Este post não é sobre Doris Lessing

Hoje de manhã – ou ontem , conforme a hora a que acabar por postar – recebi a sugestão-barra-intimação do nosso chief-blogger (also known as Rui or Hirudoid) para escrever sobre a Doris Lessing. Eu, que como se sabe tenho na obediência uma das minhas principais virtudes, faria a vontade ao Rui, não fosse um pormenor que talvez desqualificasse a minha opinião perante leitores exageradamente exigentes: da Doris Lessing li os primeiros três livros da série Os Filhos da Violência, estou em dúvida quanto ao quarto, não li o quinto de certeza e é tudo. Ainda para mais já se passaram uns bons anitos e eu ainda não tinha tomado uma daquelas decisões fundamentais na vida de qualquer leitor picuinhas: ler os livros na língua original sempre que possível. Daqui resulta que não posso agora ajuizar da qualidade literária da senhora. E tendo como Nobel da Literatura preferido Churchill (que escrevia – aliás ditava – lindamente), podem perceber qual a credibilidade que eu atribuo às escolhas dos últimos anos da Academia Sueca quanto à qualidade literária. A Doris Lessing, sendo uma renegada comunista e, tanto quanto consegui saber, não andando a bradar aos céus contra o presidente norte-americano em exercício, deve ter sido escolhida pelo seu género; fica sempre bem aos senhores politicamente correctos premiarem senhoras e ainda melhor se as senhoras forem feministas. Se ela mereceu o Nobel ou não? Apenas posso dizer que com toda a certeza o mereceu mais do que José Saramago. Se havia melhor escolha? Também é possível.

Contudo posso aproveitar a sugestão-barra-intimação do Rui para dar largas ao meu anti-comunismo primário – o que é saudável fazer de tempos a tempos – num post vagamente relacionado com a Doris Lessing. Dos três (quatro?) livros que li da nova nobelizada, recordo-me de várias coisas.

 Por exemplo, do insatisfatório casamento de Martha (a protagonista) com o chefe da célula comunista (com nome há muito esquecido); o marido era “moderno” e revolucionário apenas fora de portas, que dentro de casa gostava da suposta ordem natural das coisas com a esposa aceitando permanecer no seu lugar subalterno e não fazendo sombra ao marido. Há pouco tempo, ao ler o último livro da Zita Seabra lembrei-me da Doris Lessing a propósito do “trabalho revolucionário” que o PCP lhe deu como empregada doméstica do comunista-homem na clandestinidade. Perante este pendor machista e conservador aparentemente comum a todos os comunistas, europeus ou africanos, reais ou ficcionados, podemos concluir que todos os comunistas são iguais, mas uns são mais iguais que outros. 

 Lembro-me ainda da simetria de vidas e convicções entre duas senhoras (novamente com nome esquecido): uma era pilar da sociedade da colónia britânica, conservadora até ao osso, casada com um alto funcionário do Império Britânico e no entanto com uma família (e aqui quero dizer filhos) anárquica, contestatária e capaz de contrariar os planos pré-estabelecidos por outros para a sua vida; outra era uma política de tendências socialistas, mulher activa e politicamente importante, com uma família conservadora, certinha e, no fundo, muito tradicionalista.

 Por último recordo-me da ausência de africanos com a pele mais escura – aqueles que o movimento comunista supostamente queria libertar do jugo britânico – no grupo de comunistas de Martha e de como estes comunistas (brancos) eram absorvidos em si mesmos, nos chavões comunistas e nas suas inócuas actividades revolucionárias e totalmente desfasados da realidade da vida das outras pessoas (mais escurinhas, outra vez).

Afinal só foi um post vagamente anti-comunista. O resto fica para uma próxima vez.

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3 respostas a Este post não é sobre Doris Lessing

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