Super-Sócrates

Sabem aquela série chamada West Wing? Houve sete temporadas, contando a história da Administração Bartlett desde uns meses (ou um ano?) depois da Inauguration até o Presidente Bartlett ser substituído muito convenientemente pelo primeiro presidente latino dos Estados Unidos. Lá em casa, a parte adulta da família é fã da série, não devido ao conteúdo esquerdista de muitos episódios tão políticamente correctos que provocam intermináveis bocejos e por vezes alguma vontade de praticar crueldades nas caixas dos dvds, mas pelas personagens e os seus tiques e manias e hábitos (eu gosto mais do Josh, o meu marido prefere de longe o Toby com os modos bruscos e o seu negrume), pelo ritmo e qualidade do argumento, pelo humor. As primeiras séries são excelentes, no fim da quarta série o criador de West Wing saíu do projecto e, inevitavelmente, a qualidade do argumento foi diminuindo com consistência, esforço e dedicação, até que a sétima série chega a ser embaraçosa (em especial nos últimos episódios) para quem está a ver aqueles desgraçados actores que em tempos brilharam nos mesmos cenários. Só não sentimos pena deles porque, bem, aquilo é Hollywood e são bem pagos.

 O que tem isto a ver com o nosso estimável PM? Bom, lá para o fim da sexta temporada ou início da sétima – já não me recordo e os preciosistas podem ir à Wikipedia ver o resumo dos episódios – o presidente Jed Bartlett resolve definitivamente a questão israelo-árabe e o problema da Coreia do Norte, assim ao estilo de um super-herói que, subitamente, consegue concretizar tudo aquilo a que se propõe com métodos que fazem lembrar a Excalibur do Rei Artur e totalmente alheios ao que deve ser uma negociação diplomática entre dois países com divergências. No caso da Coreia do Norte, Jed Bartlett tem uma crise de esclerose múltipla e é da sua cadeirinha de rodas que verga o presidente chinês à sua vontade. Verdadeiramente épico. E idiota.

É só destes episódios lamechas de West Wing que me lembro sempre que vejo e oiço os sucessos da Presidência Portuguesa da UE. Vêm cá os governantes da UE e, de repente, há tratado, muito a propósito rematado com um “porreiro, pá” (alguém que saiba a resposta: pode-me informar porque são pos políticos socialistas tão adeptos do “pá”?). Vem cá o Presidente Putin e, de súbito, a Rússia vai ter umas eleições tão transparentes como um cristal de rocha sem inclusões, Putin é um escrupuloso defensor dos direitos humanos e repudia em absoluto um assassinatozinho ou outro de cariz político, a UE e a Rússia serão amigas para a eternidade e mais coisas boas e comoventes que possam inventar.

 Temo, sinceramente temo, que depois da cimeira UE-África o governo português anuncie que terminou a fome naquele continente, que a incidência do HIV vai ser reduzida em 50%, a malária seja ilegalizada, os governantes formem um clube chamado de Lisboa destinado a escolher o governante africano que mais se distingue pelo bom corte dos seus fatos e conservadorismo nas gravatas, a água potável fique de imediato disponível em todo o continente ou outros sucessos semelhantes.

Devo ser eu que tenho mau feitio, mas a mim isto só me parece uma série que já teve melhores dias.

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Uma resposta a Super-Sócrates

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