Do discurso vazio II

Vale a pena ler este post do Pedro Marques Lopes.

Não vi o debate mensal, mas ouvi um excerto numa pequena viagem de carro e calhou-me logo ouvir Sócrates a responder a alguém, presumo que a Paulo Portas, dizendo que ele não tinha feito durante o governo dele o que propunha para o governo Sócrates. Alguém avise o senhor primeiro-ministro que já está a governar há dois infelizes anos e que era bom não usar por muito mais tempo a desculpa do que os antecessores fizeram ou deixaram de fazer (como se as circunstâncias actuais fossem iguais em todos os casos, como na vacina do cancro do cólo do útero ou as mortes de membros de gangues securitários que actualmente existem e há dois anos não).

Parece-me que a relação dos portugueses com Guterres se vai repetir com Sócrates: muita complacência para os incontáveis disparates e discursos redondos do senhor até que, de súbito, a complacência esgota-se e não vai haver pingo de tolerância a partir desse momento. Temo é que isso suceda depois de 2009.

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2 respostas a Do discurso vazio II

  1. Mário diz:

    A minha ideia é que as pessoas já odeiam a democracia. É um regime que induz todos, eleitos e eleitores, a dar o pior de si, com a agravante de terem a liberdade de fazer o oposto mas se o fizerem, por regra ficam em desvantagem e são afastados dos grandes palcos. Quando a responsabilidade passa a ser colectiva, a vertente individual esvai-se. Por isso, por mais paradoxal que possa parecer, a democracia é na sua essência totalitária. O processo é mitigado pela limitação/separação de poderes e por um sentido mais profundo de responsabilidade. Contudo, nem a responsabilidade nem a limitação/separação de poderes são valores democráticos, foram antes impostos pela longa tradição religiosa.

    O aprofundar da democracia, tão pedido em tantos quadrantes, mais não é que a destruição destes valores, pela via da prostituição. A responsabilidade já não é o dever de agir em conformidade com o direito natural mas sim o dever de agir de forma a cumprir os desígnios da modernidade. Se a modernidade diz que o futuro é o aborto generalizado, a perseguição de “homofóbicos” gordos e fumadores, a eutanásia por tudo e por nada, a pedofilia, então a responsabilidade democrática é colocar estes movimentos em marcha.

    A limitação/separação de poderes com o aprofundar democrático começa logo por não ver uma exigência de juntar as duas coisas. Antes limitava-se por via da separação. Separação entre Igreja e Estado, mas também entre vários poderes seculares entre si, para fiscalização mútua. Sobre a separação entre Estado e Igreja já falei aqui, o Estado escorraçou a religião da “coisa pública”, ao mesmo tempo que invade os assuntos da religião. E os vários poderes dentro do Estado estão cada vez menos separados, com o poder político cada vez mais dominante sobre os restantes.

    Quando Churchill disse que a democracia era o mais aceitável dos males, não resolveu a questão. Adiou-a apenas. Porque se a democracia não tem a brutalidade das revoluções de moldes leninistas ou das ditaduras reaccionárias, é uma bomba relógio que a prazo irá explodir. Os liberais, com as suas filosofias de limitação de poder, deram um contributo modesto ao enredo, porque se preocupam quase só com os inimigos identificados, como os de vestes marxistas. Têm dificuldade em ver onde estão no presente as grandes ameaças totalitárias e, com frequência crescente, são seus agentes activos. O futuro não necessita de pessoas que se identifiquem com este ou àquele grupo, precisa sim de gente decente.

  2. Carmex diz:

    “O futuro não necessita de pessoas que se identifiquem com este ou àquele grupo, precisa sim de gente decente.”

    Por isso é que a democracia levanta problemas: muitos incompetentes, muitos tachos, pouca seriedade, poucos princípios,…

    Ainda assim, Churchill tem razão. A democracia, com todas as limitações, é o menos mau dos regimes. Em teoria, o ditador esclarecido é o melhor governante que se pode ter. O handicap desta teoria é que não existem ditadores esclarecidos.

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