicações, esteja tudo por explicar.
É o que dá ter ministros sindicalistas
Posted in Alucinógenos on Abril 13, 2010 | 1 Comentário »
Diz a nossa sindicalista-in-chief, Helena André, que o subsídio de desemprego é ‘um direito’ e incomoda-se se alguém que recebe dinheiro dos contribuintes numa situação de falta (espera-se que temporária) de rendimentos tiver de trabalhar como contrapartida desse dinheiro dos contribuintes (e que custa a ganhar aos contribuintes). Já não preocupa a sindicalista ministra que haja quem recebe o subsídio de desemprego ficando dois anos a usufruí-lo em vez de procurar novo emprego (as vezes que me chegaram fichas de candidaturas – cujo destino era o caixote do lixo – com a observação de que o candidato só começara a procurar emprego um ou dois meses antes de terminar as transferências de dinheiro dos contribuintes, algo que, de resto, muitas vezes era candidamente assumido pelos candidatos, como se fosse óbvio que depois de ficar desempregado se devesse ‘gozar o subsídio de desemprego até ao fim’). Nem que, devido à falta de mecanismos de fiscalização, muitos recebam o subsídio de desemprego e simultaneamente aceitem um emprego recebendo ‘por fora’ (as vezes que isso me foi proposto por candidatos que até poderiam interessar à empresa, e que recusavam as propostas de trabalho, uma vez que não queriam perder a oportunidade de acumular subsídio de desemprego com ordenado).
Ora bem, se o subsídio de desemprego fosse – como devia, e qualquer PSD liberal o proporá – efectivamente um seguro que cada trabalhador contratasse com uma seguradora, negociasse a percentagem do ordenado que receberia em caso de desemprego, o período de tempo máximo em que receberia a prestação do subsídio de desemprego, que quinhão do ordenado pagaria mensalmente à seguradora, então ninguém teria nada a dizer sobre o que outro faria enquanto desempregado e recebendo a prestação da seguradora (sendo certo que o prémio do seguro aumentaria se se tratasse de alguém propenso a grandes períodos de desemprego). Como actualmente se acede ao ‘direito’ ao subsídio de desemprego pelos descontos mensais para a segurança social, mas as receitas da segurança social não chegam para tanto subsídio de desemprego e tanta presatção social, quem recebe o subsídio de desemprego está efectivamente a receber transferências de quem produz e paga impostos. Que quem recebe o subsídio de desemprego faça trabalho comunitário, que devolva em espécie e tempo de trabalho aos contribuintes o esforço que lhes exige, é (no sistema actual) da mais elementar justiça.
(também n´O Insurgente)
Público – Bruxelas duvida que medidas do PEC sejam suficientes
Posted in Placebos on Abril 13, 2010 | Deixar um Comentário »
O PSD e uma nova cultura política
Posted in Vacinas on Abril 13, 2010 | Deixar um Comentário »
Para desenvolver este tema vou pegar num filme que revi na semana passada, o Jerry Maguire. Este filme pertence a uma lista de filmes que revejo sempre com prazer, mesmo não sendo particularmente bons em termos de linguagem específica do cinema. Há razões que a própria razão desconhece e o Jerry Maguire tem muito mais a dizer-nos do que à partida podemos supor. Jerry é um agente desportivo numa empresa que cultiva a cultura muito americana do sucesso. E o sucesso é uma espécie de patamar onde qualquer falha pode arruinar uma carreira. Esta perspectiva de sucesso não dá lugar a imperfeições humanas nem, aliás, a outras características humanas: emoções, afectos, amizade, lealdade, compromissos, etc. O que conta é o que se rentabiliza. É tudo ou nada. E vale tudo nesta competição.
É nesta cultura do sucesso a todo o custo que Jerry se lembra de apresentar um memorando que engloba os valores ali negados e que contrariam a sua base implacável e a sua lógica do facturar em grande escala. Mais tarde dirá: Era só uma lista de intenções… Mas que lhe custou o lugar na empresa, nesse mesmo dia, e o início de uma aventura em que conseguiu provar que estava certo, que a sua fórmula funciona, porque considera precisamente o factor humano!
Se puderem (ou quiserem) ver o filme, reparem bem nesta cena em que o Jerry se despede dos colegas, levando consigo os peixes do aquário, talvez a sua melhor companhia ali. Mas o Jerry não vai sair dali sozinho. Quando lança o desafio aos que o quiserem acompanhar na sua nova aventura, Dorothy ergue-se por trás da secretária e levanta o braço. Ela tinha lido o memorando. Fora isso que a inspirara. Também mais tarde lhe dirá: És melhor do que eles, lembra-te sempre disso. Como quem diz, não traias os teus princípios, os teus valores. Valem a pena.
Passando para a fase actual do PSD: iniciou-se uma nova aventura, um novo percurso, que se distancia da cultura plastificada que nos têm tentado impingir, de sucesso a todo o custo, de tudo ou nada, de rentabilização de todas as energias, sem contar com o factor humano. Este novo percurso do PSD foi preparado na fase da política de verdade, partiu daí. É a fase do memorando do Jerry, a lista de intenções. Os princípios, os valores. Agora trata-se de continuar, mas com outras bases mais sólidas, em que entra a colaboração de todos. É nessa fase que estamos agora.
Este memorando baseia-se numa cultura completamente diversa da cultura do PS e do governo actual, trata-se mesmo de uma nova cultura política. E pode provar que é a correcta para ajudar o país a arrancar do imobilismo e da mediocridade. Porque segue uma lógica de equilíbrio e agilidade, de inteligência e sensatez, e sobretudo, inclui o factor humano: lealdade, compromisso, responsabilidade, etc. Só uma cultura assim abrangente, e que respeita as pessoas enquanto colectivo, pode mobilizar o país. E só a partir de uma mobilização colectiva podemos sair desta lógica actual, da inevitabilidade da decadência e da pobreza.
Futebóis
Posted in Anabólicos on Abril 12, 2010 | Deixar um Comentário »
Grande jogo, emocionante mesmo, o desafio entre o Nuno Pombo (que tenho por amigo, sério e vertical como poucos que conheci) e António Nogueira Leite.
(Mas não havia necessidade. Aflige-me sempre assistir a estas trocas de galhardetes num espaço que serve para tudo, mas não deve servir para isto.)
Novos sócios da Farmácia
Posted in Vitaminas on Abril 11, 2010 | 1 Comentário »
Como bons capitalistas, sempre interessados nas receitas que os nossos fregueses aqui nos deixam, decidimos alargar a nossa equipa de vendas de medicamentos e produtos de melhoramento da saúde (sendo que as nossas opiniões, que invariavelmente acompanham as nossas vendas, são interamente grátis!) de forma a melhor satisfazer quem nos visita. Os novos farmacêuticos – que já se estrearam – são, mais uma vez, velhos conhecidos da blogosfera: a Ana Silva Fernandes (ladies first), autora do Vozes Dissonantes e do Rio Sem Regresso, sobre cinema; e o José Barros, que recentemente participou no Desabrantizante. Acumulam ambos como comentadores e destacam-se pela argúcia e pela inteligência, bem como pela capacidade de argumentação. Pela minha parte, tenho muito prazer em partilhar um blogue com a Ana e o José.
O início de uma colaboração blogosférica
Posted in Placebos on Abril 11, 2010 | 5 Comentários »
Aqui estou, queridos Farmacêuticos! E espero que não se arrependam de tão amável convite… que eu recebi, com a maior surpresa, da Maria João Marques. Duplamente perplexa aliás, porque não percebi de imediato de que Farmácia se tratava e porque nunca me tinha acontecido ser convidada para escrever num blogue colectivo. Conseguem imaginar a minha emoção e alegria? E logo com tão ilustres colegas? Conheço a Maria João do tempo do Atlântico e acompanho os seus posts, de uma análise sempre muito organizada, n’ O Insurgente. E também da blogosfera, o José Barros, dos comentários n’ O Insurgente e, mais recentemente, dos seus posts perspicazes no Desabrantizante.
Este meu primeiro post, nesta Farmácia tão simpática e acolhedora é, para mim, o início de uma colaboração blogosférica. Até hoje estive sempre no meu cantinho, a captar vozes dissonantes e a deixar-me inspirar por elas. Agradeço, pois, a todos os Farmacêuticos, esta oportunidade de juntar a minha voz neste côro de vozes que admiro.
Quando alguém é apresentado a um grupo, a expectativa que fica no ar é a de ouvir as suas principais características. Mas de mim até eu sei muito pouco. E muito provavelmente o que sei é o papel que aprendi para representar numa peça. Sei hoje que uma das minhas características originais é gostar de comunicar, e que a timidez, que pensava caracterizar-me, foi adquirida. Também sei hoje que a ficção (teatro, cinema), que aprendi a amar desde o tempo da televisão a preto e branco, é apenas uma forma de desvendar a realidade, tudo o que é verdadeiro e genuíno, tudo o que é vivido e sentido. E que, num mundo cada vez mais ficcionado e artificial, a blogosfera é o lugar onde ainda se podem encontrar vozes que procuram desvendar a realidade, a vida afinal. Como na Farmácia Central.
Submarino ao fundo?
Posted in Corticóides on Abril 9, 2010 | Deixar um Comentário »
Nestas coisas da Defesa Nacional e Forças Armadas tenho uma opinião muito minha. Advogo o fim da Força Aérea, com a passagem dos meios aéreos actuais (excepto caças e helis ligeiros) para a Marinha, e os helicópteros ligeiros para a Cavalaria do Exército. Os meios aéreos de combate (F-16) seriam progressivamente sendo abatidos, porque não fazem falta nenhuma nos meios de defesa de um país minúsculo e periférico como o nosso pertencente à Nato, a menos que tenhamos medo que os espanhóis um dia destes entrem por aí adentro. Mas como parece que a invasão é de Valença para a Galiza, estamos safos.
Passando aos submarinos, torna-se evidente que mais não seja devido à dimensão da nossa ZEE são elementos preponderantes de defesa, e que pelas suas características terão sempre um efeito dissuasor perante qualquer ameaça à integridade do nosso espaço. Não faz sentido nenhum que um país com 50% de fronteira marítima prescinda de um meio furtivo que garanta, ou procure garantir, em conjunto com os meios navais de superfície e aéreos a inviolabilidade do país.
O actual governo PS quis jogar à batalha naval e julgou ter acertado um tiro num submarino. Paulo Portas contra-atacou e mandou, numa penada, o porta-aviões ao fundo. Se é verdade que quando saiu do ministério tirou milhares de fotocópias, parece que se esteve a municiar para o combate.
The End of the Universe as we know it (and I don`t feel fine)
Posted in Genéricos on Abril 9, 2010 | 4 Comentários »
Ainda sobre os resultados das eleições no PSD, este post do Pedro Magalhães constitui o melhor comentário político que me lembro de ter visto, desde há muito tempo, na blogosfera (vejam também o vídeo do Lewis Black).
Mas o que me preocupa mais no partido do qual sou simpatizante e no país é que possamos estar perante o fecho de um círculo relativamente a uma nova forma de fazer política que fez escola com o infeliz sucesso eleitoral socrático. E como todas as inovações, é também de temer um aperfeiçoamento, versão 2.0 do processo de abrantização por que passou a comunicação social nos últimos cinco anos.
Sejamos claros: a partir de agora, não será apenas o partido do governo a ter a sua central de propaganda, mas também o partido que mais criticou nos últimos anos a governamentalização dos “media” a seguir o mesmo caminho e a tentar profissionalizar-se no controleirismo do que se escreve e publica na blogosfera. A futura discussão pública ameaça assim tornar-se uma espécie de competição entre Dupond e Dupont, em que as infelizes personagens de Hergé surgem afinal como gémeos malignos numa forma muito particular de fazer política e controlar a informação e opinião publicadas.
Os truques, aliás, são sensivelmente os mesmos. Também PPC tem os seus apoiantes em posições de “doentia independência” (vejam lá, nem sequer são militantes do partido), disseminados por vários órgãos de comunicação social, a marcação dos adversários também se faz taco a taco perante qualquer tipo de dissonância e o duplo pensar e escrever também se verifica relativamente à questão da unidade de partido, perante o trauliteirismo de um Nogueira Leite vs. a preocupação muito legitimamente demonstrada por militantes do partido em relação ao novo líder. Perante isto o que entender do esforço de PPC em unir as pontas do partido, tido como um excelente sinal pela maioria de comentadores profissionais? Razoavelmente que também isso constitui truque já visto, inserido numa estratégia good cop / bad cop, para o reconhecimento da qual nos basta lembrar as entrevistas de Nogueira Leite e os posts que têm vindo a ser publicados pelos apoiantes de Passos Coelho nos últimos tempos.
Perante esta nova situação política – e descontado que seja o carácter prematuro, ainda que eventualmente premonitório, destas considerações – o que devem fazer as pessoas sensatas do PSD? Simples. Não colocar de lado a necessidade eventual e futura de alertar para esta realidade, por muito que isso lhes valha acusações de traição partidária por parte dos “doentiamente independentes”.
Neste âmbito, que Rangel e Aguiar Branco se protejam afigura-se perfeitamente compreensível e aceitável numa lógica de preservação, não só da necessidade de futuras candidaturas, como também de uma imagem institucional de união do partido; que outros, mais afastados desse tipo de preocupações, se calem por amor à camisola ou por qualquer tipo de auto-censura protectora de uma unidade “de fachada”, é que não será compreensível. Liberdade é sempre liberdade, sem necessidade de justificações adicionais.
Adenda: nem de propósito, o João Villalobos, que, segundo palavras do próprio, não é um pássaro, como também não é um avião, nem, muito menos, o super-homem, mas apenas – isso boa, adivinhei! – um cidadão preocupado, doentiamente independente como o outro, mas farto, saturado e exausto com as quezílias internas do PSD, parece que me leu. E em tom de confissão íntima conta-nos que Passos Coelho devia ser canonizado pela mão que estendeu aos derrotados das directas do PSD. E que, se fosse ele, Villalobos, pecador, o líder do partido, já tinha corrido todos à vassourada. Todos, quem? Ora todos aqueles que poderiam ser identificados de mil e uma maneiras por psiquiatras e psicanalistas (leia-se os que defenderam Ferreira Leite). E é desta forma que o bom do Villalobos ofereceu a prova dos nove deste meu post. Agradeço-lhe, bem como ao outro “independente” (risos) que logo apelidou a prosa do Villalobos de “análise brilhante” (sic). Dizem que a história se repete como farsa, mas, para já, parece-me que os abrantes antigos têm mais piada.
Nota: Começo neste preciso momento a escrever na Farmácia Central a convite dos seus autores e, em especial, da Maria João Marques, uma das raras pessoas que admiro na blogosfera. Haverá tempo, espero eu, para posts mais felizes, em particular, sobre música, que possam abastecer o stock desta farmácia nesse domínio.
Para escandalizar, juntamente com o post em baixo do Imodium, as consciências de esquerda que nos visitem
Posted in Antianémicos on Abril 8, 2010 | Deixar um Comentário »
Eu sou, como se sabe, menina de tendências políticas libertárias. Lá no meio da defesa das liberdades está a liberdade de autodeterminação de um povo se este estiver sujeito a outro. No entanto, não posso deixar de reconhecer que começo a vislumbrar as virtudes do imperialismo quando olho para a lástima em que os países africanos se tornaram depois das independências.
A cigana do A6
Posted in Genéricos on Abril 8, 2010 | 4 Comentários »
Hoje resolvi fazer companhia à minha cara-metade ao almoço.
Ao procurar um lugar para estacionar na zona da Av. da Liberdade, dei de caras com uma senhora de etnia cigana que, juntamente com o respectivo esposo, vendia material contrafeito (neste caso eram carteiras de senhora da Louis Vuitton e da D&G) na esquina da R. Rosa Araújo com a rua do B.P.P. (dou-lhes desde já o mérito de, se é para ir fazer trafulhices, escolherem um sítio onde ao menos apanham nem que seja por osmose os ensinamentos daquilo que resta de grandes méstres nessa arte).
Enquanto passava por eles, o sentido de justiça fez-me repudiar a venda deste material contrafeito.
Já quando estacionava, a inveja fez-me desdenhar de alguém que, com grande probabilidade, além de não trabalhar nem pagar impostos vive numa casa que foi paga com os meus e que ainda por cima usava como armazém o porta bagagens do seu Audi A6…
Demos agora todos as graças às políticas sociais da esquerda.
É tudo uma questão de concepção da política…
Posted in Genéricos on Abril 6, 2010 | 1 Comentário »
As questões que têm vindo a público sobre Sócrates começam a ser preocupantes, não tanto pela relevância que encerram em si mesmas, mas pelo padrão de conduta que mostram.
Podemos discutir se nós portugueses somos um povo com memória de peixe, ou tolerante, ou permissivo ao abuso, ou mesmo de brandos costumes, mas certo é este tipo de casos não são novidade neste nosso cantinho plantado à beira mar. A verdade é que, só a título de exemplo, as nossas obras públicas derrapam sistemática e significativamente e, independentemente de quem está no Governo, ninguém parece querer saber. Quantos ainda se lembram da derrapagem orçamental de projectos como o CCB ou a Expo98? E quem se lembra o que aconteceu aos gestores públicos que tinham por incumbência tomar conta desses orçamentos? E dos que autorizaram construção de casas para si ou para amigos em zonas de reserva protegida, já para não falar do outro que tinha um sobrinho taxista milionário na Suíça? Provavelmente estaremos a falar de um total de, realisticamente falando, zero pessoas, os mesmos que daqui a um ano se irão lembrar desta novela dos submarinos que agora enche as páginas dos jornais.
Por este motivo talvez não valha muito a pena andar angustiado com cada um dos deslizes do nosso Primeiro Ministro (PM), porque se formos pragmáticos e olharmos de forma isolada nenhum destes incidentes é mais ou menos grave do ponto de vista ético do que a mão cheia de situações caricatas de que nos lembraríamos se começássemos a recordar os últimos 15 anos. Além disso, a verdade é que nenhum destes processos ainda sequer se chegou perto de um tribunal, o sítio onde em bom rigor estas questões deviam ser apreciadas.
Então onde é que está o problema? Se em bom rigor ainda ninguém foi capaz de provar nada e se tantos outros já fizeram tão mal ou pior e nem por isso sofreram grandes consequências, porque motivo devemos estar agora a remexer neste passado que tão caro nos pode custar em termos de reputação do país, principalmente nesta altura de crise e com as possíveis ramificações das trafulhices gregas?
O problema neste caso é que “o todo” começa a ser maior que a soma das partes: começou por ser o curso tirado ao Domingo, depois o fripor, passou-se o caso TVI com o seu jornal trasvestido e as suas duas comissões de parlamentares pouco ocupados que entrevistam notáveis, o Caso Mário Crespo, a carta à direcção do Jornal Público e aparecem agora mais duas dezenas de amigos inoportunos que lhe pedem para “desenrascar” uma coisa que no mínimo não devia fazer, mas a quem foi incapaz de negar um favor, vítima do seu “coração de ouro” que falou mais alto. Não fosse isto suficiente, cada um destes temas tem sido gerido, pelo próprio ou pela respectiva equipa ministerial (de quem Augusto Santos Silva é exemplo suficiente) com a subtileza de um rinoceronte numa loja Vista Alegre.
Sendo um homem da província, local de inúmeros ditados popularuchos, o nosso PM devia saber que à mulher de César não basta ser, é necessário parecer e portanto mesmo sendo inocente, que é, pelo menos até agora, esta vida de esquema manhoso em esquema manhoso não faz nada bem à sua imagem e, mais do que isso, não faz nada bem à imagem do país.
No fundo, é tudo uma questão de concepção daquilo que deve ser a vida política. Ou bem que é uma decisão de carreira, e nesse caso aplicando-se os princípios do Código de Trabalho o nosso PM só deve poder ser “despedido com justa causa” (que é como quem diz depois de alguém conseguir provar qualquer uma das acusações que lhe fazem), ou bem que é a prestação de um serviço ao bem comum e à causa pública.
Como adepto desta segunda visão, e tendo em conta que a teia de esquemas em que o PM se vê envolvido podem custar caro em termos de reputação ao país que supostamente devia servir, principalmente nesta altura de crise, talvez esteja na altura de se pedir a esta equipa que pare de se servir para passar a servir a causa pública e procure conter os danos que já causou, a bem de todos, desaparecendo por uns tempos.





