Um mal menor

Eh, eh, já cá fazia falta alguma polémica entre bloggers para parecermos o 31 da Armada. Temos que, com urgência, definirmos o restaurante onde se farão as jantaradas de reconciliação das disputas blogosféricas, que não queremos por cá nenhum Pedro Arroja. 

Sobre o futuro líder parlamentar do PSD – que vai substituir essa personalidade fascinante, carismática, incandescente, que nos tira a respiração às primeiras linhas da declamação de um discurso chamada Marques Guedes, e muito adequado a liderar a oposição parlamentar na opinião de qualquer socialista – e ex-primeiro-ministro gostaria de escrever umas coisitas que me farão perder o respeito de toda a pessoa decente ou intelectualmente na pós-puberdade que ler estas linhas. 

Nunca fui fã de Santana Lopes, ao contrário de tantos que o admiraram incansavelmente até ao momento em que ele se tornou PM, incluindo alguns jornalistas desmemoriados. Também não me entusiasmei com a governação de PSL ou com a sua campanha em 2005. No entanto, impõe-se a questão: era Santana pior que Sócrates? E a resposta, para mim óbvia, é: Não, não era. 

Ora vejamos: em 2005 o desemprego era menor; a carga fiscal sobre as famílias e as empresas era consideravelmente inferior; as taxas moderadoras da saúde eram mais baixas; não se pretendiam gastar milhares de milhões de euros em obras megalómanas de necessidade duvidosa; o ministério da agricultura não tinha devolvido para Bruxelas dinheiro que recusou a gastar cumprindo os contratos existentes (e que justificavam o dinheiro referido) com os agricultores portugueses.

Santana, diz-se, andava a fazer umas “trapalhadas” que nunca me disseram exactamente quais eram, se andava a vender segredos de Estado a coleccionadores peculiares (nenhum Estado respeitável quereria segredos portugueses) ou se apenas se tratava das sestas e festarolas – nós sabemos que apenas aos políticos de esquerda fica bem serem foliões, a gente de direita deve ser séria e circunspecta. Em todo o caso, com Santana não houve a história dos estudos superiores do “senhor engenheiro”, a manipulação clara (e denunciada pelo próprios) da comunicação social, as vocações histriónicas dos ministros Pinho e Lino, as gralhas que os orçamentos sempre têm, os erros sem culpa nos exames do 12º ano, a crise económica que acabou e recomeçou alguma vezes e um largo etc. Não há volta a dar: Sócrates é muito mais trapalhão que Santana. 

O único trunfo de Sócrates é a consolidação orçamental. Mas mesmo essa foi mal feita, aumentando as receitas de forma obsessiva e cega e atrasando a recuperação económica, para além de pôr as empresas e as famílias em sérias dificuldades. Criou um novo e mais alto escalão do IRS, aumentou o IVA, aumentou impostos sobre os produtos petrolíferos, tabaco, álcool, aumentou toda e qualquer taxazinha que os utentes dos serviços públicos pudessem imaginar. E a despesa pública? Reduziu-se? Reestruturou-se? Não, a despesa pública está bem e recomenda-se, tento aumentado em termos absolutos e percentuais todos os anos de governação Sócrates. A consolidação orçamental existe não porque o Estado tenha gasto menos dinheiro, não porque o crescimento económico gera mais receitas fiscais, mas porque o Estado tirou muito mais dinheiro aos contribuintes.  

Eu, pela minha parte, preferia o Santana Lopes e o seu défice de 6,82% antes de receitas extraordinárias. E, já que aqui estamos, gerar receitas extraordinárias seria um método muito mais adequado para lidar com um situação de défices excessivos numa conjuntura económica desfavorável do que aumentar impostos, que foi uma verdadeira sangria num doente bastante combalido. Nem sei se chegaremos a ter alguma recuperação económica, agora que as economias europeia e americana estão a abrandar. Se não tivermos, há vários culpados: José Sócrates e os que votaram nele.

 Sócrates, reconheça-se, tem uma grande vantagem, para quem calhar preferir a forma à substância. Santana anda a correr atrás dos microfones, enquanto Sócrates sabe exibir um ar sério, compenetrado, disposto a defender os portugueses de si próprios, é arrogante e mal-educado com frequência para quem o ataca e é mestre a ofender-se com ninharias que lhe dizem ou dizem dele. Pior que Sócrates só Guterres, que teve talento suficiente para encrencar mortalmente as contas públicas portuguesas em época de expansão económica, algo só ao alcance de muito poucos. LFM ou PSL, com todos os defeitos, são imensamente preferíveis a Sócrates.

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