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Arquivos para a Categoria ‘Bicos de Bunsen’

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Atrasado e com as mais humildes desculpas aos clientes aqui da casa por não ter publicado ontem a bula que me cabia, o BB 2012 para a Figura Nacional do Ano foi atribuído a duas figuras que são todo um monumento: Vítor Gaspar (que em muitos lares nacionais provocou o desfazer da tríade de reis magos nos presépios) e Artur Baptista da Silva.

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Pedro Passos Coelho afirmou há uns dias que Vítor Gaspar era o número dois do governo e Paulo Portas o terceiro, redundando que era ele Pedro Passos Coelho quem tinha a última palavra sobre todos os assuntos. Errado. Desde a tomada de posse do atual elenco se percebeu que o homem de força que tudo decide e manobra, por incumbência dos nossos credores, é Vítor Gaspar, educado nas mais altas instâncias internacionais financeiras. Sobre ele se depositaram as mais fortes esperanças de muitos – eu incluído – de que era desta. Era desta que Portugal mudava de rumo, reformando o Estado sugador de riqueza e aprendendo a viver com o que tem. Era desta que a parasitagem dos so called liberais cujos egos e empresas só sabem viver na sombra do Estado munificiente se arredavam  – ou melhor, eram arredados – em prol de um sistema realmente distributivo. Enfim, depois do bater no fundo com a culminação de José Sócrates, melhores dias viriam, mesmo assumindo e aceitando que todos ficaríamos mais pobres.

O ano que finda, de tudo o que se esperava, deu-nos apenas as nove últimas palavras da última linha do parágrafo anterior. Tudo o resto, até agora (ainda retenho uma réstia de esperança que um momento de inflexão se avizinhe), falhou clamorosamente. Nem sequer a mensagem passou. E este falhanço tem uma cara, um rosto. É de todos nós enquanto portugueses, mas é especialmente do homem do leme que, ao contrário daquele que fazia a vontade de El-Rei D. João Segundo, ninguém já consegue perceber por quem nem por onde vai.

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O segundo nomeado do ano, Artur Baptista da Silva, é também um rosto de uma realidade: o jornalismo nacional é uma anedota. Basta ler isto. Está lá tudo, mesmo que nos comovamos com falhanços profissionais inadmissíveis ao fim de 32 anos de jornalismo.

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Muito mais interessante do que a previsível reeleição de Obama (que tremeu apenas frente a um furacão e a uma medíocre prestação num debate televisisvo) foi a nomeação da década para presidente do PC Chinês – e nomeação nos próximos meses para presidente da China – de Xi Jinping. Afinal esta nomeação envolveu matéria de romance: Bo Xilai, um filho de um alto quadro chinês (grupo de elite na China, que sempre viveu rodeado de riqueza e privilégio graças às proezas revolucionárias dos pais) e político-estrela por direito próprio, que se murmurava poder suceder a Hu Jintao, foi envolvido num escândalo de corrupção e sexo que ditaram a sua expulsão do PCC e sabe-se lá mais o quê; a mulher de Bo foi condenada pela morte de um jornalista; investigações foram reveladas e censuradas na China sobre as fortunas colossais que a elite política comunista chines foi acumulando para as suas famílias, fazendo uso precisamente das suas ligações políticas (e lá se vai a convicção de que uma sociedade comunista cria um novo tipo de homem, inteiramente virado para o colectivo e totalmente desinteressado de si próprio – isto, claro, se a aristocracia estalinista ou a vida luxuosa de Mao Zedong e troupe não tivessem já desfeito tal ideia).

O mais acisado que se pode dizer de Xi e do futuro da nova liderança chinesa é não dizer nada. Os líderes do PCC e da China são como os Papas: nunca se sabe o que de lá vai sair. Em todo o caso há indícios e vários exegetas, entre os quais me vou incluir, lêem linhas de orientação em qualquer movimento. Há quem leia sinais de maior abertura a uma economia de mercado numa viagem a Shenzhen, local emblemático das reformas económicas de Deng Xiaoping e onde este também viajou em 1992. O weibo dá-lhe o benefício da dúvida pela informalidade e vontade de reduzir a pompa (imperial) em que os presidentes chineses sempre viveram (again: os comunistas são de matéria igual a qualquer gestor de um hedge fund). Ninguém dá por certa a vontade de combater a corrupção da nova equipa dirigente do PCC; toda a gente espera para ver se algo se segue às prisões iniciais. Eu, por mim, vejo o afastamento de Bo Xilai como a recusa pelo PCC da linha política que representava: o saudosismo maoísta, a emergência da nova-esquerda, a defesa de uma maior estatização. O que é um excelente sinal, a acrescentar aos discursos favoráveis à economia de mercado de Xi Jinping.

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O primeiro empate da história: Deng Xiaoping and the Transformation of China, de Ezra F. Vogel e The Churchills, A Family at the Heart of History – from the Duke of Marlborough to Winston Churchill, de Mary S. Lovell empataram como livro do ano. É certo que foram lançados no fim do ano passado, mas como ainda nem chegaram às editoras portuguesas (nem sabemos se chegarão), ainda estão elegíveis para livro do ano.

O autor da biografia de Deng Xiaping reclama que ninguém como Deng marcou o século XX. Eu discordo. O homem que, na minha opinião, determinou o curso da segunda metade do século XX foi Winston Churchill, ao impedir que a Grã-Bretanha negociasse um armísticio com a Alemanha nos últimos dias de Maio de 1940, quando o exército britânico estava encurralado em Dunquerque, levando em última instância à queda do nazismo (muito bom) e à emergência do comunismo soviético na Europa (muito mau). (Nunca leu Five Days in London, May 1940, de John Lukacs? Então vá a correr ler.) O século que Deng Xiaoping inexoravelmente marcou, apesar de ter nascido e morrido no século XX, foi mesmo o presente século XXI, que tem já a China como uma grande potência mundial – algo que alterará todos os equilíbrios de poder e que sucedeu graças às reformas económicas de Deng Xiaoping.

O livro de Ezra F. Vogel é sobretudo uma biografia política de Deng, do seu percurso revolucionário, das perseguições que sofreu dentro do Partido Comunista Chinês e do seu derradeiro sucesso. Deng foi, com Liu Shaoqi, um dos grandes alvos de Mao durante a revolução deng xiaopingcultural. Foi purgado, preso, exilado, o filho torturado, as filhas impedidas de frequentarem a universidade e depois, quando Zhou Enlai estava já moribundo, reabilitado por Mao porque mais ninguém conseguiria governar o caos em que Mao e a sua revolução cultural haviam mergulhado a China, para novamente ser perseguido pelos radicais de Mao e apelidado de ‘capitalist roader’. Deng consagrou-se como o líder desejado pelos chineses em 1976 nas manifestações de pesar pela morte do moderado e humano (enfim, menos desumano que outros) Zhou Enlai, de quem Deng era visto como sucessor. Com o sentido de humor que a história demonstra, as manifestações de pesar pela morte de Zhou e exigindo o governo de Deng centraram-se na praça Tiananmen, que em 1989 seria palco dos massacres que crucificaram (com razão) Deng na opinião pública mundial. A biografia de Vogel é empática com o biografado (necessário para qualquer boa biografia) e mostra que se Deng tem a responder pelo seu quinhão de crimes políticos (entre os quais os de 1989), também não se deve esquecer que fugiu ao culto de personalidade, que pretendeu introduzir algumas reformas democráticas na China (as eleições para os comités de aldeia em 1982, que agora são uma salganhada) e que perseguiu as políticas que levaram ao crescimento económico chinês e que graças a Deng todos os anos na China milhões de pessoas saiem da pobreza. E eu concordo: houve ditadores bem piores que Deng.

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De regresso ao homem que marcou o século XX, temos este livro que cobre quatro gerações de Churchills, dos avós de Winston aos filhos e aos sobrinhos de Winston e que tem mais de crónica social do que de política. Mas para quem, como eu, não dissocia a personalidade dos indivíduos (e há algo que marque mais a personalidade do que a genética e o ambiente familiar?) das suas posições políticas ou quem, novamente como eu, gosta de conhecer a pessoa que há num político (apetece lembrar um livro de Lucian W. Pye sobre Mao Zedong que tem por subtítulo The Man in the Leader), ou ainda para quem, repetidamente como eu, se interessa pela nunca entediante aristocracia britânica, este livro é uma leitura muito recomendável.

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Os Bicos de Bunsen – os galardões mais aguardados do ano, seleccionados pelo mais exigente colectivo de júris (os farmacêuticos, pois claro), resistindo ainda e sempre a poderosíssimas agências de comunicação (que não nos abandonam a cada último trimestre tentando influenciar-nos à escolha do seu candidato), depois de análise de listas com numerosos candidatos que inevitavelmente contêm as personalidades mais prestigiadas e os maiores palhaços de cada ano – regressarão no dia 31.

A equipa técnica da farmácia aconselha uns comprimidos de valeriana aos que não suportam a ansiedade da espera.

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As ditaduras dos países islâmicos que caíram este ano pela força das manifestações populares não se recomendavam (e as que ainda não caíram também não se recomendam), no que constituiu um final adequado para os líderes políticos que pretenderam entreter a populaça com o ódio aos americanos, judeus e demais infiéis enquanto patrocinavam governos incompetentes e corruptos que promoviam o empobrecimento da mesma populaça. Sucede que os governos que as substituíram também não dão grande entusiasmo, como também não dá o ódio – desde logo contra as mulheres, ocidentais e locais – que perpassa pela populaça, como demonstra a miserável imagem recente do Cairo em que uma mulher (que tem a ousadia de pôr um soutien azul), entre outras, foi brutalmente espancada pelos afectos ao governo militar. Não se sabe como evoluirão os acontecimentos, mas dada a actual e maioritária intolerância e brutalidade do Islão – sim, do Islão – certamente que nestes países tudo piorará antes de melhorar.

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Não há grande dúvida sobre a grande melhoria sentida neste nosso país este ano: José Sócrates deixou de ser primeiro ministro e até teve, de seguida, o bom gosto de se retirar para fora do país (ainda que o facto de não ter procurado, finalmente, encontrar um emprego numa empresa, e isso são más notícias, demonstre que de facto entende que não serve para mais nada do que para a mais baixa intriga política e esteja, portanto, a preparar-se para a candidatura à presidência da república). Também são más notícias o termos de viver, por uns bons anos ainda, com as consequências da governação criminosamente incompetente de Sócrates.

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A escrita é elegante, a estética irrepreensível, a opinião pertinente, os textos sobre livros e autores (a que sempre volta) os meus preferidos na blogosfera. (Talvez seja porque Joana Carvalho Dias partilha comigo uma austenmania.) O nosso galardão de Blogue do Ano vai, pois, para O Tempo e as Vontades. E mais não escrevo; melhor do que lerem-me sobre o blogue é irem lá ler o blogue. Todos os dias, a ver se há novas entradas.

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Das trevas fez-se luz, e um milagre aconteceu; um milagre que tanto se deve a Deus como ao melhor engenho e arte do Homem. 33 almas foram resgatadas das profundezas, contra todas as tristes sortes em que habitualmente estes acidentes são pródigos.

O caso é por demais conhecido, e sobre a narrativa factual não é necessário falar mais. Seria sempre demais, tal foi a mediatização de boa cepa que o assunto mereceu. O que interessa de tudo isto é que houve uma vontade, uma vontade que tudo superou e tudo venceu. E isto, minhas amigas e meus amigos, num mundo que tantas vezes nos parece sombrio e taciturno, é um sinal de esperança, quando ela é tão necessária.

Mina de S. José, cápsula Fénix, ¡Viva Chile, mierda! e outros lugares, parafernálias e expressões que ouvimos durante os meses de escuridão, mas principalmente nas horas seguidas ao vivo pela televisão da subida  para a luz nunca mais serão esquecidos, e sintomático disso é que este acontecimento internacional foi escolha unânime dos farmacêuticos da casa.

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Os candidatos foram muitos, entre eles Pedro Passos Coelho e Teixeira dos Santos, mas a nossa escolha como personalidade nacional do ano de 2010 foi  Manuela Ferreira Leite.

Devo confessar que sou um adepto fervoroso de Ferreira Leite e continuo convicto que teria sido uma PM muito superior a José Sócrates. Teria sido a PM que Portugal precisava. É uma pessoa integra e séria como não se vê na politica, mas que foi vencida pelo marketing politico e pelo estilo demagógico do actual primeiro ministro.  O Pais perdeu com isso e ganharam os netos de Manuela Ferreira Leite.

A curiosidade da vitória na nossa prestigiada eleição, foi que MFL pouco teve que fazer em 2010 para vencer este prémio a não ser assistir às más noticias que foram surgindo ao longo do ano. Grande parte do trabalho foi feito em 2009,  sobretudo na campanha eleitoral das legislativas.  O tempo encarregou-se de demonstrar que tinha razão ao afirmar que o endividamento é o nosso maior problema e que projectos como o TGV e o novo aeroporto não são adequados à realidade que vivemos. A prova que tinha razão é que desde o final de 2009, o PS governa em regime de sobrevivência  sem saber o que fazer para nos tirar de este buraco.

Manuela Ferreira Leite está  a cumprir discretamente o seu mandato de deputada (ainda nos brindou com um discurso brilhante na discussão do OE 2011) e dedicar tempo aos seus netos. Num ano de tantas más noticias, mostrou que a politica deve ser desempenhada por pessoas integras, competentes e com um interesse genuíno em resolver os problemas de Portugal.

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O nascimento da segunda criança cá de casa levou a uma ruptura no fluxo das minhas leituras. Uns meses depois (aí uns dez) já lia a um ritmo considerável e vagamente semelhante ao anterior à vinda da segunda criança. Mas como a leitura agora é interrompida mais vezes, a segunda criança ainda não dorme tão bem como a primeira e o tempo continua a ser escasso e o cansaço grande, a leitura ficava-se por livros fáceis: as reedições da Nancy Mitford, umas visitas a Roma antiga com a Lindsey Davis e o seu detective Marcus Didius Falco, a descoberta de Alice Munro, um P.G. Wodehouse e outras leituras por aí. No Verão lá me aventurei a voltar a abandonar a ficção com a história dos duques de Guise. Agora no fim do ano li Rites of Peace, The Fall of Napoleon and the Congress of Vienna de Adam Zamoyski, que o Miguel me havia recomendado há um ano - o que me deixou orgulhosa, dadas as seiscentas ou setecentas páginas do livro (até aí trezentas por livro chegavam). Por fim, lá veio o Crimea, The Last Crusade de Orlando Figes, com a Florence Nightingale, a Charge of the Light Brigade, o jornalismo de guerra e todos os restantes clichés da guerra da Crimeia, mais o ambiente político e social que levou a este embate entre a Rússia e a Grã-Bretanha para os lados da Turquia. Tudo isto por um profundo conhecedor da história russa e numa escrita agradável que até uma mãe de duas crianças pequenas conquista.

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A visita de Bento XVI a Portugal, em Maio deste ano, tornou-se um acontecimento que pode bem ser definido como um encontro feliz. Num encontro feliz há a alegria do encontro, e uma influência benéfica nuns e noutros. Este encontro alterou a percepção popular do Papa, tornando-o próximo, uma figura afectiva para além da intelectual. E no Papa, colocou um sorriso afável, num rosto até então ansioso e tímido, atormentado pelos casos mediáticos de pedofilia na Igreja.

Também encontro feliz, porque tanto o Papa como o povo português vivem momentos difíceis. O Papa encontrou tempos bem mais áridos, em termos de valores cristãos, e uma Europa a laicizar-se de forma agressiva. O povo português, ao deixar-se arrastar por valores plastificados e artificiais, viu-se abatido por uma situação económica e social precária, e profundamente desmoralizado. Este encontro veio suavizar os desafios que o Papa tinha pela frente, e permitir a um povo redescobrir a sua natureza essencial, a fraternidade universal.

Se repararem bem, há uma mudança no rosto e na voz do Papa, quando discursa brevemente no avião e no aeroporto à chegada, e depois nas homilias e no discurso de despedida. Há um antes e um depois da visita a Portugal. Foi como um segundo fôlego, ganhou ânimo e inspiração. Esta mudança está registada pelas câmaras. No povo português a mudança verificou-se mais ao nível da sua identidade. Redescobriu-se e reencontrou-se. A capacidade de se mobilizar em momentos fundamentais da sua vida colectiva, e os seus valores essencialmente cristãos que o estruturam na cultura da amabilidade.

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O melhor do filme sobre o facebook é não ser sobre o facebook (ferramenta que me causa algumas reservas e muitas perplexidades). A invenção e a criação do facebook andam lá misturadas, mas A Rede Social é um filme sobre pessoas, sobre relações e sobre motivações. Mais: é um bom filme sobre pessoas, sobre relações e sobre motivações - e um bom filme sobre pessoas, relações e motivações garante sempre momentos bem passados. Com argumento de um Aaron Sorkin ao nível das melhores temporadas de West Wing - que promete diálogos vivos e inteligentes e ritmo adequado à narrativa – passeamo-nos pelas amizades entre os criadores do facebook, pelas desconfianças e pelas traições, por negócios desfeitos, por invejas, por vinganças, pelo sucesso e pelo preço do sucesso e, claro, pelos famosos processos judiciais do facebook – e, novamente, pelas motivações que originam tudo. Boa história, bom ritmo, bons diálogos, personagens credíveis (não interessando nada se fiéis à personalidade real de cada um dos retratados), intensidade dramática q.b., excelente montagem. Enfim, muito bom.

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É definitivamente a Némesis dos EUA neste fim de década, este senhor australiano com ar afectado que tentou, quase conseguindo, vergar a diplomacia da potência mundial. A arma utilizada, o site WikiLeaks, tornou-se o assunto da moda, bem como o seu mentor, que é acusado pela justiça sueca, até ver, de não saber colocar decentemente a camisinha no instrumento.

Assange tornou-se, para uma determinada esquerda modernista e mesmo alguma direita libertária, no paradigma da liberdade de expressão e de informação. A mim, parecia-me que o rapaz teria alguns parafusos a menos, fruto de um passado onde teria apanhado sol a mais na mioleira. Lá na Austrália é assim, as folhas dos eucaliptos não tapam decentemente os raios do astro-rei. Mas como o paladino entretanto já terá vendido os direitos a uma editora da sua história, quer-me cá parecer que é no fundo mais um oportunista. E há tantos por aí.

Mas não deixa ninguém indiferente, e é por isso a nossa escolha. E pela nossa parte, ele pode ficar descansado, que está autorizado a leakar estes seus 2′ de fama quando e onde quiser!

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A partir de amanhã há bicos de Bunsen.

Estejam atentos.

Muito atentos.

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2009 foi um ano de acontecimento suculentos: a tomada de posse do primeiro presidente afro-americano nos Estados Unidos; as guerras do gás entre a Ucrânia e a Rússia, com a Europa a apanhar por tabela e a procura de uma crescente influência geo-estratégica da Rússia como pano de fundo; a crise económica e o seu uso como desculpa para uma ofensiva estatal em todo o mundo; a cimeira de Copenhaga e o Climagate; a primeira pandemia do século; o Tratado de Lisboa; aquela coisa esquisita nas Honduras, em que os golpistas ilegais pretendem uma democracia e o presidente eleito e deposto pretendia uma ditadura; o referendo suíço que baniu os minaretes; mesmo no fim do ano, o atentado terrorista falhado num avião da Delta; e mais uns quantos.

Contundo, na humilde opinião destes vossos farmacêuticos, o acontecimento do ano que merece o tão disputado Bico de Bunsen foi a reacção iraniana às eleições presidenciais de Junho, ganhas sabe-se lá com que falcatruas (e não se vai saber porque quem podia não estava interessado em investigar) pelo demente Ahmadinejad e perdidas por vários, entre os quais se destacou o ‘reformista’ Mir Houssein Mousavi.

As manifestações de indignação pelos resultados elitorais foram marcantes por várias razões. Porque a pantomina que alguns defendiam que rezava que o regime iraniano liderado por um ayatolah maluco era a escolha pacífica dos iranianos foi desmontada. Porque se clarificou – pela reacção violenta dos ‘vencedores’, que bateram, assassinaram, prenderam, torturaram, ameaçaram,… àqueles que se manifestavam contra Ahmadinejad – que esse regime, mesmo que ganhasse legitimamente eleições, era iníquo. Porque tornou indefensável (pelo menos para quem tem alguma vergonha) a defesa de Ahmadinejad pelos maluquinhos anti-americanos ou anti-Bush que não se incomodavam com o que é a teocracia iraniana desde que esta desafiasse os EUA (ou, pelo menos, desafiasse Bush). Pela presença de mulheres (e giras, e produzidas e vaidosas, como quaisquer mulheres – ocidentais ou de outras paragens) nas manifestações, matando também o mito de que as mulheres muçulmanas apreciam ver os seus direitos cerceados pelos piedosos muçulmanos de género masculino. Porque deu cabo da estratégia de Obama para o Irão (que se pode resumir por appeasement de Ahmadinejad) que levaria ao fortalecimento do poder regional do Irão e que serviria para legitimar aquela teocracia (de resto é conhecido o enfado com que foram encaradas na Casa Branca estas manifestações iranianas que estragaram o grande plano do Nobel da Paz). Porque mostrou que a intransigência de Bush em não aceitar como interlocutor Ahmadinehad deu frutos criando resistência interna no Irão. Sobretudo porque, vindo mais tarde ou menos, esta contestação no Irão – que vive por agora os próximos capítulos – contribuíu para uma futura mudança no regime iraniano.

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Sei que já é um pouco tarde para estes galardões, e que estes incompetentes farmacêuticos que vos aviam nem encontraram um bocadinho de tempo para entregar estes tão conceituados prémios anuais até ao fim do ano correspondente, e que graças às mudanças, à gripe e a uma ainda relativa info-exclusão (se os senhores do MEO/PT não forem lá a casa colocar rapidamente a ligação, ai vai correr mal, vai sim, senhora) e, por fim, ao escritório do meu pai onde vos escrevo ser muuuito frio já estamos quase a meio de Janeiro. Mas apetece-me entregar uns Bicos de Bunsen – só meus, neste caso, os outros farmacêuticos podem entregar galardões concorrentes, que a gente divide os vultuosos prémios monetários por todos os escolhidos para a mesma categoria.

E, assim, o blogue do anoo 2008 que ganhou o Bico de Bunsen da Carmex é o Eleições Americanas de 2008 de Nuno Gouveia. Pela relevância do tema, pela qualidade da cobertura, pela quantidade de informação oferecida, pela isenção que soube manter apesar da sua simpatia por McCain, pela perspicácia das análises que foi fazendo. Sem dúvida nenhuma a melhor cobertura em língua portuguesa às eleições presidênciais americanas e também das melhores coberturas que se viram fora dos Estados Unidos. O Nuno Gouveia é um trunfo para comentários sobre a política norte-americana para qualquer meio de comunicação social que for suficientemente inteligente para o requisitar e é também um trunfo para o PSD na sua compreensão do que pode ser um bom fenómeno comunicacional – assim o PSD o queira aproveitar.

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A luta foi bem renhida e pesa-me pessoalmente que o nosso cândido governo não tenha sido directamente premiado nestes galardões, mas à última da hora, um voto tardio fez pesar a balança para o PSD deitando por terra aquilo que seria um empate técnico entre este partido e o governo. De qualquer maneira fica o partido laranja, e pelas razões óbvias que nem vou perder tempo a escrever, como digno representante da decadente democracia portuguesa.
O mito de uma oposição decente apenas perpetua a arrogância de José Sócrates e populariza um governo que vive de propaganda e manipulação mediática.

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Nicolas Sarkozy é o vencedor do Bico de Bunsen de Ouro para a Figura Internacional de 2007. O prémio é merecido e vem colocar ainda mais pressão sobre o actual Presidente Francês – sim isto começa a revelar a influência da Farmácia Central.
Sarkozy impôs desde o inicio as suas ideias e conseguiu de um modo geral mostrar que tem pêlo na venta. É certo que algumas das suas ideias e acções são controversas.
Uma das primeiras medidas foi uma redução dos impostos (em particular da classe média) com o objectivo de crescimento do PIB – Zé, que tal uma acção parecida em vez que andarmos em joggings publicitários?
Também já disse que pretende trabalhar em conjunto com os Estados Unidos no que toca a questões de politica externa.
Muito esperamos deste senhor baixinho, mais do que o alegado namoro com Carla Bruni, e que também motive uma mudança de mentalidade por essa Europa e que nos “afecte” por arrasto.
Borostyrol, com o empréstimo do login da Carmex

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O filme foi estreado em 2006, a gente sabe, mas por cá esteve em 2007, e é isso que nos interessa. Votámos em A Rainha por ser um filme inteligente, retratando um universo de subtilezas com grande sensibilidade e (once again) subtileza, mostrando os espartilhos criados pela posição, pela educação e pelas “escolhas” impostas na família real britânica e visíveis num momento de crise, revelando o embate de uma instituição tradicional e tradicionalista com as emoções à flor da pele potenciadas pelo imediatismo dos media, realizado com brilhantismo e interpretado com mestria – com destaque para a sublime Helen Mirren, que com inteira justiça ganhou tudo o que havia para ganhar.

Desejam-se muitos filmes igualmente bons para 2008.

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Por alguma razão foi eleita por unanimidade! A frase que Juan Carlos protagonizou foi muito mais do que um desabafo oportuno, um impulso autoritário ou uma arrogância imperial como muitos quiseram fazer-nos crer na altura. A frase do Rei é o grito desesperado de um mundo civilizado, livre e democrático que se insurje contra a imundice ideológica, o autoritarismo e a miséria dos povos à custa de cada vez mais dissimulados e infiltrados  meios para atingir o mesmo fim.

¿Por qué no te callas? é certamente a frase que muitos gostariam de dizer, neste início de novo ano, a todos os prepotentes e autoritários líderes do mundo cujos atributos energéticos os fazem ser recebidos em todo o mundo com pompa e circunstância fazendo esquecer as vidas daqueles que pisaram…

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Pois é, mesmo sem termos estatísticas apostamos que o livro mais vendido em 2007 foi o último da saga de Harry Potter contra Voldermort. Mas o Bico de Bunsen não foi ganho como prémio de vendas, não senhor: todos os livros da série Harry Potter são deliciosamente bem escritos, verdadeiros page-turners inteligentes e com personagens bem desenvolvidas e empáticas, criando um universo fantástico que é apelativo a crianças e a adultos (bem, pelo menos a mim e aos restantes farmacêuticos que votaram comigo). Sobretudo, proporcionam boas horas de leitura – e essa é a função principal de um livro.

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Nuestros hermanos passaram com distinção neste teste que obteve apenas uma abstenção. Não há nada a fazer, nós gostamos de Espanha. A terra prometida em que se tornou, mesmo aqui ao lado, faz com que progressivamente se abandone o preconceito e sobranceira que os portugueses tinham em relação aos espanhóis, substituindo-os por admiração e fascínio. Pena que não nos fique também o exemplo e não deixemos de lado as expressões feitas como “somos latinos, não há nada a fazer” e que se revelam em Espanha como a negação dessas ideias.

Espanha atingiu um patamar independente de ideias, religiões e preconceiros. Indiferente aos partidos e aos políticos que se transformaram apenas em velocidades diferentes de um carro bem embalado.

Que diferença!

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Não nego que a Carmex teve um efeito catalisador nesta eleição. Este é também um tributo dos farmacêuticos à nossa colega que foi durante este ano desafiada para aquele projecto.
Que isso não impeça o reconhecimento do Blogue Atlântico por parte deste outro blogue tão diferente.
O Atlântico é um blogue político que tem um papel fundamental na blogosfera portuguesa e que reúne um conjunto muito estimável de pessoas. É uma agradável janela diária para o mundo e para o país que tanto precisa de quem apresente alternativas à pasmaceira política em que vivemos.

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acontinternacional.jpg Não quero saber se foi a Al-Qaeda ou uma triste sucedânea a responsável pela morte de Benazir Bhutto. Também me é indiferente nesta altura se a senhora, enquanto primeira-ministra do Paquistão, proporcionou às contas bancárias do marido um crescimento sustentado. Interessa-me o facto de Benazir Bhutto pretender dotar o Paquistão de uma democracia que, pelo menos, fizesse recordar as democracias ocidentais, de ter como objectivo eliminar os jihadistas do Paquistão e de tirar partes do país ao controle dos radicais islâmicos – e estes desígnios foram os que lhe custaram a vida.

Interessa-me, ainda, que novamente os terroristas islâmicos conseguiram condicionar resultados eleitorais que se previam adversos para os fundamentalistas (não acredito que o filho de dezanove anos de Bhutto tenha a breve prazo um brilhante futuro político) recorrendo à violência e mortandade indiscriminada sobre civis inocentes – o que, de resto, é a assinatura dos jihadistas.

Perante os parágrafos anteriores, interessar-me-ia que, finalmente, no que os americanos gostam de chamar “mundo livre” se tomasse consciência que não pode haver tolerância nem compreensão nem justificação para o terrorismo islâmico. Que não o combater é deixá-lo crescer e fortalecer-se. Que este terrorismo (na senda, aliás, de todos os outros) se alimenta a si próprio, usando como desculpas propagandísticas as agruras dos palestinianos – sendo que estes lhes interessam tanto como os muçulmanos que não hesitaram em matar no Iraque, em Bali, em Marrocos, na Arábia Saudita, …

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 O referendo do aborto foi por nós considerado o Acontecimento Nacional de 2007 – e apenas pelas más razões.

A campanha do Sim no referendo de Fevereiro foi desonesta e mentirosa: utilizaram números falsos sobre o aborto clandestino e questionáveis sobre o número de mulheres hospitalizadas em consequência de um aborto clandestino; prometeram aconselhamento para as mulheres que procurassem abortar para posteriormente apenas acederem a uma informação prestada em forma escrita (Portugal, como se sabe, não tem qualquer problema de iliteracia) e negligenciada; insinuaram uma falsa juventude de todas as mulheres que abortam; puseram em causa a seriedade e qualidade de qualquer estudo científico que sugerisse a existência de sequelas clínicas (psicológicas ou outras) das mulheres que abortam, ou dos estudos sobre a vida intra-uterina que concluem pela existência (ou probabilidade de) de vida desde a concepção; sem qualquer pudor recusaram-se a revelar quais os contornos da lei que seria aprovada se o Sim vencesse, atribuindo vários epítetos menos simpáticos a quem afirmava que a lei seria o que veio a ser.

A campanha do Sim foi um embuste do princípio ao fim, própria das sociedades estalinistas que alguns dos que a fizeram consideram como as ideais ou, pelo menos, com princípios tão bonitos. Uma campanha sem qualquer respeito pelos que tinham ideias opostas e sem qualquer vergonha na cara. Tudo valeu. A democracia portuguesa conheceu um lodaçal fedorento do qual dificilmente recuperará totalmente.

O referendo – apesar de novamente um fiasco em termos de participação eleitoral – permitiu a legitimidade política para aprovar uma lei radical e sem qualquer respeito pela vida intra-uterina, contrariando promessas eleitorais mais moderadas, e transformando o aborto numa das prioridades do SNS. 

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Li uma vez, num qualquer jornal nacional, que as colegas de modalidade a apelidam de A Extraterrestre. Parece ser justa esta comparação com a nossa campeã de 22 anos que venceu esta eleição com a tranquilidade, leveza e distância dos perseguidores a que já nos habituou. 

É de referir ainda o facto de atribuírmos este prémio por razões positivas e não pelas negativas que caracterizava a esmagadora maioria dos restantes nomeados. É o sinal de confiança que o Farmácia quer deixar para 2008, mas sem as fotografias de Nick Knight.

2007 foi, sem dúvida, o ano de Vanessa. Esperamos ansiosamente por aquilo que ela nos poderá trazer em 2008!

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