Juan Masiá

Aqui deixo a transcrição da entrevista de António Marujo a Juan Masiá s.j., publicada no Público de hoje e que recebi por e-mail. (As perguntas não estão diferenciadas das respostas, mas distinguem-se.) Não só porque concordo com muito do que este jesuíta diz, como aprecio deveras esta pluralidade da Igreja (e que às vezes a a alguns parece incomodar).

Juan Masiá Este padre só quer salvar o Papa25.11.2007, António Marujo

Manifesta opiniões sobre temas como o aborto, o divórcio ou a bioética que, dentro da Igreja, estão muito longe das teses oficiais. Apesar disso, o padre Juan Masiá diz que não se cala. Esta semana, em Lisboa, explicou ao P2 as suas razões.

Apesar das suas opiniões dissonantes da doutrina oficial católica, Juan Masiá, 66 anos, diz que o que propõe é o caminho de futuro e que apenas pretende “salvar o Papa” dos que querem impor a sua moral como um dogma. Após 35 anos no Japão a ensinar teologia moral, o teólogo e padre jesuíta espanhol foi pressionado, há ano e meio – pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela, disse-se na altura – a deixar a cátedra que tinha em Espanha, por causa das teses defendidas no livro Tertúlias de Bioética (ed. Trotta). Voltou a Kobe (Japão), onde ensina na Universidade Católica e trabalha em organismos da Igreja. Esteve em Portugal esta semana num colóquio sobre o cristianismo no Japão e na conferência Debates de Bioética: novos desafios políticos e religiosos. Em Portugal tem publicado A Sabedoria do Oriente.


Sente-se expulso?
Não. Os superiores da Companhia [de Jesus] e da universidade tiveram necessidade de proteger a instituição e demasiado medo dos cardeais e bispos. Pude voltar ao meu trabalho no Japão e falar com mais liberdade, não estou condenado nem proibido…
Tem dito que é mais natural ser padre no Japão que em Espanha. Porquê?
No meu país, se um teólogo fosse chamado a uma comissão nacional de bioética, algumas pessoas considerariam isso um privilégio, outras diriam que a Igreja não se devia meter. No Japão, o facto de ser teólogo ou padre não dá nenhum privilégio, mas também não é objecto de preconceito. Estou com naturalidade num mundo plural.
Teve essa experiência?
Sim, estive num comité de bioética da Faculdade de Medicina da universidade civil de Tóquio, em representação do mundo das religiões, porque o budista convidado não pôde e o protestante também não. Isto é tomar com naturalidade o pluralismo, a laicidade bem entendida.
É essa a experiência que falta à Igreja na Europa?
Em Espanha, percebi isso. O caso em que a hierarquia eclesiástica se opôs à lei de reprodução assistida ou à legislação biomédica não era possível discuti-lo por razões políticas ou religiosas. Se digo que sim a uma lei porque o meu partido diz que sim ou se digo que não porque a Igreja diz que não, isso é ideologia. Não se deve impor a ideologia de um partido ou igreja, mas debater as questões civicamente, antes que se politizem no parlamento.
As questões de bioética não estão muito partidarizadas?
Sim, e também muito “religiosizadas”, quer dizer, tanto pela política como pela religião se faz ideologia, não se permite pensar.
O que o separa dos bispos que pressionaram a sua saída?
Se me tivessem dito, eu teria agradecido. Não disseram nada. Isto ocorre muito dentro da Igreja. Se tivessem sido leais numa carta, pedindo para explicar ou corrigir seis ou sete pontos de um livro… Mas nunca disseram nada. Suspeito que [a razão] não foi o preservativo, citado pelos jornalistas, mas o tema da dissensão na Igreja, que não agrada nada ao cardeal Rouco Varela [arcebispo de Madrid], nem a muitos bispos espanhóis. Não lhes agrada ouvir que a Igreja no Japão tem outro modo de dizer e fazer. E têm muito medo dos meios de comunicação. Dizem que escreva a minha opinião num livro, com muitas notas, mas na imprensa, na Internet, numa entrevista…
Essa atitude de pressionar alguém…
É muito típica e o Vaticano utiliza-a muito, também.
Não é contrária ao evangelho?
Totalmente.
E porque é tão utilizada?
Isso também me pergunto. Desgraçadamente, usou-se muito ao longo da história. É uma questão de poder.
Dá a impressão que, por vezes, alguns argumentos que a Igreja propõe perdem força porque predomina o dedo apontado a dizer não.
É um semáforo vermelho, que é uma lástima, perde-se credibilidade. É o que dizia o Papa João XXIII acerca dos profetas da desgraça: parece que se sentem obrigados a queixar-se do mal que há no mundo. Como se o papel da Igreja fosse o de ser polícia da moralidade, em vez de dar esperança.
A religião tem que aparecer como algo que trava a ciência?
Não, pelo contrário. Tanto a ciência como a mística, que parecem opostas, coincidem em deixar-se mudar pela realidade. O autêntico cientista não presume ter a totalidade da verdade, está disposto a mudar. E o autêntico teólogo tem que ser humilde e admitir que a realidade vai mudando. Religião e ciência têm que ter uma atitude de busca e de caminho e não de dizer que têm as respostas todas.
Isso significa que a ciência pode fazer tudo o que a técnica permite?
Não, a pergunta do cientista é: “Devemos fazer tudo o que podemos?” O mesmo do ponto de vista religioso ou ético. Temos que a responder debatendo.
A partir dos diferentes pontos de vista?
Admitindo todos os pontos de vista. Primeiro, temos que ter os dados da ciência. Se a ciência se torna um dogma ou quer impor uma visão da vida, converte-se em ideologia. A religião ou a ética, quando querem impor as suas respostas, também estão a fazer ideologia. O problema não é religião ou ciência, mas a ciência e a religião convertidas em ideologia. Isso é fundamentalismo. O autêntico cientista e o autêntico religioso são abertos a uma ética de perguntas: descobrimos algo novo, como usá-lo para bem da humanidade e da vida?
O que propõe no subtítulo do seu livro – Manejar a vida, cuidar das pessoas – é para situar os limites da ética?
Primeiro, há que cuidar das pessoas, os limites vêm depois. Podemos manejar a vida mais que antes, mas isso deve ser feito para favorecer a vida, as pessoas, a ecologia, o planeta. Antes das normas, temos os valores da vida, da pessoa, do futuro da humanidade e do planeta. Porque damos importância a esses valores, aparece a ética e fazemos perguntas. Por vezes haverá que colocar limites, outras há que fomentar novas descobertas.
No centro deve estar a pessoa?
A pessoa, incluindo as gerações futuras e o planeta. Não podemos destruir o que nos rodeia. Temos que cuidar o planeta. Isto foi enfatizado pela bioética desde o início.
A regulação da natalidade deve ser natural ou artificial?
Essa definição natural/artificial é um equívoco que deveria estar superado há mais de 40 anos. O natural é, muitas vezes, muito pouco natural. E o artificial não é mau por isso. Ambos estão bem, se forem usados responsavelmente.
Mas a doutrina da Igreja insiste na distinção.
Há que ter cuidado em dizer “a Igreja”. Sobre os métodos naturais ou artificiais há um dissentimento na Igreja que, por desgraça, está por resolver. É uma questão secundária, não é matéria de fé, de obediência ao Papa, nem de pecado. Em bioética não há dogmas. Esta é uma questão de eclesiologia mal aprendida: muita gente tem uma visão da Igreja como se fosse dogma tudo o que diz o Papa.
A selecção de embriões pode ser uma utopia biologista? Há um risco de criar discriminação?
Há esse risco. Conheço um caso de um casal muito a favor da vida, a quem recomendaram abortar e que não o fez. Tiveram um filho com deficiência. Quiseram o segundo e o médico disse que poderiam ter o mesmo problema. Mas disse-lhes que havia possibilidade de fazer fertilização in vitro e eles optaram por isso. Vendo esse caso, não diria que esta família está contra a vida.
No Japão, as associações de deficientes perguntaram se, ao tornar rotina a selecção de embriões, isso não seria dizer que pessoas como eles não são necessárias nesta sociedade, que seria melhor que não tivessem nascido. Isto faz pensar e devemos ver como é que muda a nossa maneira de ver. Mas dizer que de nenhuma maneira se pode fazer é exagerado.
Os transplantes podem dar a ilusão do homem perfeito?
Há esse perigo. Mas, por existir o perigo, não tem que se dizer não a todas essas situações. Nos transplantes, mesmo que aumentasse o número de doadores e de pessoas que não queriam receber, não haveria número suficiente de órgãos. Criámos uma expectativa que antes não havia. Não haverá nunca órgãos suficientes, veremos o que sucede com os artificiais ou as células estaminais. Há um problema na nossa cultura, de como vemos o corpo. Isso deve fazer-nos pensar. Mas, por essa razão, dizer que não aos transplantes, é exagerado.
O aborto deve ser despenalizado ou liberalizado?
É discutível. Uma pessoa contra a liberalização ou a despenalização não tem o direito de dizer que quem é a favor é assassino. É como na eutanásia: como crente, não digo que a minha fé me obriga a não optar por isso, mas que me sinto chamado a deixar o final da minha vida nas mãos do Deus em quem creio. Mas não iria a uma manifestação contra a despenalização da eutanásia. Opor-me, em nome da Igreja ou da fé, à despenalização do aborto ou da eutanásia não vejo [possível]. Se há um debate cívico, posso dar as minhas razões, chamar a atenção para os riscos ou…
Não se pode cair na tentação da facilidade?
Sim, mas a tentação é de ambos os extremos. Quando se diz “não haverá perigo de…?”, não se faz nada? Se há perigo, evite-se o perigo.
O divórcio é o fim de um compromisso ou a possibilidade de recomeçar?
É muito interessante a maneira como os bispos japoneses falaram do problema. Primeiro, dedicam várias páginas ao ideal. Depois referem: dito isto, a realidade é que esse ideal foi rompido, por circunstâncias que são culpa de ambos ou de nenhum. E dizem três coisas: que os casais sejam acolhidos como Cristo os acolheria; que sejam acolhidos calorosamente; e que se caminhe com eles nos passos que dão para refazer a vida.
Não chegam a dizer que quem volta a casar pode comungar.
Em japonês, pode ser-se muito claro sem ser explícito. Se o dissessem, provavelmente criariam problemas em Roma. De facto, ao dizerem aquela frase, disseram-no. E é isso que se está a praticar.
Pode-se dissentir na Igreja?
Alguém me dizia: “E a tua fidelidade ao Papa?” A fidelidade ao Papa não é lealdade feudal, obriga-me a uma fidelidade criativa, a defender o Papa de tudo o que o rodeia e que impede que se façam todas estas mudanças que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Por fidelidade criativa, sentimo-nos obrigados a dissentir na Igreja – não da Igreja.
Como jesuíta, tem o voto de obediência ao Papa, tal como o seu colega, padre Jon Sobrino. Ambos foram “castigados”…
Avisados. Recebemos o aviso, com todo o respeito, mas estamos convencidos…
Sente-se a desobedecer ao Papa?
Não, não, não. Sinto-me obrigado a continuar dizendo, com muito respeito e humildade, sem querer impor a minha opinião, mas… a salvar o Papa.
Às vezes não seria mais prudente não criticar algumas coisas?
Seria mais prudente, mas a questão da prudência leva-nos ao perigo contrário. Daqui a dez ou 20 anos, iriam dizer-nos: porque estavam calados, porque não falaram?
Seria imoral?
Calar é imoral. Se falar é imprudente, calar é manter uma situação. É uma responsabilidade muito grande. Fazem falta mais bispos que não aspirem ao poder e falem com toda a liberdade.
O que defende não é minoritário entre os católicos?
Em alguns lugares, sim, noutros não. É verdade que houve retrocesso em relação ao Vaticano II, mas por isso é preciso continuar afirmando-o.
Esse é o caminho do futuro?
Creio que sim, mesmo se gerações de neoconservadores e de alguns padres jovens vão por outra linha, atrás deles virá outra geração que aproveitará as sementes já lançadas. Há que continuar com optimismo e esperança. Sem crispação e com espírito evangélico, é preciso falar admitindo o pluralismo.
Já compreendeu o pontificado de Bento XVI?
Não. Dão-me mais medo pessoas ao redor dele. Confio que Ratzinger não é fanático. Tivemos vinte e tantos anos de documentos numa linha distinta, de repressão de teólogos, controlo de seminários, fomento de determinado tipo de vocações…
Apesar de tudo, continua optimista e sorrindo.
Se não fosse assim, não estaríamos aqui. A ideia de Jesus é essa. O [antigo] padre [geral dos jesuítas] Pedro Arrupe dizia isso: o cristianismo, mais que religião do amor, é religião de esperança.

Esta entrada foi publicada em Antianémicos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s