A malta pró-aborto-livre andou a mentir ao resto da malta

E só esta afirmação já é digna de notícia. Então aquele grupo de pessoas abnegadas, incorruptíveis, honestíssimas, nada empenhadas em desinformar o público, as verdadeiras defensoras da vida humana, sempre tão prontos e lestos a indignarem-se e a denunciarem o maquiavelismo, mentiras e maldades em geral perpetradas pelos defensores do Não no referendo de Fevereiro, então não é que afinal estiveram a mentir? E, pela dimensão da coisa, com os dentes todos e restantes ossos maxilo-faciais?

Declaro-me chocada! Como pode ser possível tal mancha cair em tão puro grupo?!

E, no entanto, é verdade, conforme me informa o recorte da página 18 do Sol do último fim-de-semana que tenho agora à minha frente. Ora vejam, mas peço desde já perdão pela desilusão aguda que terei causado em tantas pessoas por enegrecer a reputação de tão louvável grupo.

Até 12 de Outubro realizaram-se em Portugal 2404 abortos legais em Portugal, o que representa uma média mensal de 800 abortos e, fazendo as contas, menos de 10.000 abortos por ano em Portugal. Menos de 10.000?, estão agora todos a questionarem-se com as vossas feições a denotarem uma comoção profunda. Pois é verdade, caros amigos. Vão buscar o Valium, o Lexotan ou que quer que vos acalme nas horas extremas, porque os mais de 20.000 abortos clandestinos que a malta que defendeu o Sim garantiu que se realizavam por ano em Portugal (e com um ar de quem conhecia muito bem a realidade de que falava) eram… tretas. As mais de 20.000 mulheres vítimas da sociedade fundamentalista e conservadora, que carregavam consigo problemas de saúde para toda a vida… afinal eram menos de metade.

Mas sou obrigada, cheia de pesar pelas ilusões que destruo nos vossos corações, a continuar. Lembram-se das principais vítimas da anterior lei, que eram, afiançava a malta que defendia o Sim, as mais jovens? (E na linha das notícias dos primeiros dias em que a actual lei vigorou, tendo os jornais noticiado que as primeiras mulheres a abortar eram sobretudo as muito jovens.) Pois bem, o Sol teve o despudor de me informar que, afinal, só seis mulheres com menos de 15 anos abortaram. Não dá números para o número de mulheres entre os 15 e os 20 anos que abortaram, mas segundo a responsável pela linha telefónica que foi diligentemente criada para dar informações às mulheres que pretendem abortar, a procura deste serviço por menores de 20 anos é escassa. O mesmo não se passa para o grupo de mulheres com mais de 35 anos: com mais de 40 anos houve 190 mulheres a abortarem; e dos 35 aos 39 houve 382 casos de mulheres que recorreram ao aborto. No total são 572 abortos, que é 23,79% (eu tenho o mesmo problema que o Vítor Constâncio com o arredondamento das percentagens) do total.

Mas… então as mulheres que abortavam clandestinamente não eram jovens inconscientes que engravidavam por ter poucos conhecimentos de contracepção?! Caros amigos, há que enfrentar a verdade: não eram. No artigo uma médica da Maternidade Alfredo da Costa diz mesmo que essa ideia “é um fantasma”. Um fantasma?! Então o grupo de defensores do Sim, gente tão séria e honesta e credível, andou a fazer campanha com fantasmas sem saber se eram reais? Com um grande pesar na alma vos respondo: sim.

E é com um grande negrume no coração que continuo. Diz-me a referida notícia do Sol que a maioria das mulheres prefere o aborto químico por ser o menos traumatizante para a mulher. Um aborto é traumatizante, mesmo feito com químicos?! Calma, aconselho eu; permaneçam quietos, não façam movimentos bruscos neste estado de perturbação extrema para não correrem riscos de se magoarem. Eu entendo-vos: afinal não nos garantiram durante a campanha, com direito a conferência de imprensa com aquela senhora médica da televisão, a Marta Crawford e tudo, que um aborto não era trauma nenhum para uma mulher?! Que os pantomineiros do Não falavam disso apenas como distracção?! Que uma mulher até ficava aliviada por abortar (ou, como se dizia na altura em que ainda era preciso ser eufemista, por interromper a gravidez)?! Pois caros amigos, também isto era um logro daquelas pessoas tão estimáveis.

Vou ter que me confessar: estou muito contente pelo número reduzido (face ao que se antecipava) de abortos, que, espero eu, espelhe o sentimento geral de que o aborto é uma coisa má, seja legal ou não. E talvez explique a enorme abstenção dos dois referendos.

Estou quase, quase tentada a destruir-vos de vez aqueles critérios que davam consistência à vossa vida desde Fevereiro último. É que é muito estranho que aqueles grupos que defendiam o aborto livre não tenham feito ainda qualquer comentário sobre o assunto do número de abortos realizados (e ainda menos da estrutura etária das mulheres que abortam). Será que estão incomodados por não ter havido uma corrida aos serviços que fazem abortos? Como disse, estou quase, quase a concluir que um outro objectivo da campanha do Sim – o de diminuir o número de abortos total – também era uma simples mentira. Eu sei que qualquer pessoa com mais de dois neurónios percebia que era algo contraproducente pretender diminuir o número de abortos começando a fornecer esse mesmo serviço gratuitamente no SNS, mas temos sempre que dar o benefício da dúvida sobre o número de neurónios que cada um possui e eles podiam mesmo estar convencidos disto (eh, eh, eh). No entanto, contudo, não obstante, talvez não estivessem nada convencidos do slogan da redução do número de abortos (isto quer dizer que têm pelo menos três neurónios). Talvez quisessem um grande número de abortos para justificarem a sua luta e a necessidade da sua causa. Talvez tenham sido mentirosos…

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10 respostas a A malta pró-aborto-livre andou a mentir ao resto da malta

  1. Pingback: 2007 Outubro 26 « Farmácia Central

  2. hirudoid diz:

    Maria João,
    Acho que te precipitaste na análise. Afinal 3 meses ainda é muito pouco. E tendo em conta que coincidiram com as férias do verão, é bem possível que a avalanche de abortos (sobretudo de quem teve 3 meses de férias) só comece agora…

  3. Carmex diz:

    Rui, convenhamos que férias não são uma razão de atraso para fazer um aborto. Uma mulher que queira fazer um aborto tem até às 10 semanas e não acredito que fique com o estado de espírito livre e desimpedido para ir de férias descansada. O mais provável é que queira “despachar” o assunto rapidamente. Se não o fizer, é provável que passe das 10 semanas e vá cair no aborto clandestino. Além disto, um aborto dá direito a uma baixa paga na totalidade, e dado o jeito dos portugueses para estas coisas, a baixa está mesmo a pedir para ser gozada no Verão.

    Por outro lado, recordo-me de ter lido algo sobre as estratégias dos defensores do aborto de inflaccionar os números de abortos clandestinos para apresentarem um número impressionante na comunicação social.

    E já o Ministério da Saúde, que esperava fazer 18.000 abortos por ano, segundo o Sol pensa que irá fazer 10.000 por ano.

  4. Pingback: Tudo pessoas sérias, como se vê « Farmácia Central

  5. hirudoid diz:

    Como deves imaginar, estava a ser irónico.
    É evidente que tudo o que existiu nesta campanha foi demagocia barata e contenção de instintos de quem planeou o executou o referendo.

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  8. Pingback: O aborto, again « Farmácia Central

  9. Pingback: E tanto que se esforçam por promover o aborto… « Farmácia Central

  10. anonimo diz:

    gostaria de saber onde se pode fazer um abortu legal em portugual cm 3 meses de gravides!!ajudem-me!!!!!!

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