Nada como o Colin Firth a interpretar Mr. Darcy

No fim de semana fui ver o filme Becoming Jane – sobre um breve período da juventude da Jane Austen, muito antes da publicação de Sense and Sensibility, e daí o título do filme em português ser A Juventude de Jane – pelo que esta é uma oportunidade tão boa como qualquer outra (na verdade, melhor do que a maioria) para fazer a minha declaração de interesses em prol da Jane Austen. Ficam a saber que Pride and Prejudice é o my favourite book e que o Emma e o Persuasion estariam num qualquer top 10 que me desse para fazer. 

Nunca quis ler uma biografia da Jane Austen. Todos os autores se revelam despudoradamente nos seus escritos e, desses, eu tinha retirado uma ideia da minha Jane Austen que não queria ver destruída por um qualquer biógrafo que a entendesse de forma diferente de mim. Chegava-me, para a conhecer, perceber nas suas palavras (e por agora fico apenas no PP) o quanto ela apreciava a Elisabeth Bennet com o seu espírito crítico, a sua independência e a sua despreocupação com o que pensavam dela as pessoas que não apreciava – não se incomodava aparecer em frente aos dois partidos mais cortejados (entenda-se: ricos) do Hertfordshire com a bainha do vestido six inches deep in mud depois de uma caminhada de cinco milhas sozinha pelos campos porque queria visitar a irmã adoentada, para escândalo das irmãs Bingley; ou o seu enorme sentido de humor (de Jane), não fosse ela a criadora de uma das mais hilariantes personagens da literatura com o clérigo Mr Collins; ou a sua crítica aos valores vigentes, concretamente aqueles que regulavam as relações matrimoniais, assentes em interesses financeiros e desvalorizando os afectos, bem como a sua aceitação dos valores morais tidos como bons nas upper-classes da Regência; por fim, Jane Austen escolheu não casar (sem amor, presumo eu, que ainda não li a biografia) e ganhar a vida como escritora, o que tem a sua parte de revolucionário para uma setecentista-barra-oitocentista.

Em todo o caso, agora que quebrei o encanto com este filme, já foram encomendadas na Amazon duas biografias sobre Jane Austen, tendo a referida Amazon informado ontem esta vossa, sinceramente que já despacharam a encomenda.

 O filme é agradável de ver, sem muitas pretensões ou surpresas, com casting, cenários e guarda-roupa em bom estado. Não posso ajuizar sobre a fidelidade à vida de Jane Austen ou à biografia de Anne Newgarden, em que se baseou a adaptação. Desconfio da veracidade da parte do elopement, e argumento contra ela a visão negativa que Jane deu nos seus livros a todas as fugas românticas. Contudo, o filme é muito austeniano – o que é a sua melhor característica. Claro que não usam o inglês absolutamente delicioso de Jane Austen, os diálogos não são tão espirituosos, o romance entre Jane e Tom Lefroy é algo apressado (mantendo-se o estilo de duelo entre os sexos), e não há o happy end com que a autora presenteia todas as suas heroínas. Mas os romances de Jane estão presentes em todo o filme, o que derrota desde logo qualquer austen-maniac como eu. Sem ter lido alguma biografia de Jane (e não sabendo até que ponto as suas novelas são auto-biográficas), atrevo-me a supor que Becoming Jane é muito mais inspirado nos romances de Jane do que na sua vida.  

(Deixa a milhas a última adaptação de Pride and Prejudice, que, além de não acertar com cenários ou guarda-roupa, teve a proeza de não retratar nenhuma das personagens com o espírito de Austen – Elisabeth é cheia de risinhos sem razão; o Mr Darcy tem aquele ar sofredor que as pessoas fúteis confundem com profundidade; a irmã Jane e o Mr Bingley parecem sofrer de alguma deficiência mental; o Mr Collins não tem qualquer piada, o que é imperdoável; o pai Bennet assemelha-se mais a um alcoólico do que ao pequeno fidalgote de província arruinado que é; só estiveram bem, e em parte, a Mrs Bennet e a Lady de Bourgh. Deste filme, o melhor foi eu ter sido poupada no cinema ao idiota fim alternativo com que foram castigados os norte-americanos.) 

De facto, Becoming Jane transporta-nos para várias cenas dos romances de Jane, na maioria das vezes PP mas não só, o que me deliciou mas duvido que cative tanto alguém que, ao contrário de mim, não saiba de cor tantas frases dos diálogos inventados por Jane. 

A antipatia inicial de Jane por Tom Lefroy, o seu par romântico do filme, é paralela à antipatia de Elisabeth por Mr. Darcy. A sobranceria de Lefroy, o enfado com a companhia campestre em geral e a do Hampshire em particular e, sobretudo, a forma desdenhosa como Tom fala do texto lido por Jane no noivado da irmã são equivalentes à arrogância, antipatia e até falta de educação de Mr. Darcy durante a sua estadia em Netherfield (quando conhece Elisabeth e família) e à frase assassina sobre Elisabeth que profere durante o baile público de Meryton, que ela ouve acidentalmente, onde assegura a Bingley que Elisabeth “is not pretty enough to temp me”. A Wikipedia informa-me que Darcy foi baseado em Lefroy, pelo que aqui não posso garantir o que inspirou o quê.

 A cena inicial do filme, com a família Austen a caminhar da Igreja para sua casa é reminiscente de uma das cenas iniciais da série PP da BBC de 1995, onde a família Bennet também se dirige da Igreja para sua casa e Mrs Bennet informa entusiasticamente o marido que “Netherfield Hall is let at last”.

  A Lady Gresham do filme é claramente inspirada em Lady Catherine de Bourgh, mesmo se a primeira quer casar Jane com o sobrinho e a segunda quer afastar Elisabeth do filho da sua irmã. O ar majestoso das duas senhoras é idêntico e a deferência dos Bennet para com Gresham só não é tão lambe-botas como a de Mr Collins para com de Bourgh porque este tem um talento natural para dar graxa e se rojar aos pés dos seus socialmente superiores. Por fim, um pormenor encantador: Lady Gresham vai a casa dos Austen para convencer Jane a casar com o sobrinho e, fora de portas, convida Jane a ir conversar com ela numa “pretty little wilderness on the side of the house”, tendo Jane puxado do seu moleskin setecentista e anotado a expressão; esta é a mesma frase que Lady de Bourgh utiliza quando vai a casa dos Bennet para abusar de Elisabeth. 

Também o pretendente de Jane e sobrinho de Lady Gresham, lá para o fim do filme, lhe dá o início da famosa primeira frase de Pride and Prejudice. 

O firme propósito de Mrs Austen encontrar maridos ricos para as filhas lembra a mesma fixação de Mrs Bennet, sem a histeria e vulgaridade da personagem de ficção.

 Numa incursão por um dos seus últimos romances, a carta recebida pelo tio de Lefroy, e que deita a perder a possibilidade de Jane casar com Tom sem ser deserdado pelo tio rico é semelhante à carta que, em Northanger Abbey, o General Tilney recebe e resulta na expulsão de Catherine Morland – a apaixonada do seu filho mais novo – da sua casa gótica.

 Por agora termino, mas é inevitável que volte (algumas vezes) a Jane Austen: vêm aí as já referidas biografias, a ITV produziu umas adaptações de Persuasion, Mansfield Park e Northanger Abbey que eu ainda não vi e – sustenham a respiração – a BBC já começou a produção e filmagens de uma série adaptada de Sense and Sensibility com argumento desse mago que é o Andrew Davies (o argumentista da inexcedível adaptação de Pride and Prejudice de 1995).

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9 respostas a Nada como o Colin Firth a interpretar Mr. Darcy

  1. Diana diz:

    Minha querida Mary,

    Não é que fui ontem vêr o filme!
    Adorei lêr o teu texto… concordo “ipsis verbis” 🙂
    Já agora.. quando acabares de lêr uma dessas biografias fantásticas… avisa!

    ah.. e estou ansiosamente à espera da série…

    Um beijinho enooorme amiga!

  2. Carmex diz:

    Diana, darling, já tinha pensado quando virias ver-nos…

    Aviso, sim, senhora. E agora que me dizes que gostas de ler em inglês, tenho um livro da Plum Sikes que é just the thing for you. Fica à espera…

    E já leste o meu primeiro post sobre o nosso querido Carmex?

    Um beijo repenicado!

  3. Diana diz:

    Darling! Amei!!! é o máximooo essa tua veia “very british”. Que saudades de Londres…

    ainda não li.. mas vou lêr, já!!!:)

    ADORO o vosso blog meus queridos AMIGOS!
    Sweet Kisses for all of you.

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  7. Raquel diz:

    Becoming Jane não me convenceu. Talvez a minha Jane Austen, aquela que imagino ao ler sua obra seja muito diferente, talvez tenha lido biografias demais, enfim!

    Aqui, no Brasil, para completar meu desgosto traduziram o título do filme para Amor e inocência…

    um abraço

    PS: Andrew Davies é tudo!

  8. Jac diz:

    Eu vi o filme sem saber muito sobre a vida de Jane, surpreendeu-me muito o fato de ela não ter vivido um final feliz sobre aquilo que sabia escrever tão lindamente!
    É minha autora preferida!

  9. Pingback: Incursão pela austenmania « O Insurgente

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