Portugal Não-Esotérico II

Voltando aos assuntos pios (sim, estou melhor da minha omoplata, obrigada):

 4) Evangelhos Apócrifos

Caro João, em primeiro lugar queria dar-lhe os parabéns por já ter lido TODOS os evangelhos apócrifos, tendo em conta que são cerca de 70 (espero que não se tenha metido também a ler as epístolas, actos ou apocalipses apócrifos, para não falar dos apócrifos do Antigo Testamento), a maioria deles sem edição em português. Mas  qualquer que tenha sido a língua em que os leu, com toda a certeza os leu numa publicação de uma editora cristã (católica ou protestante, é indiferente em termos de Teologia Bíblica), uma vez que quem tem estudado estes textos são os exegetas católicos e protestantes para obter informações valiosas sobre a história e as dinâmicas das igrejas primitivas, a iconografia e vida eclesial das igrejas primitivas ou o judaísmo rabínico (entre outras). O cânone do Novo Testamento foi-se formando com base nos seguintes critérios: autoria dos textos – eram considerados canónicos textos cuja autoria fosse de um apóstolo ou da comunidade desse apóstolo e sob a sua supervisão; o uso de um texto no culto litúrgico das igrejas; o bom acolhimento de um livro por parte de um grande número de comunidades cristãs, em especial das comunidades fundadas por apóstolos; respeito pela tradição apostólica. 

 Ora bem, os evangelhos apócrifos não cumprem nenhum destes critérios. Quando houve confusões de utilização de textos apócrifos, isso deveu-se a confusões sobre a sua autoria, uma vez que lhes deram erradamente o nome de um apóstolo. O resultado foi uma maior exigência para com a autoria dos textos canónicos, tendo-se colocado em causa a inspiração divina em certos textos como a epístola de Paulo aos Hebreus ou o Apocalipse, entre outros. Os protestantes chamam aos apócrifos, por esta razão, pseudo-epígrafos. 

Enquanto que os evangelhos canónicos foram escritos até cerca do ano 95, os apócrifos foram produzidos nos séc. II a IV. Enquanto os primeiros vivem dos testemunhos directos dos que conviveram com Jesus, ouviram as suas palavras e viram as suas obras, os segundos são distantes no tempo em relação ao que relatam e nunca tiveram a mesma credibilidade. Por outro lado, nunca foram aceites pela generalidade das comunidades, nem tiveram bom acolhimento; eram, na maioria das vezes, textos para consumo interno das próprias comunidades.

 Os cânones conhecidos da Igreja primitiva desmentem a inclusão de algum dos evangelhos apócrifos nas liturgias: o Cânone de Moratori, de finais do sec. II, enumera todos os livros canónicos do AT excepto a 3ª epístola de João; o Cânone Síriaco do sec. IV ignora algumas epístolas e o Apocalipse. 

A ideia de que os textos apócrifos estavam em pé de igualdade com os textos canónicos até alguém decidir o contrário é apenas folclore. E tenha-se atenção que a maioria dos textos apócrifos nada têm de herético: simplesmente não foram considerados pela Igreja primitiva inspirados por Deus. 

5) Manuscritos do Mar Morto

Não entendo porque refere que já leu os manuscritos do Mar Morto já publicados (penso que já foram publicados na totalidade, mais uma vez depois de terem sido exaustivamente estudados por católicos, protestantes e judeus). Estes manuscritos nada têm a ver com Jesus Cristo ou o cristianismo primitivo, não referindo um ou outro uma única vez. 

6) Maria Madalena

Não há qualquer indício de casamento entre Jesus e Maria Madalena. Esta ideia surge da “prova” apresentada no evangelho de Tomé – apócrifo – que relata que Jesus beija MM na boca. Se Jesus tivesse casado com Maria Madalena – que foi sem dúvida muito importante para Jesus, tanto que lhe apareceu ressuscitado antes de aos restantes apóstolos – isso teria sido relatado nos evangelhos canónicos, uma vez que era usual os religiosos casarem, tanto no judaísmo como no cristianismo primitivo. Pedro era casado e continuou casado; Paulo refere que Pedro visitava as comunidades cristãs com a mulher. O estranho era o celibato de Jesus; mas Paulo, que escreveu as suas epístolas antes de qualquer outro texto do NT, dizia que imitava Jesus no celibato e na castidade.

 Pelo que já escrevi atrás, não há muito a acrescentar sobre o Dan  Brown, excepto que tem imenso talento para ganhar dinheiro a vender livros sem se dar ao trabalho de se informar um bocadinho sobre o que escreve.

Esta entrada foi publicada em Alucinógenos. ligação permanente.

3 respostas a Portugal Não-Esotérico II

  1. Cara Maria Marques, em nenhuma altura me viu criticar o Cristianismo que continua a confundir com Catolicismo, quanto aos evangelhos Gnósticos e demais textos não refiro que todos têm a ver com Jesus, obvio que não li tudo tudo, mas posso-lhe dizer que li edições portuguesas, brasileiras, espanholas e em inglês. Quanto a ser Gnóstico New Age, não o sou nem nunca o fui e não concordo com muitas das coisas que pregam, como já referi a minha ideologia é Templária (que contém conceitos cristãos, celtas, egipcios, entre outros) e interesso-me por algumas correntes filosoficas advaita vedanta e budistas. Quanto ao Vaticano como católica que certamente é, continuo a dizer Catolicismo é diferente de Cristianismo, e o Catolicismo é inconsistente. E ainda bem que acredita em tudo o que é a história oficial do Vaticano. Quanto a historiadores dou-lhe um exemplo triste de parcialidade, meter o bloqueiro de esquerda Fernando Rosas a relatar a época do Estado Novo como aconteceu, em algumas obras que deverá conhecer.

    O almoço e a origem de Cristo estava em tom de brincadeira, não leve a mal. Mas algumas das seitas neo-cristãs que aí andam dizem coisas, muito cómicas.

    Não a vi comentar a inquisição, quanto à peste é obvio que não foi a causa principal a que refiro, mas saberá bem que ajudou e muito a propagação da doença. Quanto a Dan Brown não falou em nada que não tivesse sido escrito antes por escritores e académicos, simplesmente criou juntou isso num livro de ficção polémico. Quanto aos varios textos e aos próprios canones, como o Vaticano na sua Génese já estava conspurcado pelos interesses do império romano e pelo que fez ao longo da história, continuo a achar errado confundir cristianismo com catolicismo. Quanto a seitas e organizações afins, tenho frequentado conferencias de tudo para ver até onde vão os disparates e a trafulhice.

    Quanto à posição pró-nazi do Vaticano, nem sequer vou comentar, pois certamente me dirá que a familia real britanica e a maioria dos generais americanos na 2ª Guerra não eram pró-nazis, remeto-a para que leia acerca Sociedade de Thule e os Illuminati e a P2 e o seu papel na guerra e provavelmente encontra muitas coisas consistentes que são algo censuradas.

    Já que é uma católica tão bem informada, sabe-me dizer qual é a simbologia do báculo, da causa do diabo, do pentagrama e do pentagrama invertido?

    E minha cara as filosofias esotericas perdem-se em tempos imemoriais em todas as culturas e religiões da antiguidade aos nossos dias e a neo-gnose, maçonaria e afins simplesmente fazem o que o cristianismo, o sufismo, a cabala e o budismo fizeram foram beber às fontes das épocas que as precederam. Cada um acredita no que quer eu acredito em entidades superiores conscientes e não em deuses, o Deus que o catolicismo e a minha cara amiga concebem para mim é equivalente à Existência, o que torna os conceitos em si muito semelhantes.

    Quer se queira quer não, sempre houve e sempre haverá esoterismo na civilização humana, sendo o esoterismo a ciência vedada às elites, havendo elites há esoterimo e o exoterismo é que vai para as massas. Pois se assim não fosse a granda banca do Bilderberg não controlava o planeta, pois se todos os seres humanos soubessem tudo, isso implicaria o fim da propriedade privada.

    Atenciosamente

  2. hirudoid diz:

    Maria,
    Obrigado pelos teus posts. Afinal sempre vale a pena ter uma sacerdotisa entre nós.
    Quanto a este habitante do sótão do avô Plantard, foi um prazer tê-lo por cá, mas penso que já leva de volta material suficiente para entrar em pânico.
    Cumprimentos e bons estudos!

  3. Carmex diz:

    Caro João, seja muito bem vindo por cá, e garanto-lhe que me está a dar muito gosto esta nossa troca de galhardetes.

    Não queria ofender a sua religião, mas sinceramente não percebi ainda qual a diferença entre um Templário e um sincretista new-age. Se quiser explicar, agradeço.

    De facto acredito na história oficial do Vaticano: essa história reconhece os crimes cometidos durante a Inquisição, bem como os excessos e malfeitorias do clero – incluindo cardeiais e papas – durante a Idade Média e Renascimento. A Igreja assume os seus erros e pecados com toda a frontalidade e já pediu perdão ao mundo. Por isso não me vai ver a defender o Alexandre II (se a memória não me engana, era ele o pai da Lucrécia Bórgia) ou a Inquisição. Mas tenho que lhe dizer que não entendo como se usa como arma anti-Igreja acontecimentos com séculos de idade, acontecidos antes da Contra-Reforma, das perseguições iluministas, concílios do Vaticano, entre outros acontecimentos que mudaram profundamente a Igreja.

    Quanto à questão nazi, não me baseei em documentos do Vaticano ou de religiosos católicos, mas sim nos livros de Owen Chadwick (de Cambrigde ou Oxford, agora não tenho a certeza), Martin Gilbert (que além de ser o mais reputado biógrafo de Churchill, é judeu) e um outro académico canadiano que estudou a resistência anti-nazi de 1933 a 1945 – não me recodo do nome dele, mas se estiver interessado quando chegar a casa venho cá dar-lho.

    Da família real britânica toda a gente que se tenha informado sabe que era pró-nazi, em especial os duques de Windsor e de Kent (há quem defenda que o desastre de avião em que ele morreu em 42 foi obra do MI5, precisamente por ele ser um germanófilo, mas esta é uma daquelas coisas das quais eu só vejo especulações e, logo, não acredito). Jorge VI era o mais sensato, mas mesmo assim deu o seu aval à política de appeasement do Chamberlain e teria preferido Lord Halifax para PM em vez de Churchill. Aliás, uma boa parte da aristocracia britânica era germanófila nos anos 30, tendo alguns mantido a simpatia depois do início da guerra. Veja lá que estou a escrever um livro com este pano de fundo; quando o terminar, envio-lhe um convite para o lançamento e espero que vá.

    Da P2 e dos Iluminati não lhe digo nada, que não faço ideia o que são.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s