Ao ler artigos relacionados com o que escrevi no post lá para baixo, encontrei esta preciosidade “jornalística” que me vejo na obrigação de partilhar. A inevitável Fernanda Câncio escreveu sobre a continuidade da existência do aborto clandestino aqui, numa peça que devia ser premiada pela sua isenção, qualidade e outras coisas boas que nos venham à cabeça.

A F.C. revisita uma velha conhecida que fazia e ainda faz abortos clandestinos até às 8 semanas, terminando o artigo com a justificação que a senhora dá para a sua actividade (ilegal mesmo perante a lei actual), não fosse um leitor mais descuidado ter ficado com uma má impressão da referida senhora que se dedica a uma prática tão do agrado da autora do texto : “Fazia-o para resolver a situação, porque achava injusto ser proibido. As pessoas podem sempre dizer que era pelo dinheiro – mas não era, embora, claro, o dinheiro dê sempre jeito.”” Esta mesma senhora foi entrevistada pela F.C. em 1998 e a entrevista foi postada no Glória Fácil como prelúdio para a campanha deste último referendo. Leiam-na e admirem-se com a grandeza de coração desta enfermeira. As minhas partes preferidas são aquelas em que a enfermeira fala do embrião de 8 semanas “como se fosse gelatina” e em que a senhora confessa ter feito três ou quatro abortos (não se lembra ao certo, de tão banal que é o acto) frases depois de afirmar que é “muito cuidadosa” com “estas coisas”.

No entanto a verdadeira pérola é-nos oferecida lá pelo meio da notícia (ah, ah, ah). Um quinto das mulheres que aparecem na Clínica dos Arcos para abortar está grávida de mais de 10 semanas. E porque existem ainda mulheres que pretendem abortar depois das 10 semanas? Será por irresponsabilidade? Por confusão nas suas vidas e terem tido dificuldade em decidirem? Por falta de consciência?

Não, estejam descansados. Segundo a F.C., “Três meses após a entrada em vigor da nova legislação, é normal que haja ainda muita gente mal informada ou até sem informação nenhuma.” (O bold é meu.) Relaxem novamente no sofá: a continuidade da existência de aborto clandestino, ao fim de três meses é normal. O leitor não pense por si próprio, que ainda corre o risco de se indignar com esta situação e de considerar foi enganado – afinal o grupo de defensores do Sim, a que pertencia esta jornalista, prometeu que o aborto clandestino acabaria. Não pense, esteja descansado, faça exercícios respiratórios: a querida da Fernanda Câncio qualifica as situações por si e diz-lhe como pensar, não tenha mais trabalhos do que aqueles a que é obrigado; é tudo para o seu bem.

Continuando, diz-nos a Fernanda Câncio, a causa do actual aborto clandestino é simples: “Passar em tão pouco tempo de uma situação em que o aborto só era permitido em casos muito específicos (…) para uma situação em que, tendo havido legalização até às dez semanas, poderá ficar a ideia de uma “liberalização total” (ideia que foi, aliás, propagandeada pelos opositores da mudança da alteração legislativa) pode resultar em total confusão.” (Novamente bolds meus.)

Ora pois claro. A culpa da existência de mulheres que pretendem abortar – e abortam clandestinamente – depois das 10 semanas não é das próprias, claro que não, ora essa, que ideia a vossa. As mesmas mulheres de quem se diz no parágrafo anterior “”Elas sabem qual a forma de solucionar o problema. As pessoas sempre souberam, não é?”, aquelas que sempre foram suficientemente inteligentes para encontrar quem lhes fizesse um aborto clandestino (ou legal em Badajoz) agora estão com o entendimento toldado desde que o Sim ganhou no referendo e não se entendem com esta coisa muito difícil das semanas. Não, diz-nos subtilmente a F.C. (que só depois de bater em abundância no ponto que se segue é que admitiu haver culpas próprias), a culpa é dos mauzões que defenderam o Não; tanto disseram que a legalização do aborto até às 10 semanas é uma liberalização – que claro que não é, pois não, que poder-se abortar sem justificação até às 10 semanas é apenas um pequeno acrescento às anteriores restrições – que enganaram toda a gente e, sabe-se lá por que artes, continuam a enganar. Os defensores do Sim bem tentaram informar o povo honestamente e como rigor, que, apesar de terem ganho o referendo, o povo (que votou) percebeu só aquilo que lhe dizia o lado que perdeu.

Mas não é lógico?

Por isso, gente má e dura de coração que defendeu o Não no referendo, quando pensardes no actual aborto clandestino, tende vergonha e penitenciai-vos. A culpa é vossa, diz a autoridade mundial Fernanda Câncio.

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