Eu, que sou sulista, elitista e liberal

vi o discurso de encerramento do congresso de Luís Filipe Menezes – foi a única parte que vi do congresso do PSD – e reconheço que foi melhor do que esperara. Esperava pouco não por permanecer ofendida (supondo que o fiquei inicialmente) com a tirada do congresso do Coliseu ou por considerar LFM um populista – não o considero mais populista que um político que tem como promessas de campanha 150.000 novos postos de trabalho (que não pretende ele próprio providenciar) ou algo tão vazio e genérico como um plano tecnológico; ou, ainda, mais populista que um candidato a primeiro-ministro que tem como slogan de campanha esse grande desígnio de Portugal que responde à expressão “razão e coração”, com a qual Guterres avisou os portugueses em 1995 que a sua governação seria o paradigma da política lamechas e preguiçosa – mas porque nunca me revi em nenhuma das políticas que defendeu, que me pareciam mais fabricadas para marcar pontos contra a liderança de Marques Mendes do que serem convicções de longa data.

Em todo o caso, ele apresentou algumas ideias positivas: privatização das águas e de todas as empresas públicas que deveriam estar fora da alçada do governo, flexibilização da legislação laboral, uma nova constituição sem o cunho ideológico abrilista da actual, investimentos em obras públicas calendarizados por consenso entre PS e PSD, entrega dos serviços de assistência social realizados pelo Estado à Igreja Católica e outras instituições que as fazem bem e melhor que o Estado, despolitização do Tribunal Constitucional, fim da ERC e algumas mais.

Desancou convenientemente no Governo, relembrando as culpas (e dos amigos Guterres e Sampaio) na situação financeira do Estado e no atraso económico português (aqui juntamente com todos os socialistas e comunistas e ocasional ex-CDS) e desmontando a consolidação orçamental que se tem vindo a fazer quase exclusivamente à conta das receitas (i.e., dos contribuintes) – com uma imaginação para taxar e aumentar qualquer impostozinho que se mova só igualada nos relatos ficcionais da regência de João Sem Terra – e não da redução da despesa, tendo a despesa corrente aumentado todos os anos desta governação.

Gostei de tudo isto. Contudo, fiel ao seu estilo, LFM não resistiu a misturar no discurso a sua própria ideologia abrilista.  Ao referir-se ao PS (e PCP), LFM chamou-lhes “esquerda socialista”, dando a entender que o PSD é em Portugal a esquerda social-democrata. Esta parece-me uma das maiores debilidades do PSD, que se devia assumir de vez como partido de centro-direita, capaz de fazer pontes para o centro-esquerda mas fora do leque ideológico da esquerda. Contudo isto parece ser pedir de mais ao PSD e àqueles que tinham mais de 10 anos em 1974. A sorte do PSD reside no PP – que agora se auto-entitula de centro-direita, como outrora se auto-entitulou de democrata-cristão, conservador, anti-europeísta ou o que na época pareceu render mais votos a estas alminhas tão camaleónicas – ser um grupo de meia dúzia de gatos pingados convencidos que a sua casta está destinada a dirigir os seres inferiores, que os mesmos inferiores são estúpidos e nem reparam na mudança de discurso a cada seis meses, e, para resumir, só convencem os hiper-conservadores saudosistas do Estado Novo e os velhotes pouco informados, o que não lhes é suficiente para chegarem a algum lado.

LFM veio também declarar-se partidário da globalização “justa”, isto é, liberalização do comércio internacional desde que se cumpram as normas ambientais em vigor na Europa e se respeitem os direitos humanos. (Vamos passar à frente das considerações que seriam oportunas sobre o grau de pressão que Portugal sozinho consegue exercer na OMC). Só faltou mesmo dizer que só deveríamos comprar a quem tivesse uma legislação laboral igualzinha àquela que em Portugal LFM quer mudar. Não suporto este discurso! É preciso dizer com clareza que impor os nossos padrões aos países que só se desenvolvem se nos puderem vender os seus produtos é votar esses países à pobreza. Talvez isto não convença muita gente, portanto é necessário lembrar também que se não pudermos importar produtos da China, Índia e outros países asiáticos em desenvolvimento, ou se existirem barreiras alfandegárias proibitivas, a consequência será um aumento dos preços em Portugal e resultante perda de poder de compra para os portugueses; em vez de se comprarem três ou quatro camisolas na Zara por 5€, compra-se só uma, igual às de 5€, pelo triplo ou quádruplo do preço. É bom que se seja cândido sobre os resultados de uma globalização idílica, que só os chavões bonitos não interessam. O PSD deveria ter um discurso que visasse aproveitar as oportunidades da globalização e da expansão consumista de mercados como o chinês e não de semi-proteccionismo.

Feitas as contas ao discurso, penso que a oposição tem a ganhar com LFM a presidir ao PSD. Está longe de ser o ideal, mas faz mais mossa ao governo Sócrates do que Marques Mendes conseguiria. Se o PSD vai perder em 2009, é bom que venda cara a derrota.

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