Feeds:
Artigos
Comentários

Arquivo de Novembro, 2010

Como disse Medina Carreira ontem no Prós e Contras, e já o disse muitas vezes na Sic Notícias: sem economia não há democracia. E insistiu que, mais do que as ideologias, os números não mentem. Antes do intervalo já tinha defendido a vinda do FMI, abalado a teoria do Keynes e colocado os cabelos da apresentadora em pé, a propósito da sustentabilidade do estado social: Não podemos andar a enganar esta gente. Bem basta o governo. Os economistas têm de lhes dizer a verdade.

Podia pegar na relação cultura corporativa - democracia pela frase de Medina Carreira: sem economia não há democracia. Bastava lembrar o estado actual da economia depois de anos de expansão de um estado que funciona corporativamente, obedecendo à sua natureza – gula e avareza -, que deu nos resultados visíveis: pobreza e escassez. Medina Carreira alertou que, à semelhança do que aconteceu depois dos desvarios da 1ª República que implicaram um regime autoritário, também hoje isso pode voltar a ocorrer, e que é precisamente para evitar essa situação-limite, que devemos alterar profundamente a gestão dos recursos colectivos e criar condições favoráveis ao crescimento da economia: controlar a despesa e fazer as reformas estruturais.

Não sabendo lidar com os números que não mentem, nem querendo desvendar a verdade comprometedora, a cultura corporativa tem ao seu dispor muitos mecanismos de marketing político:  lançar a confusão, manter os equívocos, alimentar os alibis, enfim, a narrativa oficial. A cultura corporativa até tem uma expressão muito curiosa: “falar a uma só voz” (glup!, já viram o que isso significa?). E termos muito teatrais: “patriotismo” (isto é, pedalem aí para nos manter no poleiro), “acreditar em Portugal” (apanhem os cacos depois da destruição e quem se queixar é negativista), “unidade” (conformem-se à vossa existência medíocre e pedalem para aguentar isto), “esperança” (olhem para os casos de sucesso), “confiança” (olhem sempre para a minha excelsa pessoa), “coesão social” (lembramo-nos dos pobrezinhos em período eleitoral). O que se pede aos cidadãos é o conformismo e a mentalidade de escravo: Pedalem em seco mas pedalem. Quem se queixa é mau. Aceitem a vossa condição. Se pedalarem com força um dia terão também uma vida de sucesso.

Ao não conseguir lidar com a verdade, condição essencial de uma democracia, a cultura corporativa perde toda a legitimidade para sequer falar de “acreditar”, “confiança”, “unidade”, “coesão social”, “esperança”. Porque só na verdade estes termos fazem sentido. Estes termos implicam um compromisso real, concreto, não são meras palavras num “manifesto eleitoral”. Só na verdade podemos mobilizar seja quem for. Bem, durante uns tempos a narrativa oficial e o apelo patriótico eleitoral até pode funcionar. Mas não se poderá manter por muito tempo, mesmo recorrendo a todos os alibis do catálogo (crise internacional, os credores, etc.).

Ao não saber lidar com as criticas dos discordantes, condição essencial de uma democracia, isto é, tentado neutralizar as críticas e propostas alternativas, a cultura corporativa pode estar muito mais próxima do que se pensa da sua situação-limite: a tirania. Já revela traços preocupantes de uma opção clara por esse caminho. Ao apelidar todos os discordantes como “os que dizem mal de tudo”, ou como “bota-abaixistas” (termo do PM), está a passar essa mensagem de que a partir daqui será mesmo “a uma só voz”.

No tempo do Estado Novo, todos os críticos eram “comunistas” (como nos States, no maccartismo), agora os que discordam são apelidados de “fascistas” (Medina Carreira respondeu-lhes à letra com os números). Moral da história: repor a verdade, FMI já para controlar a despesa galopante e, se ainda for possível, evitar a situação-limite que comprometeria de vez uma democracia tão frágil e adulterada como a nossa.

Read Full Post »

Não sei se é da tradição e do cerimonial, ou porque têm uma oratória refinada e proverbial:

A alfinetada a Van Rompuy e à Bélgica é magistral.

Read Full Post »

Se a cultura corporativa conseguisse respeitar a simples dinâmica de uma organização – o equilíbrio -, talvez se conseguisse manter sem grandes problemas, pois poucas seriam as pessoas a aperceber-se da sua natureza corporativa. Digamos que passariam incólumes pelas diversas mudanças partidárias. Mas no ADN da cultura corporativa está precisamente o desequilíbrio, ao implicar à partida uma divisão muito clara entre um grupo dominante e os outros (pecado: soberba), com privilégios e tratamento diferenciado. Logo, é nesse desequilíbrio, provocado pela soberba, que está a génese dos outros pecados. E é esse desequilíbrio que a levará a confrontar-se com os seus próprios limites.

Assim, quais são os pecados em que a cultura corporativa exagerou e, ao fazê-lo, tornou visível a sua verdadeira natureza?

- a gula, isto é, a “voracidade boçal”: sorver tudo, própria do insaciável, do insatisfeito. Ao esgotar todos os recursos existentes (fisco, despesa a disparar, buraco do BPN, desvarios vários, buracos ainda desconhecidos, negócios e negociatas, etc.), e futuros (parcerias público-privadas, estradas de portugal, dívida e défice), comprometeu a sua própria fonte de rendimento e o seu maior alibi, a “crise internacional”. De caminho, comprometeu igualmente a soberania nacional, a recuperação económica do país e o futuro das novas gerações;

- a avareza, isto é, o medo de perder o que se possui: combina com apego, escassez, pobreza. Ao querer manter a todo o custo privilégios e mordomias – na fase em que já não há recursos disponíveis, vivemos de empréstimos, e em que parte da população já está na pobreza e outra parte para lá caminha, com crianças e idosos a passar fome, em que a Igreja já não tem mãos a medir para ajudar os que recorrem para refeições e outros apoios -, foi a fotografia com flash e tudo. Mesmo que se apelide de democracia, todos percebem agora que alguma coisa está mal, e que de democracia, a cultura corporativa tem muito pouco.

A gula e a avareza levam, necessariamente, à pobreza e à tirania. Porquê? Porque contrariam toda a lógica da vida, da energia vital, de uma economia saudável e próspera. Ao condicionar e limitar a economia, retiram-lhe a vitalidade. A economia vive de trocas, de negócios, de colaboração, de dinamismo, de criatividade, de investimento, de confiança, de gestão de expectativas, de qualidade de produtos, de informação fiável, de produtores-criadores e clientes. A partir do momento em que este circuito é adulterado e deformado, já teremos problemas. E como uma economia com problemas não cria recursos para todos e os que dominam o jogo não querem abdicar dos poucos que restam, temos problemas ainda mais graves. É nesta fase que estamos agora: a fase da pobreza, da escassez, da perda de confiança, do medo, do desequilíbrio social acentuado, do desânimo e da revolta.

Os verdadeiros pilares da estabilidade nacional e da coesão social, os que têm segurado as pontas desta situação-limite, têm sido a sociedade civil, a Igreja e o CDS na AR. E também alguns municípios. Não vejo mais nenhum a tocar nas questões essenciais, com iniciativas concretas, trabalho no terreno, dedicação diária e sistemática. Podemos ouvir algumas palavras de circunstância, mas isso não muda nada.

Read Full Post »

Incompreensível

Incompreensível é o mínimo que se pode apelidar. Podíamos também dizer que está tudo louco. Demente. Insano.

Read Full Post »

N’O Cachimbo de Magritte, onde escreve também a nossa colega de balcão Maria João, tem estado a decorrer um debate sobre a questão alemã, chamemos assim a coisa. Vão lá ler para se colocarem em dia.

Este meu post tem mais a ver com uma expressão que ouvi de um dos comentadores residentes do Governo Sombra (TSF) na semana passada – não me lembro se foi o Pedro Mexia ou o João Miguel Tavares. Disse então o comentador, mais ou menos por estas palavras, que era inevitável que a Alemanha passasse a controlar com mais pormenor as contas dos países periféricos porque os contribuintes alemães andaram (andam?) a pagar-nos para andarmos a asfaltar o Alentejo.

Há muito tempo que não assistia a uma seta tão certeira como esta.

Read Full Post »

Eu tenho muitas reservas sobre este sacrossanto direito à greve. Parece-me algo saído das cavernas marxistas da luta de classes e é para mim inentendível que haja um confronto de interesses entre patronato e trabalhadores. Pelo contrário, reputo de evidente que o sucesso dos trabalhadores é intrínseco ao sucesso da sua empresa (e, logo, dos capitalistas seus donos) e que o sucesso de uma empresa traz consigo o sucesso dos seus trabalhadores. Digo eu que empregadores e trabalhadores têm interesses comuns e nada em conflito - ainda que a porção do sucesso de uma empresa que cabe ao capital e a que cabe ao trabalho possa ser motivo de desentendimentos. É normal que os trabalhadores queiram no máximo a remuneração do seu trabalho e que os empregadores pretendam minimizar os custos com o trabalho de forma a obterem os maiores lucros. A negociação, frontal e vigorosa, é boa e recomenda-se. Já uma greve (tal como o lock-out) é uma técnica de chantagem, uma forma de sabotar os interesses alheios (curiosamente sabotando também os interesses próprios, já que, como referi, são confluentes) e que só se pode aceitar em situações limite como a de uma empresa que não paga os ordenados aos seus trabalhadores (não merecendo, em qualquer caso, esta santificação constitucional). Nunca como é usada actualmente: como instrumento de luta política. Como tudo o que é contra-natura, as greves são escassas nas empresas privadas (de vez em quando há aquele clássico de uma empresa que pretende deslocalizar-se e tem os trabalhadores afirmando através de uma greve que fazem muito bem em escolherem novos locais com trabalhadores mais inteligentes). Na administração pública e nas empresas públicas o tom da música é outro e reveste-se de contornos totalitários: fazendo greve sabendo que não têm qualquer consequência na sua vida laboral além do desconto do dia (não há, por exemplo, o problema de se perder um negócio, ou de não cumprir um prazo de entrega e, assim, deixar de receber o bónus associado), os grevistas procuram causar o maior dano à vida dos seus concidadãos e restringir a liberdade alheia.

O André tem toda a razão em focar este ponto. Se os funcionários dos transportes públicos pretendem fazer greve, que a façam, mas que a façam dando a oportunidade aos restantes que querem apresentar-se ao serviço, mas que não têm alternativa se não de ir trabalhar de transportes públicos, de se deslocarem entre casa e trabalho. A recusa em cumprir serviços mínimos é totalitária e deveria permitir, num país normal e com justiça a funcionar a um ritmo mais rápido que o glaciar, que quem perca horas ou dias de remuneração devido a greve de terceiros, ou quem tenha custos adicionais para manter a sua empresa em funcionamento devido à greve, usasse os tribunais para pedir uma compensação aos sindicatos que patrocinam a greve por esses custos.

O totalitarismo da greve vai ainda mais longe, como se vê por esta notícia do i. Quem pretende defender o seu posto de trabalho e, sobretudo, quem pretende defender o seu negócio – e como os tempos estão bons para as empresas que não se esforçam por vender bens e serviços, e que bem que se sairão os trabalhadores dessas empresas (no subsídio de desemprego, pois) – é atacado pelos sindicatos nestes momentos de vale tudo antes da greve geral. E para ludibriar, perante a recusa das pessoas sensatas, efectivas ou com contratos a prazo, que não querem prejudicar a empresa que lhes paga o salário para não virem a ficar sem esse salário em tempos incertos, os sindicatos informam-nos: a greve não será maior por causa, só por causa, dos coitadinhos dos precários que não podem fazer greve.

É claro que os sindicatos – que não se vêem ter muito sucesso, mas enfim, isto das greves também deve ser estratégia de marketing para competir pelos nichos de mercado da extrema-esquerda – esperam que os papalvos culpem o governo em funções pelos transtornos da greve. (O governo é tão incompetente que até dói, e sem surpresa tem como ministra do trabalho uma sindicalista, mas os sindicatos não resistem a contribuir vigorosamente para o nosso rombo económico.) Seria muito conveniente que, se não na forma de indemnizações, os sindicatos fossem de uma vez por todas apresentados, desde logo pelos jornalistas, como instituições que fazem perder dinheiro a toda a gente e cuja importância explica muito da nossa endémica mediocridade política e económica. São as instituições mais imobilistas e reaccionárias que temos no país.

Read Full Post »

Ou então uma greve geral.

O n.º 1 do artigo 58.º da CRP diz que “Todos têm o direito ao trabalho”. Interpreto este artigo não só no seu carácter geral como nas suas especificidades implícitas; de facto, para ter direito ao trabalho devo possuir o mesmo direito de me deslocar para o trabalho. Não posso ter direito a determinada coisa se não me deixam chegar a ela.

A não definição de serviços mínimos nos transportes públicos compatíveis com este direito (a quem quiser trabalhar deve-lhe ser dado a possibilidade de se deslocar para o seu local de trabalho habitual), o encerramento de escolas e outros que tais são, por isso, uma aberração, até porque deveriam ser as próprias centrais sindicais a pugnar por isso mesmo, sendo porventura este artigo da CRP um dos mais importantes para justificar a sua existência.

Nem isto os Carvalhos da Silva e os João Proenças percebem…

Read Full Post »

… estão cheios de incerteza; a verdade, num sentido quase absoluto, é que ninguém sabe, nem pode, prever o que aí vem. Nem em termos económicos, nem sociais, nem políticos, nem civilizacionais, nada. Se todo o Mundo é composto de mudança, como dizia o poeta, essa mudança hoje é completamente indefinível e imprevisível. Caminhamos para o desconhecido, o que pode parecer quase paradoxal (caminhamos para a incerteza ou é a incerteza que vem até nós?), mas na realidade não é.

Serve o intróito para afirmar que a única pedra basilar que resta é a Igreja, porque essa professa a Verdade, celebrada com uma intensidade especial este Domingo que passou – último do ano litúrgico – Solenidade de N. S. Jesus Cristo, Rei do Universo. E escrevo isto, não por estar especialmente animado por um sentimento de missão (que alguns chamariam de proselitismo) ou por ter tido uma epifania assombrosa (que outros, ou os mesmos, titulariam de sobrenatural), mas porque, se é certo que caminhamos para o desconhecido, não é menos certo que caminhamos para o Natal.  E esse caminho tem mais de dois mil anos, e em todos esses mais de dois mil anos continuamos num caminho que é sempre diferente, e é ao mesmo tempo sempre igual. Como dizia Chesterton, “Any one thinking of the Holy Child as born in December would mean by it exactly what we mean by it; that Christ is not merely a summer sun of the prosperous but a winter fire for the unfortunate.” E hoje, especialmente hoje, por variadas e íntimas razões,  é só do que me lembro e quero lembrar.

Read Full Post »

… todo o mundo tem razão!

Este ditado é a manifestação económica de uma coisa chamada a Lei dos Grandes Números. Se fossemos obrigados a explicar a uma criança de 3 anos o que isto significa, teríamos que dizer que é como se muita gente quisesse uma coisa, ela acontece mesmo.

Uma das grandes virtudes do sistema de mercado é a democracia que lhe está associada por definição. Num sistema de mercado, impera sempre a vontade da maioria.

Obviamente que nada neste mundo é perfeito, pelo que a perversão do sistema é possível e está no peso de cada voto na formação da maioria. Traduzido “por miúdos” (e hoje em dia temos que ter muito cuidado com este tipo de expressões), isto quer dizer que a opinião de uns é mais importante e portanto é possível em limite que uma minoria (o termo técnico para isto é “oligopólio”) ou mesmo uma única entidade domine todo o sistema. Contudo, como estes são casos extremos e (felizmente) pontuais, o sistema de mercado torna-se o melhor sistema conhecido para reger a interacção entre as várias partes, apesar das suas imperfeições.

Apenas um parêntese ao raciocínio, para fechar o argumento e não deixar que alguém venha para aqui divagar sobre as vantagens do sistema socialista, do controlo do mercado pelo estado e de outras baboseiras equivalentes: por muitos atributos que um sistema socialista de controlo de mercado possa ter, ele é um monopólio por definição (já que apenas um agente económico controla o mercado à sua vontade) e se isto não fosse suficiente, esse agente que é o Estado nem sempre tem como princípio orientador na sua intervenção no mercado a equidade, como é exemplo toda a corrupção e vícios conhecidos das sociedades socialistas. Portanto não vale a pena apregoar a ideia de um Estado “justiceiro” contra uns senhores gordos que a partir de umas catacumbas oprimem o povo enquanto acendem charutos com notas, porque isto é um completo disparate e serve apenas para que o Bloco de Esquerda nos consiga divertir a todos com as baboseiras que alguns dos seus membros proferem.

Voltando à Lei dos Grandes Números, hoje vi no Diário Económico um conjunto de notícias que me deixou ainda mais pessimista quanto aos próximos tempos: aparentemente os mercados (os tais senhores gordos mauzões que queimam notas a acender charutos) já estão a dar de barato (o termo técnico para isto é “descontar”) uma intervenção externa em Portugal. Ora se acreditarmos nesta Lei (dos Grandes Números), isto põe uma pressão enorme no nosso Presidente.

Porquê? Porque como ele também acredita (não tivesse ele formação de economista ), sabe que mesmo que não precisemos de uma intervenção externa vamos mesmo levar com ela a não ser que se mudem as circunstâncias. Embora partilhe da opinião que ainda somos capazes de nos tentar desenvencilhar sozinhos desta encrenca em que nos metemos, acho que ele próprio reconhece que estamos num caminho perigoso e tenta de forma subtil evitar o que cada vez parece mais inevitável, nomeadamente quando chamou Obama para uma acção de charme e o tentou convencer que somos diferentes de todos os que até agora pediram ajuda.

Foi uma boa iniciativa: tratou-se de aproveitar uma oportunidade que se abriu com a presença de um líder importante para os destinos do mundo em Portugal. Infelizmente, o mais provável que se venha a mostrar totalmente infrutífera. As razões deste logro prendem-se com a fragilidade dos argumentos e com, mais uma vez, as trapalhadas dos nossos governantes.

Como as trapalhadas já foram amplamente discutidas, vamos ao que interessa: a fragilidade dos argumentos.

O nosso Presidente deu 3 argumentos para a diferença a nosso favor, todos parcialmente verdadeiros: não temos qualquer crise no sistema bancário, não tivemos nenhuma bolha imobiliária e o nível de endividamento público está na média da União Europeia. Para serem totalmente verdadeiros o Presidente teria que reformular os dois primeiros argumentos e dizer que ainda não tivemos qualquer crise no sistema bancário mas que ainda não sabemos muito bem os impactos reais dos apertos à concessão de liquidez que o BCE já manifestou ter intenção de fazer e que não tivemos nenhuma bolha imobiliária porque ela ainda não rebentou, embora os bancos estejam cada vez mais apreensivos com a evolução do crédito vencido à habitação e construção, que não para de aumentar.

Mesmo que isto fosse dito mudava alguma coisa na forma como olham para nós? Muito provavelmente não e a razão é simples: falta uma quarta diferença face à Grécia e à Irlanda. Qual? O nosso problema é estrutural enquanto o deles é conjuntural. Isto quer dizer que o deles se resolve de forma mais ou menos rápida simplesmente atirando dinheiro para cima do problema. Já o nosso é formado por um conjunto enorme de sub-problemas interligados relacionados com debilidades internas na nossa organização enquanto sociedade, que não só o dinheiro só por si não resolve, que não temos muita vontade de enfrentar e que mesmo que tivéssemos ia demorar uma dezena de anos a resolver. Falo em concreto da baixa qualificação dos nossos recursos humanos, da falta de visão e estratégia da maioria dos nossos pequenos empresários para quem a empresa é simultaneamente uma extensão da sua conta bancária e uma forma de fugirem ao fisco, do afastamento do nosso sistema de educação face às reais necessidades do mercado de trabalho, da burocracia, da corrupção, da falta de fiscalização, do sentimento de impunidade geral face ao que é ilícito e dos nossos valores enquanto sociedade.

Ponto positivo para o Presidente, pela tentativa. Não resultou (pelo menos assim o diz a yield das OTs no mercado secundário), pelo que há que encontrar outra forma de mudar as circunstâncias e tentar dar alguma credibilidade a isto antes que seja tarde demais.

Recuso-me a fazer pedidos directamente, mas acho que todos sabemos qual é a derradeira tentativa antes deles decidirem cá vir. Se isso acontecer, será o hat trick das trapalhadas da esquerda, depois de 1977 e 1983.

Read Full Post »

Mais uma vez ouvi o Professor Marcelo, talvez por uma ligeira curiosidade porque, convenhamos, muita coisa aconteceu esta semana, mais no plano verbal e insane é certo, mas ainda assim aconteceu. Reparei, para já, que o Professor já não dá notinhas ao governo nem ao PM pelas suas medidas numa avaliação de 0 a 20. É pena. Poderia rebentar a escala nos seguintes itens: capacidade de destruição de um país – 20; velocidade de empobrecimento de um país – 20. Assim como, por exemplo: capacidade de encobrir a verdade sobre o défice em eleições eleitorais – 20; capacidade de controle dos media (informação) e das instituições-chave do país – 20. E também ao Presidente, um 18 pela cooperação estratégica, só não chega ao 20 porque debitou dois ou três discursos tímidos sobre a economia nacional no período válido de 2008-2009 (depois disso já não conta evidentemente, considerando-se aqui o ponto de não retorno a grande mentira eleitoral. Reparem, não foi a primeira mentira eleitoral nem a única, aliás, foi talvez a décima, mas foi demasiado grande).

Desculpem este desvio, mas não resisti. O que me trouxe aqui hoje é apenas isto: o Professor Marcelo conseguiu conciliar o inconciliável, mostrou-se satisfeito com as medidas do governo (depreendo que se refere aos PECs e ao OE 2011), mostrou-nos que ainda podiam ser piores (como noutros países em que foram exigidas medidas mais duras), diferencia-nos da Irlanda, e depois debita sugestões para apoiar de forma urgente a pobreza generalizada no país, mobilizando a sociedade civil, os municípios, diversos grupos, associações, que podem colaborar em rede, e em que caberia ao Estado apenas facilitar, não servir de obstáculo. Também se referiu a um estudo sociológico recente sobre as desigualdades sociais no país, em que atrás de nós só estão a Bulgária, Letónia, etc.

Apesar de considerar que esta última parte da sua aulinha dominical, em que abordou a pobreza, ter sido a única realmente fiável, em que a manipulação verbal (em que é exímio), os equívocos, os alibis e as omissões não foram tão visíveis, não poderia deixar passar este terrível paradoxo: se já é imoral e escandaloso colocar as pessoas na pobreza, como é que pode ter concordado com as medidas do governo que mal tocam na despesa? Passa em revista as medidas e depois coloca a sociedade civil a pedalar sozinha e a manter um governo que lhe esgota todos os recursos à velocidade da luz? É pedalar em seco, de pouco valerá enquanto este governo (ou outros que funcionem na mesma lógica) se mantiver no poder. Será mais ou menos como andar a tapar buracos e nunca ver o fim da loucura descontrolada, aliás, já nem são buracos, são autênticas crateras. Claro que a sociedade civil se está a mobilizar, aliás, nunca deixou de estar mobilizada, mas a questão essencial não é essa: parem imediatamente com esta loucura nacional. O problema já está identificado. De que é que estão à espera? Um jornal francês já revelou a origem da gangrena, e digo-vos, em francês, pauvreté soa mais lúgubre do que nos livros do Charles Dickens. Pauvreté… já repararam como soa a maldição de uma qualquer múmia do Egipto?

Read Full Post »

A melhor definição de pobreza que alguma vez ouvi foi na versão criativa do Brasil: pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo. Está tudo dito aqui. E porque começo eu hoje a falar de pobreza nesta tentativa de desmontar os equívocos culturais e os pecados mortais? Porque a pobreza é o resultado, para uma maioria, da aplicação da cultura corporativa na organização política e social. Esta organização política e social também é chamada de democracia. A pobreza, como resultado para a maioria, da aplicação da cultura corporativa, tem em si a chave para desmontar os restantes pecados que ainda não abordei, porque servem de público, de base de apoio, de burros de carga, de cobaias, de alibis, etc. etc. para a promoção do pecado em geral: inveja (cobiça), soberba (ou vaidade), avareza, preguiça, ira, gula, luxúria. (*) Numa palavra, dependentes disto e daquilo, característica de um conformista que se preze.

Só um breve exercício: como definiriam pobreza no séc. XXI? Precisamente: o não acesso à informação, e aqui informação quer dizer dados fidedignos, e as causas verdadeiras de factos concretos. Também poderia ser: o não acesso a uma educação de qualidade que prepare para observar, reflectir e decidir. E também: o não acesso a um trabalho digno que permita uma colaboração activa numa dada comunidade e capacite para uma autonomia relativa. Estão a ver o pão cair no chão com a manteiga para baixo, não estão? Se não estão, eu explico melhor: em vez de informação, o que é que o pobre recebe? Isso mesmo, ficção nacional televisiva, programas de entretenimento de fraca qualidade, programas de divulgação da “ciência para as massas” em que os sexólogos substituem os filósofos, os criminólogos os sociólogos e os bisbilhoteiros os jornalistas, etc. De vez em quando há um ou outro programa com informação de qualidade, é certo, mas só toca na saúde (médicos, nutricionistas, etc.), já repararam? Não há espaços de debate e reflexão. Porquê? Porque o melhor aliado da cultura corporativa é o conformismo: aceitação acrítica da organização política e social, que é promovida e mantida pela cultura vigente, para a sua própria manutenção. Por outras palavras: evitar a todo o custo que as pessoas parem, observem, reflictam, questionem, decidam, baseadas em informação real, fidedigna.

É por tudo isto que, de todos os pecados mortais, o que me levou mais tempo a descodificar culturalmente foi precisamente o da preguiça. É o que implica mais preconceitos culturais, mais equívocos, mais alibis. E de novo, o pão do pobre fica com a manteiga para baixo. Querem ver? A que é que a cultura corporativa cola a preguiça? Ao trabalho. Querem ver por onde começa a definição de preguiça na wikipedia? “… aversão ao trabalho … ” No entanto, é a própria cultura corporativa a dificultar o acesso a um trabalho com as características que defini lá em cima. Chega ao ponto de o utilizar como isco para o voto, mas depois de prometer não dá e quando dá tira depois. E pode esticar ainda mais a corda, utilizando os recursos colectivos para aliciar uma parte da população ao maior conformismo de todos: a dependência de subsídios. Isto é a maior perversão cultural de todas: só uma economia saudável pode criar riqueza, essa energia vital de um país, os vasos sanguíneos digamos assim, as condições favoráveis para a criação de trabalho. Ora, não sabendo criar riqueza e não percebendo nada de economia, resta à cultura corporativa, depois de ter esgotado os recursos, passar à fase seguinte: procurar os alibis do costume e apelar para a mobilização colectiva em nome do interesse nacional. Nem que para isso apelide de preguiçosos os que estão inactivos. Que deverão aceitar qualquer trabalho, mesmo ao nível da escravatura. Claro que muitos já debandaram do país, e muitos outros se seguirão. O pior nestas coisas sobra sempre para os velhos, os mais vulneráveis, e as crianças das famílias que não têm essa alternativa.

É por isso que a voz da Igreja e da cultura cristã é tão incómoda: é que o que a cultura corporativa esperava era apenas o discurso que servia o interesse oficial, da capacidade de generosidade fraterna e de voluntariado. Claro que essa generosidade existe. Mas a Igreja percebeu estes tremendos equívocos culturais: se deixasse que esses alibis (crise internacional, mobilização nacional, patriotismo, etc.) substituíssem a verdade, seria cúmplice da narrativa oficial da cultura corporativa. A Igreja não quis ser cúmplice, não aderiu ao conformismo generalizado, delimitou os seus valores, não são negociáveis. A Igreja percebeu que a sua voz é determinante para desmontar estes equívocos culturais, numa época em que é cada vez mais difícil confiar numa qualquer informação. A Igreja propõe uma cultura cristã, incompatível com a cultura corporativa. Perfeitamente incompatível. Na cultura cristã, ou Civilização do Amor (Papa Bento XVI), cada indivíduo tem uma dignidade intrínseca, liberdade para escolher e decidir (livre arbítrio), e a comunidade cristã encontra sempre forma de se equilibrar internamente, cuidando naturalmente dos mais vulneráveis.

Vejam agora como esta organização baseada na cultura cristã se adapta na perfeição aos desafios do séc. XXI: uma economia baseada na informação e no conhecimento, uma economia em rede e não condicionada e limitada, que percorra livremente todo o espaço vital, uma energia viva, resultado natural de diversos talentos e inteligências, como os vasos sanguíneos de que falei ali atrás. Uma economia assim tende para o seu próprio equilíbrio, a meu ver. E é muito mais dinâmica e saudável do que a corporativa actual.

(*) Lista de pecados mortais actualizada posteriormente, pois, por lapso, a avareza tinha sido omitida.

Read Full Post »

Noite

Read Full Post »

Vendo a cobertura jornalística da cimeira da NATO primeiro perguntamo-nos se os nossos jornalistas estão com ideia de que esta é a primeira cimeira da NATO nas últimas décadas, se não mesmo da criação da alianta atlântica. Talvez estejam mesmo com essa ideia, mas deixem-me que os desengane: já houve outras cimeiras da NATO; foram aqueles acontecimentos que mereceram umas poucas polegadas nas secções Internacional dos jornais e que nas televisões, excepto em casos de manifestantes que provocaram pancadaria, não passaram de notas de rodapé.
 
Depois percebemos, pela importância que a nossa comunicação social dá ao evento só porque decorre em Lisboa, a razão do sucesso de José Sócrates, apesar de ser, fazer e dizer o impensável, aqui pelo rectângulozinho atlântico – que já apelidou uma cimeira que não se sabe que resultados terá de ‘histórica’, com o mesmo sorriso de técnico de vendas e a mesma precisão com que decretou que os problemas do ensino se resolveriam com o quadro electrónico e com o Magalhães, a mesma visão com que nos informou que o défice salvou o mundo, a mesma coerência com que defendeu que o investimento público era essencial para combater a crise económica e de seguida argumentou ser necessário cortar no investimento público para sair da crise económica, e mais umas trapalhadas que me escuso de especificar.
Nota: neste momento, a notícia de que Obama beijou a filha de Amado é a que tem maior destaque na página do DN.
Acrescento: Além de, não sei por que razão, não conseguir colocar o link para o DN, reparei que posso ter insultado os ténicos de vendas comparando Sócrates com estes profissionais. Esclareço, portanto: tenho o maior respeito pelos técnicos de vendas e estou certa que a esmagadora maioria é significativamente mais séria do que o pm, mesmo se sorridentes em demasia – sorrisos que nos técnicos de vendas se justificam com a tentativa de criar empatia e de não incomodar os potenciais clientes com os agravos da sua vida, mas que Sócrates usa porque é um alucinado e nos toma por parvos.

Read Full Post »

…principalmente porque ele serve apenas e só para eternizar uma incompetência sem rumo de um primeiro-ministro com um ego perigoso, de um ministro das finanças que em vez de se preocupar em ser técnico quer fingir-se politico, e de um partido no Governo cujo “grande contributo” para Portugal ainda está para ser demonstrado em números e não em tagarelices baratas de gente que vive no soundbyte do momento há anos a fio.

Sejamos honestos: somos governados por gente em regime de contrato a prazo, não renovável, e que já se sabe que só ainda não foi despedida por causa de uma formalidade administrativa.

Posto isto, o mínimo que deviam ter era vergonha na cara cada vez que abrem a boca em público, principalmente porque recorrem a um discurso que tenta amarrar o resto do país a uma verdadeira chantagem baseada na ideia  façam como nós dizemos porque senão isto está tão mau que nos afundamos ainda mais”.

Afinal hoje parece que descobrimos mais uma mentirinha (perdão… uma interpretação diferente) no discurso daqueles que colocámos a decidir sobre o futuro deste buraco (perdão… País!): afinal, os cortes nos salários da função pública não são para responder à crise (pois dessa forma seriam temporários) mas sim permanentes. Certamente que a culpa foi de todos os que nos esquecemos de perguntar este “pequeno” detalhe relativo à aplicação temporal da medida.

Nós, os que ainda andamos a pagar este circo com os nossos impostos (e somos cada vez menos a julgar pelo último relatório sobre fuga ao fisco) assistimos a esta telenovela degradante impávidos e serenos, mais preocupados em encontrar consolo naqueles que ainda estão pior que nós (e começa a ser difícil porque até os espanhóis e os gregos já estão com estratégias de recuperação).

Eu teria mais vergonha que esta gente e neste estado de catástrofe ficaria o mais longe possível de locais onde os meus disparates (perdão mais uma vez… palavras) pudessem afundar ainda mais o país, mas talvez seja por isso que não sou político.

Read Full Post »

Não me importava nada de levar 4 (ou 5, ou 6…) da Espanha num jogo amigável e ser o campeão europeu e mundial em título. Enfim, nesta triste realidade onde estamos mergulhados, ao menos, salve-se o circo; pão é que já não há. Nem brioches. Convém não esquecer.

Read Full Post »

O euro nasceu de uma visão (turva) de estadistas como Helmut Kohl, François Miterrand e Jacques Delors; vai-se provando todos os dias que não é possível manter uma união monetária sem uma efectiva união política, e como ninguém quer essa união política, o euro tal como o conhecemos tem os dias contados. Só o eixo franco-alemão e os países satélites têm capacidade para o manter, e portanto colocar-se-ão duas hipóteses num futuro cada vez mais próximo: ou abandono do euro por parte de mais de 50% dos países que formam actualmente o eurogrupo, ou a passagem completa e formal das finanças desses países cucos para a alçada do eixo referido. Mark my words.

Read Full Post »

Como vimos, estamos diariamente rodeados por terríveis equívocos culturais: quem se julga no direito-disto-e-daquilo-porque-sim é quem, no fundo, utiliza, reforça e promove o pecado. Retomando as cenas do 1º episódio, o que justifica e mantém a cultura corporativa é precisamente o pecado da soberba (que justifica a sua existência) e o da inveja-cobiça (que justifica a sua manutenção). Vamos ver como isto se processa:

A existência da cultura corporativa baseia-se na perspectiva de que há eleitos (e aqui não me refiro ao resultado de um voto universal) e os outros: aqui temos a soberba. Vejamos porque é que um Presidente da República repete com insistência perturbadora (pelo menos para mim), sou o Presidente de todos os portugueses, mesmo que eleito (eleições presidenciais) por uma quarta parte dos eleitores (considerando que somos uns 9 milhões depois dos fluxos migratórios e da debandada de outros imigrantes do nosso país, dois milhões que o elegem são apenas 1/4 da população votante)? A lei assim o determina: passa a ser, de facto, o Presidente de todos os portugueses. Mas se desmontarmos ainda mais este processo, veremos que a sua pretensão, ter sido eleito pelo povo, nem é exacta. No regime republicano, que é o que melhor serve o sistema e a cultura corporativa que o caracteriza, o Presidente é eleito, escolhido, antes mesmo de se apresentar sequer a eleições. Neste regime, o sistema controla tudo, a organização e os procedimentos, desde o início. Uma monarquia, por exemplo – mesmo na sua versão mais empobrecida, a constitucional, que lhe retira a sua dimensão mais importante -, já escapa ao seu controle: a figura do Rei, pelo que simboliza e pelo que representa, já contém uma autoridade. Não uma autoridade imposta, mas uma autoridade intrínseca. É essa a sua incrível força, o seu significado, o seu simbolismo cultural: representa um povo e um reino, e a sua continuidade. Essas raízes profundas também lhe dão uma força afectiva, de representação da unidade, de uma identidade, de uma cultura própria. Por isso, os gestos de um Rei são sempre simbólicos, enraizados na cultura do povo, e a sua simplicidade é muito mais eficaz do que qualquer ostentação republicana. Se comparo estes dois regimes é apenas e tão-somente para desmontar a suposta popularidade ou aproximação ao povo de um regime que, a meu ver, só quer saber do povo em época de eleições, para legitimar pela lei aquilo que já foi decidido corporativamente. E só desmontar mais um equívoco: o melhor antídoto para o pecado da soberba e da inveja-cobiça é, precisamente, a consciência da nossa vulnerabilidade e da nossa transitoriedade. Numa organização em que a figura do Rei é central, esta consciência é alimentada diariamente: o poder real é simbólico, é-lhe atribuído por um poder superior, divino. E isto faz toda a diferença.

Paradoxalmente, a manutenção da cultura corporativa só é possível utilizando, reforçando e promovendo o pecado e, para já, vamos ao pecado da inveja-cobiça. É prometendo o acesso ao seu estilo de vida pueril e frívolo, que mantém o povo na eterna expectativa a pedalar em seco. Alguns, poucos, terão acesso à mesa do sistema, mas de novo são escolhidos criteriosamente, e é sempre na base da fidelidade canina. Os demais, os consumidores de telenovelas informativas da manutenção da ficção nacional, os consumidores de programas de péssima qualidade que também reforçam o desejo-cobiça-inveja de vidas pueris e frívolas, os que consomem produtos de fraca qualidade que pagam a prestações porque nem sequer podem escolher, para esses sobrará apenas a promessa, e é vê-los a pedalar em seco. É esta a maior perversidade de um regime que se diz popular, enraizado na igualdade, fraternidade e liberdade.

Se a Conferência Episcopal alertou para os desequilíbrios, é porque alguém tem de lembrar a verdade, e a verdade está à vista, em factos reais, vidas concretas. A actual organização política não serve. O actual regime não serve. E o sistema que os mantém, baseado na cultura corporativa, não pode sobreviver no séc. XXI. Os desafios do séc. XXI – informação, conhecimento, rapidez, eficácia, flexibilidade, inovação -, são perfeitamente incompatíveis com a cultura corporativa. Esta incompatibilidade já começa a ser visível na desorientação europeia. Tão longe daquela fotografia, e em toda a encenação em azul nos Jerónimos, não acham? Estamos realmente na encruzilhada: ou enveredamos pelo caminho viável ou permanecemos condicionados, sufocados, empatados, pela cultura corporativa.

Read Full Post »

A senhorita Câncio, nos seus esforços bem sucedidos para nos entreter (rindo dos seus disparates, pois claro), escreveu que Fernando Lima não esteve em nenhum de ’todas os momentos públicos da recandidatura de cavaco’, concluindo com a sua lógica infalível (mas não acessível a quem possua mais de três neurónios ou, em alternativa, um resquício de bom-senso) que este desaparecimento de Lima é ‘a mais eloquente das confissões do presidente-candidato no que à intentona das escutas respeita’. Logo houve quem constatasse o facto de Lima não ter desaparecido e ter, ao invés, comparecido, mas isso não tirou fervor à opinião de Câncio: se Lima não estar é confissão de culpa, Lima afinal estar é confissão de culpa na mesma, porque se Lima esteve, ‘esteve muito discreto e disfarçado — não dei por q um único órgão d comunicação social tivesse assinalado a sua presença — e só visível para quem lá se deslocou, o q não inclui, naturalmente, a maioria das pessoas. é inegável q lima se esconde e é escondido’ . (O bold é meu – e, apesar de Lima ter sido avistado, e de tal facto irritante, ainda que não destruidor implacável de teorias da conspiração quando as pessoas são muito, mas mesmo muito sectárias, ter chegado ao conhecimento da senhorita Cãncio, o post inicial continua enganando os leitores).

Fazendo o ponto de situação: Lima, apesar de se apresentar publicamente numa cerimónia pública, esconde-se e é escondido (e, claro, a confissão mantém-se).

Ora sucede que eu, tal como a Isabel Goulão, o Manuel Pinheiro e o João Gonçalves, estive também na inauguração da sede de candidatura de Cavaco Silva e, lamentando desiludir quem já esperava confissões de culpa assinadas por Cavaco Silva, vi Fernando Lima. Mais. Não tendo estado sempre seguindo os movimentos de Fernando Lima e ter olhado sobretudo para outras pessoas, apesar de tudo parece-me que estou em posição de garantir: Fernando Lima não se apresentou na inauguração de candidatura sob uma mascarilha de Zorro, não escolheu como indumentária um disfarce à Dupondt ou à Peter Sellers na Pantera Cor-de-Rosa, não se sentou num cantinho cabisbaixo e virado para a parede, nem largava a correr Avenida da Liberdade abaixo (ou acima), com mãos e braços e casaco a cobrir-lhe a cara de cada vez que um jornalista ou uma câmara de televisão se aproximavam. Pensando bem, se calhar foi por não fazer nada disto que a srta Câncio considera que Lima foi muito discreto. Contudo, lá está, se os jornalistas (incluindo o do DN?) escolheram não referir Fernando Lima e as televisões decidiram não mostrar imagens de Lima isso é, sem qualquer dúvida, culpa de Lima (e de Cavaco, pois claro); se nos esforçarmos, ainda se consegue argumentar que estas decisões dos órgãos de comunicação social são também evidência cristalina da confissão de culpa de Cavaco Silva.

Sobretudo, interessa levantar pó para não repararmos na duplicidade de critérios da mais séria jornalista portuguesa. Ao senhor Sócrates, nas sucessivas novelas políticas que ele invariavelmente protagoniza, só se podem, segundo a excelsa jornalista, pedir esclarecimentos políticos se estes estiverem alicerçados em factos que levem, pelo menos, a uma acusação pelo ministério público. A licenciatura manhosa, o preço da casa, as casinhas beirãs, o Freeport, o plano para a comunicação social – nada disto pode ser assacado ao pm e quem o fizer é um pulha ou um filho disto e daquilo (ou outro adjectivo querido dos jugulares), está a caluniar, afinal nada disto foi provado em tribunal, blablablá. Quanto a Cavaco Silva, a exigência para os críticos diminui substancialmente. Escutas de telefonemas onde o primeiro-ministro se compromete em coisas dúbias são atentados ao estado de direito, mas para o PR dá-se como provadíssimo algo que se conta num e-mail roubado e que refere as conversas do autor do e-mail com alguém que trabalha para Cavaco Silva (não, não há nada de Cavaco nem de Lima). E, de regresso ao assunto do post, a ausência de Lima é evidência de culpa, a presença de Lima é evidência de culpa. Na verdade, a existência de Lima é evidência de culpa. Daquelas, claro, que um tribunal jugular certificaria. E seguiria para condenação e execução, tudo num total de uns sete minutos.

Read Full Post »

… é um perfeito misógino, na minha modestíssima opinião. É irreverente? É sim senhor. É completamente alucinado? Também. Mas é um fino misógino, e isso desculpa e vale por tudo o que se possa dizer desta personagem. O interesse desta minha noção (pessoal, relembra-se) prende-se com a estreia hoje, na Fox, da 7ª temporada do House, que ao que parece, e cito, “vai rodar em torno do relacionamento amoroso de House (Hugh Laurie) e Cuddy (Lisa Edelstein)“. A não perder, principalmente porque Gregory House é um monumental misógino.

Classifiquei a sua misoginia como perfeita, fina e monumental; quase me esquecia da quarta adjectivação: inesquecível!

Read Full Post »

Da educação

Uma das “exigências” educativas que a mim mesmo me imputei, no que respeita aos meus filhos, foi a necessidade de terem uma instrução musical mais abrangente e aprenderem um instrumento (o mais velho escolheu piano e o do meio a guitarra clássica). Como é evidente, tive de optar por um ensino privado; a educação musical do ensino básico é sofrível, com uma carga horária miserável e um programa minimilista. Gostava de viver num país que investisse mais nesta área, e não apenas por razões culturais – Lisboa nunca será Viena. O que tenho a certeza absoluta é que esta actividade extracurricular que lhes proporciono melhora significativamente a sua capacidade de aprender, estarem atentos e concentrados, e ao mesmo tempo procurarem sistematicamente superar-se. Tudo isto a música dá-lhes um pouco mais, e tenho pena que só alguns privilegiados possam garantir esta valência. Isto sim, deveria ser um desiderato nacional, em vez das frivolidades (Área de Projecto, Formação Humana, Projecto de Enriquecimento Instrumental and so on) que vão ocupando os horários dos nossos estudantes.

Read Full Post »

Não sei se estarei à altura deste desafio: tentar desmontar não só os pecados mas também os equívocos culturais. Mas como sempre gostei de desafios, dilemas, fórmulas impossíveis, aí vai:

Tudo começou num simples comentários a um post do BZ n’ O Insurgente, sobre algumas conclusões da Conferência Episcopal. BZ considerou que os bispos tinham subtraído um dos 10 mandamentos, o “Não roubarás…”. É um modo criativo de colocar a questão, mas a questão, como tentarei revelar, não é essa. Se lerem a troca de ideias que se seguiu nos comentários perceberão melhor o que quero dizer. E aqui o BZ também me atribui, pelo meu comentário, a “cobiça” (glup!). Um pecado mortal, nem mais, pois está relacionada, como veremos, com a inveja e a soberba.

Os bispos saltam um mandamento e eu caio num dos 7 pecados mortais. Tinha de desmontar este equívoco, era um desafio. Não propriamente pela opinião do BZ ou de quem seguisse a troca de ideias, mas pelo desafio em si, pelo dilema, pela fórmula impossível. E sobretudo pelos idealistas que acreditam no futuro do país. Porque a desmontagem deste equívoco cultural tem em si a chave da solução do país, da sua preparação para os desafios do séc. XXI. Querem ver?

O que é que os bispos defenderam na Conferência? O equilíbrio, a coesão social. As medidas de austeridade deveriam ser acompanhadas de “forte intervenção na correcção de desequilíbrios inaceitáveis e de provocantes atentados à justiça social”. Lembrar que estas medidas são impostas pelo governo aos contribuintes. Certo? Medidas a que os contribuintes não podem escapar. Certo? Medidas de austeridade que deveriam abranger todos os elementos de uma dada sociedade e de forma equilibrada. Certo?

E o que é que aqui significa “provocantes atentados à justiça social”?: a fome a par da ostentação, por exemplo, famílias numerosas de baixos rendimentos abrangidas pelo corte do abono de família a par de prémios e remunerações principescas de gestores públicos, por exemplo, pensões no limite da miséria a par de pensões duplas e triplas de políticos que se sentaram uns poucos anos numa cadeira do poder, etc. Estão a ver? Está tudo num qualquer livro do Charles Dickens.

É por isso que os bispos lembram que “lucros indevidos, meros proveitos eleitorais e resultados oportunistas não servem a recuperação nacional” e apelam à “coesão responsável entre forças políticas, agentes económicos, organismos sociais, movimentos culturais, comunicação social e cada cidadão como participante activo.”

O “Não roubarás” parece-me de repente deslocar-se para o prato da balança da cultura corporativa do sistema e do regime que nos domina e nos impõe uma organização medíocre votada à pobreza, não parece?

Se a nossa organização económica fosse a de um mercado livre, se houvesse concorrência leal, aberta, com regras transparentes e equilibradas, o que teríamos? Um maior equilíbrio social, a meu ver. Mais prosperidade e capacidade de lidar com os riscos e desafios do mercado global. Mas não é esse o nosso cenário. Estamos condicionados, limitados, a uma cultura corporativa de uma “elite estatal”. E enfiados numa organização europeia que também se organizou de forma corporativa. Como podem ver, caros idealistas que acreditam no futuro do país, foi a cultura corporativa que subtraiu o mandamento “Não roubarás”.

E agora vamos também tentar desmontar o tal pecado mortal que me é atribuído, a cobiça. Existe uma relação cobiça-inveja-soberba e está nas definições da Wikipedia. Querem ver? Sigam a definição de inveja, o que a caracteriza, “sentimento de aversão ao que o outro tem e a própria pessoa não tem”, “que gera o desejo de ter exactamente o que a outra pessoa tem … tanto coisas materiais como qualidades inerentes ao ser”, “gerado pelo egocentrismo e pela soberba de querer ser mais e melhor que todos, não podendo suportar que outrem seja melhor”.

Cá está, a relação com a soberba, outro pecado mortal. Ora aqui é que temos a chave da cultura corporativa, querem ver? “Sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando a manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em factos ou variáveis reais”. O que eu gosto desta definição… sobretudo da parte “sem fundamento algum”…

Mas reparem agora nesta parte interessantíssima da definição: “As manifestações de soberba podem ser individuais ou grupais. Em termos grupais, podemos exemplificar o nacionalismo xenófobo… todos os tipos de racismo, corporativismo, elitismo, doutrina de povos escolhidos ou eleitos e outras concepções semelhantes, em que um grupo se firma na crença de que é superior…”. Então? Não é precisamente o que caracteriza a cultura corporativa? Exactamente.

Leiam então a seguir o que caracteriza o “corporativismo” e verifiquem se um tal sistema tem alguma hipótese de nos preparar para os desafios do séc. XXI. No way! A não ser pela tirania. Mas isso veremos nos episódios seguintes.

Read Full Post »

Alvin Toffler, n’ “A Revolução da Riqueza”, dedica um capítulo, “O Choque das Velocidades”,  a comparar as velocidades respectivas de diversas instituições norte-americanas e, para melhor ilustrar a ideia, utiliza a imagem de vários carros numa auto-estrada:

- a mais veloz: uma empresa ou área de negócio (160 Km/h);

- a sociedade civil, colectivamente considerada, o mais heterogénea possível (145 Km/h);

- a família norte-americana, a mudar rapidamente (100 Km/h);

- os sindicatos norte-americanos (50 Km/h);

- burocracias governamentais e mecanismos reguladores (40 Km/h);

- sistema escolar norte-americano (15 Km/h);

- organizações intergovernamentais (10 Km/h);

- estruturas políticas dos países ricos (5 Km/h);

- a lei, tribunais, ordem de advogados, sociedades, e a própria legislação (1,5 Km/h).

Aqui a velocidade – um dos desafios fundamentais do séc. XXI -, refere-se, evidentemente, ao conhecimento e à produção de riqueza, que estão interligados.

No nosso caso particular, e se quiséssemos (ou conseguíssemos) ironizar, diríamos que a velocidade esteve ligada à capacidade de destruir riqueza. Já não éramos uma economia interessante, mas conseguir colocar-nos nas mãos (e no colo) da Europa e do FMI em apenas 5 anos, é obra!, não acham?

De qualquer modo, a comparação de velocidades de Alvin Toffler também nos serve para o futuro do país e ainda há quem acredite no futuro do país. É a pensar neles, nos que acreditam, que irei dedicar os próximos posts. Os idealistas comovem-me profundamente, vá-se lá saber porquê. Talvez porque já fui idealista (snif), no tempo da idade impressionável. Agora vejo-me mais como realista. Sim, realista é o que me caracteriza agora.

Read Full Post »

Cefaleias

É coisa de que não padeço, não por qualquer imunidade especial ou sobrenatural, mas porque já percebi que não vale de todo um tipo chatear-se. As coisas são como são, e resta-nos fazer o que de melhor soubermos e pudermos. O resto que ande também para a frente, ou para trás que é o que alguns querem e até preferem; quanto a mim, para à frente que é caminho! Todos os dias contados a partir de hoje serão o primeiro dia do resto da minha vida, e a começar pela coisa mais preciosa que tenho: o amor dos meus filhos. Hoje vão ter direito a um carinho especial.

Read Full Post »

«“Dois morteiros e dez bombas artesanais atingiram os domicílios de cristãos em diferentes bairros de Bagdad, entre as 06h00 (03h00 em Portugal) e as 08h00 (05h00 em Portugal). O balanço eleva-se a três mortos e 26 feridos”, indicou à AFP um responsável do ministério do Interior, sob anonimato.»

Read Full Post »

«Asia Bibi, uma mulher paquistanesa de 45 anos, mãe de cinco filhos, foi condenada à morte por alegadamente ter blasfemado Maomé. A acusada, que é cristã, nega as acusações de que é alvo e adianta que apenas está a ser perseguida pela sua fé. (…)

Asia Bibi estava a trabalhar no campo quando lhe terá sido pedido que fosse buscar água para as funcionárias. As outras mulheres, todas muçulmanas, terão recusado beber água trazida por uma cristã, argumentando que se tratava de algo “impuro”.

A discussão não passou do plano verbal, mas, alguns dias depois, Asia Bibi foi levada para a esqudra local após ter sido cercada por um grupo de pessoas que, alegadamente, lhe terá pedido satisfações sobre a sua fé.»

Read Full Post »

Só para reduzir a ansiedade do centro-direita português, porque a direita – a verdadeira, a realista, a que sabe de que representantes realmente precisamos, já o sabe muito bem -, aí vai:

O fenómeno Alegre – 2006 foi um fenómeno irrepetível. A campanha construiu-se praticamente sem meios, e sobretudo pela internet. De certo modo, foi uma antecipação do fenómeno Obama. E não foi apenas aqui, na característica “campanha virtual”, que temos as semelhanças com a campanha de Obama, foi a exploração do lado emocional, Alegre e a Trova do Vento Que Passa, Obama e Luther King, etc. De resto, as diferenças são notórias, nos meios e nos argumentos.

Que poderemos dizer dos eleitores de Alegre – 2006, além do seu enorme equívoco? Que muitos deles utilizavam a internet, foi aí que a campanha se mobilizou, e que eram, muitos deles, independentes. Concedo que a maioria dos seus eleitores seria do PS e do BE, mas votaram muitos independentes. Os tais do enorme equívoco. Pelo lado racional: argumentos do candidato e a sua suposta irreverência face ao sistema, e pelo lado emocional: em defesa dos mais desprotegidos da sociedade portuguesa (A Trova…)

Ora, tudo isto se esfumou. Alegre – 2011 é outro Alegre, o verdadeiro, igual a si próprio e reduzido ao grupo que representa: o BE sobretudo, e algum PS, mas pouco significativo.

O centro-direita, o PSD, irá votar no actual Presidente. Uma boa parte dos socialistas, o PS, também. É o triunvirato do sistema, baseado na alternância: Presidente + PSD ou PS.

A direita CDS terá duas atitudes: uns votam, outros abstêm-se ou votam em branco. E a direita independente, a que não se revê no regime nem no sistema, provavelmente hesitará em dar-se ao incómodo de pôr lá os pés e abster-se-á.

Portanto, é fazer as contas: maioria do PSD + boa parte do PS + uma parte do CDS + a popularidade do actual Presidente = já dará para ganhar as eleições.

Não subestimar Nobre, no entanto. Dali pode emergir um novo fenómeno, também ele pleno de equívocos, basta ver quem apoia a sua candidatura, mas não só… Com a actual situação catastrófica do país, com a pobreza a tornar-se quotidiana, visível e urgente, pode dar-se um novo fenómeno, tal como Alegre – 2006.

Read Full Post »

Aliás, no Estádio do Dragão, existem algumas regras: não se pode entrar com cães, não se pode filmar e em boa parte não se pode fumar. É omisso quanto a galináceos. Caso contrário, o Roberto teria tido algumas dificuldades no acesso a esta maravilhosa sala de espectáculos.

FMS

Read Full Post »

Não posso se não indignar-me com a titânica injustiça que se propaga neste país, socialistas avulsos incluídos, de acusar o governo de ter ignorado, desprezado, sub-avaliado, o que seja, o problema do endividamento português (e a ‘situação explosiva’ a que isso nos poderia levar, segundo a palavra de velhos do Restelo como Cavaco Silva ou daquela geriátrica insuportável da Manuela Ferreira Leite).
Desculpem-me, mas eu recordo-me, em entrevista na insuspeita e independente RTP, de ver o primeiro-ministro questionado sobre o crescimento do endividamento. É inegável: o primeiro-ministro tinha bem conhecimento do problema e de forma nenhuma mostrou surpresa pela questão. E, vejam bem, o primeiro-ministro até tinha uma resposta pronta: o país estava endividado devido à alta dos preços dos combustíveis, e é bem conhecida a dependência energética de Portugal face ao exterior. Mais, o primeiro-ministro tinha a solução para o endividamento do país e apresentou-a: apostar nas energias renováveis de forma a diminuirmos a tal dependência.

 E ainda há quem duvide que somos governados por um génio. Que gente velhaca e descrente.

Read Full Post »

Enquanto caminhamos para o mítico 7% de juro da dívida pública podemos, em definitivo, encomendar as ligaduras e mumificar quem nos governa, e assim deixando-os para a posteridade, porque merecem constar nos anais da história como paradigmas da suprema incompetência e mentira.

Read Full Post »

O nosso clube é a nossa fronteira:

O nosso clube é o nosso castelo:

O nosso clube é a nossa tribo:

O nosso clube é só nosso, não é de mais ninguém!

* Livro de Desmond Morris

Read Full Post »

Camões chorou a despedida, e a saudade, como nenhum outro poeta o conseguiu; no fundo, para além de um visionário, era um desesperado. Um louco perdido, onde sobra o indivíduo e aqueles que lhe estão mais perto, mesmo que só em determinado tempo a alma daqueles seus companheiros de viagem – há quem lhe chame peregrinação – perdure.

Também nós somos, em algum momento, peregrinos como ele. Chesterton, n’O Homem Eterno, introduz a obra com as seguintes palavras: “Há duas maneiras de chegar a casa; uma delas é não chegar a sair. A outra é dar a volta ao mundo até regressar ao local de partida (…)”. O meu tempo é ainda desta volta ao mundo, mas hoje lembro-me de todos aqueles do coração que hoje não se encontram ao meu lado. Resta-me a certeza de que, quando voltar a casa, os encontrarei de novo.

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Read Full Post »

Pelo conteúdo do discurso de ontem na AR e de como chamou a atenção para o que ninguém parece querer assumir – que o caminho da consolidação orçamental não é trabalho para um ano e já está -, conteúdo que de resto se espera seja ouvido e percebido por todos; parece que da última vez que MFL previu desgraças com a continuação das políticas despesistas do PS afinal tinha razão, apesar de ter sido gozada por jornalistas e comentadores e tratada como senil pelo PS e por sectores do PSD; donde: é provável que Manuela Ferreira Leite tenha razão novamente.

E, sobretudo, pela liberdade que demonstra em todas (e esta foi só mais uma) as intervenções que faz, dizendo o que pensa, sem comprometer o que julga dever ser transmitido aos portugueses, sem dar cavaco a teorias de marketing político ou a sondagens ou, até, à vontade dos eleitores, sem cálculos sobre as consequências políticas das suas palavras. Este comportamento tem custos (desde logo eleitorais, como se viu no ano passado). Contudo, num país onde tantas pessoas dependem da – e sustentam-se pela - boa vontade dos decisores ou dos influenciadores políticos, onde as palavras públicas e os silêncios são invariavelmente medidos para não desagradar a quem nos pode, no futuro, facilitar uma oportunidade, onde lamber as botas a quem nos pode beneficiar é visto como normal e desejável, onde discordar e e revelar ideias diferentes só cabem em estratégias de poder futuro e, fora dessa ambição, são consideradas excêntricas, alguém que manda tudo isto às urtigas e afirma o que pensa ser importante para o país em cada momento sem atender a cálculos pessoais – porque construiu a sua liberdade para não depender da política – merece toda a minha admiração (concorde-se ou não com o que diz). E tenho muita pena que não haja muita gente tão livre quanto Manuela Ferreira Leite.

Read Full Post »

A al-Qaida no Iraque advertiu hoje que os cristãos são agora «alvos legítimos», depois de expirado o ultimato dado à Igreja Copta no Egipto para libertar duas mulheres, segundo o centro norte-americano de Vigilância de Sites Islamitas (SITE).

Read Full Post »

Midterms, o rescaldo

«Democrats find common ground: It’s the White House’s fault

The bodies aren’t even cold yet in the House, but the Democratic Party has already opened up a bitter debate over who’s to blame.

The party’s bloodied moderates Wednesday released two years of pent-up anger at a party leadership they viewed as blind to their needs and deaf to the messages of voters who never asked for President Barack Obama’s ambitious first-term agenda.

Liberals pushed back hard: The problem, they say, was those undisciplined moderates, who won delays, unsightly compromises and a muddled message from a too-accommodating administration.

Yet a third group of Democratic politicians and operatives blamed not policy but a failed sales job for the party’s woes.

One thing all sides agree on: The White House blew it.»

No Politico.

Como aqui escrevi, era muito previsível que os americanos se irritassem com Obama. Resta saber se Obama, tal como prometeu hoje na sua conferência de imprensa, irá conseguir trabalhar com uma Câmara de Representantes fortemente republicana, ele que está tão convencido da sua missão providencial no mundo. Curiosamente, os democratas que restaram no Congresso são tendencialmente mais à esquerda do que os que os votos dispensou, pelo que também será interessante assistir como o presidente menos centrista desde Roosevelt e os congressistas e senadores liberais vão chegar a compromissos com um GOP que reencontrou as suas raízes (e agradeçam penhoradamente ao Tea Party) conservadoras à direita (tendo a proeza de não alienar o centro). Sempre nos distrai desta novela mexicana pouco salubre que é a política nacional.

Read Full Post »

Memória

Eu sou, temporalmente falando, um filho de Abril. Nascido poucos meses antes do 25 do dito mês de 1974, conta-me a minha mãe que, talvez fruto da propaganda radialista que inundava as casas de família, a minha primeira palavra não foi “mãe”, nem “pai”, nem tão pouco seria esperado que verberasse “liberdade” ou “cravo”. A primeirinha palavra que saiu de tão inocente boca foi “pê-cê-pê”. Como é bom termos uma mãe que se lembra, e nos lembra, destas coisas…

Read Full Post »

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 249 outros seguidores