Estes ambientalistas estão loucos

Eu sei que já chego tarde a esta mini-polémica, que o governo já disse que não depois de ter dito que sim, mas paciência, que eu quero dizer umas coisas sobre a taxa a aplicar aos sacos de plástico.

Eu não sou totalmente desfavorável a uma taxa que desincentive o desperdício de sacos de plástico. É uma barbaridade a quantidade de sacos de plástico que os supermercados “dão” e se os consumidores começassem a minimizar a recepção dos sacos aparentemente grátis (de facto o seu custo está incorporado nos preços dos produtos, como não podia deixar de ser) eu ficaria feliz e o planeta e a economia agradeciam. (Eu própria, que a maior parte das vezes faço as compras de supermercado pela internet e são-me entregues em casa dentro de caixas, e que sou um bocado maníaca com a reutilização das coisas, tenho sacos de supermercado em quantidade excessivamente abundante na dispensa.)

Por outro lado, estes sacos de supermercado são por regra reutilizados como protecção para os caixotes do lixo, evitando que os consumidores tenham que adquirir sacos do mesmíssimo plástico para o efeito.

Também considero que fazer gastar os consumidores tanto dinheiro em sacos de plástico é mesmo uma medida cruel que só um esquerdista podia propor, típica daqueles que supostamente se preocupam muito com os “pobrezinhos” mas que na verdade estão-se nas tintas para o efeito das suas políticas nesses “pobrezinhos” – afinal, “pobrezinhos” reais fazem questão de não conhecer nenhum, ficam-se pelos ficcionais de Dickens (ou, nos mais ferrenhos, de Manuel da Fonseca ou Soeiro Pereira Gomes), e sabe-se como os “pobrezinhos” ficcionais são muito mais insusceptíveis de sofrer com as políticas sociais do que os reais. O problema não é só os “pobrezinhos” comerem (e terem exactamente as mesmas necessidades alimentares do que os mais endinheirados) – ao contrário do que pensa a Fernanda Câncio, por exemplo – e, logo, gastarem tanto dinheiro em sacos como os mais endinheirados, ainda que gastem menos do que estes últimos no que vai no interior dos sacos, que também em vez do supermercado do El Corte Inglés serão do Lidl ou do Minipreço. O problema é que se impõe aos mais pobres –  aqueles cuja proporção do rendimento gasta em bens essenciais como a comida é maior – uma despesa injusta, por pequena que possa parecer. Se a Fernanda Câncio falar com um casal com um rendimento líquido na casa dos 1500 euros (para não referir menos), com dois filhos para alimentar e correspondentes compras de supermercado a fazer e sacos para as transportar, e lhes propuser que paguem uns 2,5€/mês em sacos, provavelmente vai ser enviada para locais menos recomendáveis.

Mas o melhor argumento contra a taxa é o valor proposto para a taxa – cinco cêntimos. Cinco cêntimos a pagar por um saco de plástico?! Estão loucos?! A minha empresa adquire por ano à volta de 150.000 sacos tipo-supermercado (o mesmo plástico e o mesmo tamanho), sendo que paga por eles cerca de um cêntimo e meio por unidade, tendo o plástico uma cor diferente de branco que provavelmente encarece os nossos sacos. Menos de um terço do valor proposta para a taxa. Com os valentes milhões de sacos que as cadeias de supermercados e hipermercados compram, aposto que não pagam mais de UM CÊNTIMO por saco. Logo, estes governantes quiseram (antes de deixarem de querer) aplicar uma taxa a um produto que é cinco vezes o valor desse produto. Onde já se viu isto? Como é possível haver um tal incompetente no ministério do Ambiente que porponha taxas sem fazer ideia do custo do produto a taxar? E que esse custo reflecte o custo das matérias primas utilizadas, presumindo eu que um dos objectivos da taxa seria minimizar a utilização das matérias primas para a produção de sacos de plástico? Os senhores do ministério do Ambiente não estão a pensar mudar de profissão? Que tal caixeiros num supermercado (se os aceitarem, que é preciso algum jeito para contas aritméticas)?

Esta entrada foi publicada em Anabólicos. ligação permanente.

8 respostas a Estes ambientalistas estão loucos

  1. Só Maria diz:

    Lamentávelmente a ideia continua a ser a mesma por esse mundo fora, não é só por cá… a ideia de que criando taxas sobre determinados artigos ou serviços vai ajudar à conservação da natureza e dos recursos… Taxar sacos de plástico, eco taxa para pneus, aumentar o custo da água (como se aumentasse o caudal dos rios!)… é tudo a mesma lógica, mas as políticas de fundo são vazias… e as pessoas, embora já se notem algumas mudanças, continuam a não se importar muito com o ambiente em sua volta… ainda há poucos dias levei com uma lata de refrigerante vazia no para-brisas do meu carro, que foi lançada janela fora pelo simpático condutor que seguia à minha frente…

  2. Mário diz:

    Palavras acertadas mas de certa forma, a meu ver, passam ao lado da questão. Juntemos duas coisas aparentemente disconexas. Primeira, o nível de impostos tem subido de forma crescente mas também a noção geral de que o dinheiro assim arrecadado não é gasto da melhor forma nem nada próximo disso. Há uma justa sensação de injustiça por parte das famílias cada vez mais sobrecarregadas, que assistem a um sector estatal que mostra muito poucas preocupações em conter os gastos. Segunda, as preocupações ambientais estão na ordem do dia. Diria antes que se tornou imperativo mostrar acções simbólicas em defesa do ambiente, e é curioso que a natureza continua ser mal tratada como sempre, a começar pela falta de uso do próprio termo, “natureza” algo real, em prol do “ambiente”, um conceito com uma simbologia proto-religiosa nos tempos hodiernos.

    Juntar as duas coisas é simples. Aumentar impostos, nem pensar. Proteger o ambiente, os esforços que forem necessários. O aumento de impostos vai continuar, mas irá chamar-se protecão ambiental.

  3. Carmex diz:

    Só Maria, gostamos muito de a ter por cá. Já fui espreitar o seu blogue e estou verde de inveja pelo seu grafismo! Muito boa sorte (e muitos visitantes) para o Só Maria.

    E tem razão: alguns políticos parecem pensar que taxar produtos resolve problemas, por si só, associados a esses produtos. Já que os políticos tanto gostam de doutrinar as populações, de facto faziam melhor em dar umas boas ensaboadelas aos cidadãos de anúcios televisivos a ensinar que uma regra básica de respeito pelo ambiente é não deitar lixo fora dos caixotes do lixo. Mas isto dá mais trabalho e não pressupõe receitas.

  4. Carmex diz:

    Mário, por falta de tempo não referi este ponto, mas concordo em absoluto: com o aumento da carga fiscal brutal dos anos do governo Sócrates, faziam melhor em bloquear qualquer pensamento que pretenda criar um novo imposto. Já chega e já é de mais.

  5. Só Maria diz:

    Carmex, obrigada! Para além de me sentir bem vinda aqui, é de facto com muito prazer que visito este espaço, pelos conteúdos e pela discussão saudável de assuntos que são de facto interessantes, pertinentes e muito bem abordados.

  6. borostyrol diz:

    Cara Carmex,

    quer isto dizer, o seu marido pode começar a deitar sacos do supermercado???

  7. Carmex diz:

    Caro Borostyrol, sei bem que o meu marido, quando pensa que eu não estou a ver, não perde uma oportunidade de deitar os sacos ed supermercado no lixo! Felizmente no caixote dos plásticos, mas mesmo assim…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s