Portugal Não-Esotérico

Numa daquelas coisas que só podia acontecer na caixa de comentários do Blasfémias – um dos blogues onde mais se escreve sobre Deus, pelo teclado do Carlos Abreu Amorim, para lhe bater (whatever else for?) – fui desafiada por um militante new age a rebater um sem número de disparates sobre o cristianismo e prometi respostas para o nosso blogue.


 Caro João Santos Aziomanoris – não me leve a mal, mas vou tratá-lo por João, que é muito mais prático – então vamos lá ver algumas questões que abordou nos seus comentários ao post do CAA sobre o monsenhor Luciano Guerra.

 Não vou discutir aquilo em que o João acredita, que com isso não tenho nada a ver. É claramente um gnóstico actual, como todos os new-ages, que considera que a salvação depende de si e de um conjunto de verdades e conhecimentos revelados a ou aprendidos por apenas um grupo de iluminados – do qual evidentemente faz parte. O cristianismo é o contrário: uma pessoa não se salva por si própria, mas sim é salva por Deus; a santidade e a redenção é um convite feito a todos, sem grupo de escolhidos. O facto de não perceber isto revela desde logo como conhece mal o cristianismo. 

Desculpe lá não aceitar o almoço para debatermos o cristianismo, que seria provavelmente muito interessante uma vez que ambos gostamos destes temas, mas não é bom princípio ir almoçar com conhecimentos blogosféricos. 

1) Vaticano e NazismoLamento desiludi-lo logo de início, mas este é um bom caso para se mostrar que uma mentira repetida muitas vezes não se transforma em verdade. Pio XII não só não apoiou o nazismo como se lhe opôs tanto quanto a sua função de líder espiritual de uma grande comunidade de católicos alemães (que sofreram sempre as consequências das palavras anti-nazis de Pio XII e sobretudo Pio XI e que o Papa tinha como dever proteger) e o Tratado com Itália de 1929 (que impunha que o Vaticano não interferisse na política italiana) lhe permitiam. Vejamos alguns factos: empenhou, antes do início da guerra e nos primeiros meses do conflito, toda a sua influência junto de Mussolini de forma a que a Itália não entrasse em guerra (do lado alemão, e que era a vontade de Hitler); Pio XII deu informações sobre o blitzkrieg aos aliados no início de 1940; serviu de intermediário entre os aliados e o grupo de generais alemães resistentes a Hitler (entre os quais o general Beck, que veio depois a organizar o atentado a Hitler de 1944 e morreu no seguimento) e o sector resistente da Abwerh nas conversações sobre um golpe de estado que preparavam para depor Hitler; no Natal de 1942 condenou sem margem para dúvidas na sua mensagem de Natal as perseguições nazis de cariz racialista; depois do dia D, permitiu tacitamente que D´Arcy Osborne (embaixador britânico junto da Santa Sé durante toda a segunda guerra mundial) organizasse e financiasse as rotas de fugas dos britânicos que se encontrasse atrás das linhas inimigas na Europa continental; em 1943 patrocinou uma tentativa de armistício entre Itália e os aliados de forma a que Itália saísse do conflito mais depressa do que veio a suceder; nesse mesmo ano, com a ocupação nazi de Roma, as igrejas, conventos e outras casas católicas acolheram a quase totalidade dos judeus romanos, escondendo-os até os alemães saírem da cidade e, desta forma, salvando-os.  

Penso que já é suficiente, mas há mais para recomendar Pio XII como anti-nazi. Talvez se o João ler livros de historiadores sérios que investigaram este período da História (por exemplo, Owen Chadwick ou Martin Gilbert)  – muitos deles protestantes, judeus ou sem religião, não pretendendo fazer nenhum favor ao Vaticano – consiga ter uma ideia mais correcta do que se passou. Só uma curiosidade: sabe quem pela primeira vez levantou a questão do apoio de Pio XII a Hitler? Foram o soviéticos – esses grandes defensores da Justiça e da Verdade e absolutamente incompetentes, como se sabe, no que toca a fabricar desinformação – no início da década de 50, para responder à popularidade de Pio XII na Europa e Estados Unidos depois de terminada a segunda guerra mundial. 

2) O facto dos lugares de culto católicos serem construídos por cima de locais de culto de religiões que o cristianismo substituiu nunca foi escondido. Se já foi a Cuzco, no Peru, pode ver as paredes da Igreja de Santo Domingo em cima das anteriores paredes do templo do Sol inca. A lógica é a de manter os locais que as populações já consideravam sagrados. Também muitas festas pagãs foram transportadas para o cristianismo. A própria data do Natal tem a ver com o solstício (ou equinócio?) de Inverno, uma vez que não se sabe a data de nascimento de Jesus – bom, o João talvez saiba… Mas se quiser continuar a falar deste assunto como se fosse algo que a Igreja esconde, faça o favor de continuar e satisfeito. 

3) Quanto a Jesus, sobre quem sabe tanto, tanto, que até sabe do que nunca aconteceu. Não sei onde foi buscar a ideia de que Jesus nasceu de geração espontânea aos 30 anos; à Igreja Católica não foi de certeza. O nascimento de Jesus Cristo foi querido e um acto de Deus; a forma como ocorreu não sabemos, que Nossa Senhora não andava a falar sobre a sua vida sexual com os evangelistas. Em todo o caso, aplicam-se a Jesus os relatos do nascimento de um rei judeu a uma virgem (segundo a Tradução da Bíblia dos Setenta, em grego, utilizados mais tarde pelos cristãos em preferência aos textos em hebraico; nos textos em hebraico a palavra correspondente é jovem). 

A ascendência de Jesus é a família de David e da tribo de Judá, segundo os evangelistas; isto nada tem de extraordinário. Em princípio todos os judeus seriam descendentes das doze tribos de Israel, uma vez que sempre se consideraram o povo eleito e desconfiavam de uniões matrimoniais com outros povos. 

Não sei também onde foi buscar o nome de Jesus. Viu-lhe o BI? Jeshuan Ben Padirá, é, segundo diz, o nome de Jesus. Ora bem, “ben” não é nenhum apelido, ao contrário do que afirma. “Ben” significa “filho de”, e era de facto utilizado na Palestina nos tempos de Jesus. É equivalente ao posterior “ibn” árabe ou “fitz” saxónico. O nome de Jesus seria portanto Jesus ben (filho de) Yoshua (ou como se escreveria José no séc. I).  

A história da viagem de Jesus à India não é fundamentada por nenhum indício e menos ainda algum facto; existe apenas na imaginação delirante de militantes new age, ansiosos por fazerem o sincretismo do “verdadeiro cristianismo” com o hinduísmo, budismo e ilusões avulsas. 

Agora tenho uma massagem marcada no SPA do Four Seasons, que ando com uma tremenda dor na omoplata direita, e tenho que terminar. Continuo logo à noite com os evangelhos apócrifos, Maria Madalena, os manuscritos do Mar Morto e esse genial escritor que é o Dan Brown.

Esta entrada foi publicada em Alucinógenos, Genéricos. ligação permanente.

2 respostas a Portugal Não-Esotérico

  1. Como acredita em tudo o que diz a história oficial, mudando de assunto em relação ao Catolicismo desafio-a a ler dois autores actualmente censurados ao contrário dos new age que erroneamente julga que sou. New age esses que como dizem muita patranha não são censurados. Há coisa engraçadas não há, censura de livros incómodos em democracias como a nossa e muitas outras. Os autores são Daniel Estulin e Michael Cremo.

  2. Se quer ler gnósticos/alquimistas/cabalistas credíveis aconselho Samael Aun Weor (que inspirou os New Age, mas não era um deles obviamente), Newton, Kant, Dante, Paracelso, Fernando Pessoa, Einstein, Giordano Bruno.

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