Manifesto anti-iniciativa privada (mas só por esta vez)

Permitem-me revisitar outro artigo da Fernanda Câncio para o DN sobre o aborto? Obrigada. E garanto-vos que o interesse deste artigo não é a autora, mas o tema do artigo. E, desta vez, talvez com grande esforço de contenção, a FC não opina, nem atribui culpas, nem limpa o record de ninguém, pelo que nos resta felicitá-la pelo bom caminho que está a trilhar e dedicarmo-nos ao sumo e não à forma; continue assim, se não lhe custar muito. (Contudo parece-me conveniente explicar que sim, sou a Maria João Marques e assino na blogosfera como Maria Marques, que é como sou conhecida para muita gente, não vá a Fernanda Câncio cá voltar e, depois de lutar com as suas aparentemente parcas capacidades de associação lógica, continuar a não perceber quem é a “carmex”).

O artigo – que na edição impressa era mais extenso – relata os números de desistências de abortar durante o período de reflexão. A percentagem maior de desistências acontece na Maternidade Alfredo da Costa (que informa o artigo é o local onde mais abortos são realizados em Lisboa) e chega aos 8,5% (não aos 10% do título); no Hospital Garcia de Orta a percentagem não chega aos 2%, na Maternidade Júlio Diniz será menor que 10% e da Clínica dos Arcos afirmam que das mais de 750 mulheres que as procuraram quase nenhuma desiste.

Sem conhecer esta realidade, parece-me que as mulheres que estão dispostas a pagar um aborto que podem ter gratuitamente devem estar mais convencidas a abortar (e a despachar “o assunto”) do que aquelas que não estão disponíveis para pagar esse serviço, e tendencialmente deve-se prever uma menor taxa de desistências nas clínicas privadas.

Penso também que uma clínica privada que ganha dinheiro a fazer abortos estará menos interessada em perder freguesas do que os hospitais públicos (e legitimamente, que as empresas não são instituições de caridade). Não, os privados não andam a procurar grávidas na rua e a incentivá-las a abortarem, nem distribuem panfletos nas caixas de correio publicitando os benefícios de uma vida livre de filhos; afinal as mulheres a quem fazem abortos vão ter com eles. No entanto – e tendo em conta que, se excluirmos aquelas mulheres sem consciência que fazem abortos repetidamente, a decisão de uma mulher de abortar é provavelmente muito difícil – num momento de vulnerabilidade de uma mulher como é o de uma gravidez indesejada, não é indiferente encontrar um serviço que tendencialmente considere que quem ali está pretende abortar (e ainda bem para a conta de exploração) ou um serviço que, notando alguma hesitação, incentive a grávida a ponderar bem no que quer.

E é aqui que declaro que sou contra a prática de abortos legais em clínicas privadas. Não que não me repugne a ideia de os meus impostos serem gastos preferencialmente em abortos do que em tratamentos para a infertilidade (escassamente subsidiados a partir de 2008, diz-nos o Desgoverno de Portugal); ou que não considere imoral o Estado dedicar-se a eliminar vidas humanas. Mas – e aqui o mas é grande – é mais provável que uma grávida seja incentivada a tomar uma decisão mais fundamentada e decidida no SNS do que numa clínica privada. Consequentemente, é provável que o número de abortos seja menor neste cenário. E isso vale mais do que os meus impostos.

É uma pena que o aconselhamento obrigatório às grávidas que querem abortar, prometido durante a campanha eleitoral pelo Sim para estancar a perda de votos que se tinha até aí verificado (e com sucesso) não tenha passado de mais uma promessa a-la-Sócrates, com o mesmo destino que os 150.000 postos de trabalho ou a não subida de impostos.

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3 respostas a Manifesto anti-iniciativa privada (mas só por esta vez)

  1. Mário diz:

    Tudo isto passa parece-me irrelevante. O passo em frente foi dado. Abortar não é mau, se calhar até é bom. Um valor quebrou-se, não é assim que se concerta. É uma questão de “saltos quânticos” e não de compromissos, cedências, avanços, recuos, optimizações.

  2. Carmex diz:

    Mário, explique-me lá isso: lá por se ter legalizado o aborto não se deve continuar a pressionar para haver mudanças na lei que a tornem um bocadinho menos desequilibrada?! Pode não se ir a lado nenhum, mas não se perde nada em tentar, apoiando os movimentos pró-vida.

  3. Mário diz:

    Ajudar no concreto sim. Agora entrar no debate de ideias aceitando as condições de quem não valoriza a vida é dar-lhes razão.

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