Manifesto anti-Marx (presumindo que fosse o senhor da fotografia lá em baixo)

Sobre o salário mínimo, lembrei-me do César da Neves (economista da ala liberal, mas um dos anti-cristos da “nova direita liberal” por ser mui, mui católico) e da explicação que costuma dar para a tradicional taxa de desemprego portuguesa uns bons pontos abaixo das taxas de desemprego europeias – padrão que está a mudar (more of which later).

Temos uma legislação laboral tremendamente rígida. Não permite dispensar trabalhadores em épocas de menor actividade, dificulta a transferência entre funções e entre locais de trabalho (mesmo dentro do mesmo concelho), não penaliza a incompetência e a negligência, protege a falta de assiduidade, obriga a incontáveis burocracias com o IDICT sempre que se pretende fazer alguma coisa banal como mudar um turno a uma pessoa ou colocá-la com isenção de horário, etc., etc.. Com uma legislação laboral tão rígida, claro que os empregadores se precavêem: contratam poucos trabalhadores, que se os contratados forem maus não se conseguem ver livres deles, e se os clientes e as encomendas rarearem ficam a braços com o mesmo número de trabalhadores que tinham nos picos de actividade. A consequência é um grande nível de desemprego, como não podia deixar de ser. Os que estão empregados têm todos os direitos e privilégios, e uma situação profissional seguríssima (mesmo que se dediquem exclusivamente à leitura da Maria ou da Bola nas horas de trabalho); quem paga estes privilégios e estabilidade são os restantes trabalhadores, que não conseguem encontrar emprego com os cautelosos dos empresários.

Em Portugal a situação resolveu-se de outra forma, que as empresas não conseguem sustentar esta rigidez laboral: contrata-se toda a gente a prazo. Quem está efectivo vive na segurança descrita acima; os contratados a prazo vivem numa situação semelhante à quase liberalização total do mercado de trabalho, sem estabilidade e sem quaisquer perspectivas de longo prazo. E devido a estes contratados a prazo, o desemprego em Portugal é tradicionalmente baixo. Os contratados a prazo pagam a segurança dos efectivos, é bom que tenham consciência disso. Geralmente os contratados clamam que deviam ter os mesmos direitos que os efectivos, não percebendo que se não estivessem contratados a prazo estariam com grande probabilidade desempregados.

Entretanto nos últimos anos o esforço que recai sobre as empresas aumentou: maior IVA, menor rendimento disponível dos consumidores finais, aumento do preço das matérias primas, diminuição da procura interna,… Não houve qualquer política de bonificação fiscal, de flexibilização laboral ou outra que desonerasse as empresas. O resultado? O aumento do desemprego.

Concluindo: sempre que as luminárias bem intencionadas se regozijam com ideias bonitas e “justas” e “solidárias”para o mercado laboral, devemos ter consciência que a beleza, a justiça e a solidariedade só vai calhar a alguns; aos outros cabe o pagamento, em períodos de desemprego.

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9 respostas a Manifesto anti-Marx (presumindo que fosse o senhor da fotografia lá em baixo)

  1. panaxginseng diz:

    E voltamos noos aas histooria da carochinha que o desemprego ee causado pela lei do trabalho?!?!?

    Porque? Ora, porque seria? O que ee um economista da ala liberal?!?!? O que sei ee que o JCN ve tudo aa luz do modelo neoclaassico… e nao o questiona… nunca… “ee como se a ordem natural das coisas fosse uma situacao de 0 desemprego involuntaario, mas como haa de facto desemprego, ee oobvio que ee por causa das leis laborais… porque outra razao seraa? sacanas das leis laborais, que sao riigidas, e causam desemprego…”

    Carmex, as leis laborais nao sao de facto neutrais… teem efeitos bons e efeitos maus para a economia… mas esta nao ee necessaariamente uma histooria clara… como se fosse um mercado de laranjas…

    Os mercados de factores funcionam de forma diferente, com uma complexidade maior, e para se conversar sobre ele, nao se pode comecar com o pressuposto que a intencao de todos aqueles que nao teem a visao neoclaassica estao tolhidos por visoes “bonitas” e “justas” e “solidaarias”… bem sei que muitos estarao… mais, muitos estarao por ignorancia…

    Repara que aqui a discussao nao ee de como a economia devia ser, mas sim, de como e economia ee… como ela funciona… essa “busca” ainda soo vai no adro, e tenta recuperar da patetice falhada dos uultimos 40 anos de confusao neoclaassica… o que ee extremamente difiicil porque, a malta aprende o modelo neoclaassico na escola para (i) incorporar a nocao de equilibrio geral e de como os mercados estao todos ligados, e (ii) porque ee extremamente apelativo porque ee aparentemente (repara que podia ser muito mais ciinico aqui e falar do contexto das discussoes dos anos 60) despido de conotacoes ideoloogicas, mas (iii) nunca aprende as limitacoes, profundas, e graves (o uso de funcoes agregada de producao, a “controveersia de Cambridge”, a assuncao de informacao perfeita e ausencia de incerteza, etc…)…

    A lei laboral ha-de ter efeitos sim senhora… mas repara, que mesmo sem a lei laboral, coisas como contratos de trabalho com um salaario que soo ee ajustado uma vez por ano sao a regra em quase todo o mundo industrializado… repara que isto resulta para benefiicio de ambas as partes, como um contrato de seguro, em que a transferencia de risco ee feita para o empregador, que tem mais capacidade de lidar com as oscilacoes de produtividade dos factores… o empregado, ganha estabilidade remuneratooria, bem como se protege do facto de nao ter informacao ou entendimento de como o seu produto marginal individual se calcula… mais, nos mercados laborais da histooria neoclaassica, todos sao price-takers… nao existe market-power… essa nao ee a situacao dos mercados laborais do mundo real, razao pela qual sindicatos se formaram, para que negociacoes colectivas possam ocorrer e reequilibrar a balanca de poder negocial… por exemplo, uma consequencia foi o estabelecimento do horaario semanal de trabalho, como convencao… como a lei laboral estabelece outras convencoes gerais para penalizacoes e condicoes para cessacao de contractos de trabalho(imagina se isto fosse feito de forma individual)… tudo isto tem consequencias para a economia, e para a redistribuicao funcional do rendimento, mas muitas destas coisas foram introduzidas para lidar com problemas de informacao e de capacidade de lidar com incerteza, ou seja, uma resposta dos agentes do mercado para o fazer funcionar melhor… existem exageros? claro… mas para perceber onde eles estao, nao se pode comecar com os ooculos da histooria neoclaassica… sao muito maus para perceber os mercados de factores… o economista tem de usar diferentes ooculos, consoante o problema a analisar…

  2. Carmex diz:

    sJoão Pedro, a ideia não era provocar-te – as ideias bonitas, justas e solidárias eram dirigidas aos socialistas, bloquistas e comunistas, não a ti nem ao Rui – mas ainda bem que aconteceu.

    Acho sinceramente que não tiveste uma formação muito profunda em modelos neo-clássicos, que já não são propriamente a simplicidade que tu descreveste. Segundo o peixe que me venderam – e não me parece ter sido vítima de uma fraude – estes eram os modelos que melhor simulavam as oscilações económicas, bem como o comportamento de variáveis como o consumo e investimento. De resto, e isto é o golpe de misericórdia, as funções de produção utilizadas eram as cobb-douglas em introdução à economia~, mas nas macros não eram de todo: usávamos a fórmula de cálculo do produto através da despesa G=C+I+G (e as I e E para as economias abertas). A partir disto eram desenvolvidos complexos modelos utilizando equações diferencias para fazer anãlises temporais.

    Segundo sei (apesar de poder estar errada, uma vez que o forte da minha formação não foi neo-keynesiana) os neo-keynesianos o que fizeram foi pegar nestes modelos neo-clássicos e introduzir-lhes restrições do tipo rigidez nos salários de forma a aproximar os resultados dos antigos e desacreditados modelos keynesianos mas com metodologia semelhante aos neo-clássicos.

    E tudo isto vem do que me lembro do curso que acabou há 10 anos, porque não quero ter que ir buscar meus manuais!!!!

  3. Carmex diz:

    E mais umas coisas: onde foste buscar a ideia de que os contratos anuais de trabalho eram e regra em todo o mundo? Na UE15 (pelo menos) todos os países têm legislações laborais rígidas (ainda que não tanto como a portuguesa); nos EUA podes despedir livremente. No resto do mundo confesso que não sei.

    E gostava de ouvir a tua explicação para a taxa de desemprego mais alta na Europa que nos EUA, mesmo em períodos de crescimento económico semelhante.

    (Reparei agora que tenho dois G na equação, mas o primeiro devia ser P.

  4. panaxginseng diz:

    Em todos os modelos se usa a identidade (Y=C+I+G+NX) para os fechar… mas para modelizao o comportamento do produtor usa-se a manipulacao algeebrica de uma funcao producao… infelizmente, tive que engolir todos esses modelos neoclaassicos, e achei que eram uuteis, atee perceber as tremendas limitacoes…

    Entao vai laa aos manuais, e repara como ee que a procura agregada de trabalho e a procura agregada de capital se modelizam… pois ee pois ee… laa estaa a funcao de producao escondida… e como ee que os RBC funcionam> Ah, uns choques tecnoloogicos em A (da Y=f(A,K,L), e depois ve-se a resposta do modelo, de acordo com o que se meteu laa dentro… mas como ee que se retira a seeerie para A? Ah, calcula-se o resiiduo de Solow, assumindo que a funcao de producao agregada existe… e como ee que se testa se a funcao producao existe? Ah, o embuste ai ee tao grande que a sua simplicidade ainda me causa mau estar…

  5. panaxginseng diz:

    Barry Eichengreen
    The European Economy Since 1945:
    Coordinated Capitalism and Beyond
    Princeton University Press, Princeton, New Jersey, 2006, 504 pp., $35 (cloth).

    Barry Eichengreen is well known in IMF circles as a leading economic historian of the international monetary system and as an economist who delivers incisive analysis of the current international financial architecture. To economic historians, however, he is more renowned for his influential work on the Marshall Plan and the postwar golden age of European growth. On that topic, he developed the argument that in the most successful countries, which included West Germany, fast growth was based on a cooperative equilibrium between capital and labor that delivered wage restraint in return for high investment—a combination that facilitated rapid catch-up growth. Countries that never managed to find this equilibrium, such as the United Kingdom, did less well in exploiting the opportunities of the golden age. This book is primarily a return to and major extension of that analysis. International monetary developments feature not as a central focus but rather as an aspect of European integration that, in turn, is considered in terms of its implications for growth.

    Whereas Eichengreen’s earlier work was firmly anchored in the golden age, here he brings the story forward to the present day. He therefore gets to review the distinctly less impressive European growth performance that has ensued since the golden age. His central explanation for this lack of growth is that the corporatist European model that was so well suited for rapid catch-up because it was based on the long-term relationships that underpinned factor accumulation in the early postwar years was much less appropriate for a later era when catch-up was largely complete and growth required institutions and policies geared toward radical innovation and restructuring. Thus, features such as capital markets based on bank rather than equity finance and human capital formation focused on vocational rather than college education outlived their usefulness and became disadvantages, yet resisted reform.

    More generally, Eichengreen provides a persuasive historical context for the common American critique of modern Europe—namely, that it has too much taxation, too much regulation, and too little competition to exploit the growth potential of information and communications technology. With regard to the future, he argues that Europe will need to adapt to address the pressures of globalization and exploit the opportunities of science-based, production-relevant technological change.

    This is a splendidly delivered analysis that helps us make sense of the reversal of growth fortunes experienced by the United States and Europe since the mid-1990s. Although Eichengreen does not press this point, his analysis also offers insights into the relative economic decline of the United Kingdom in the golden age and its subsequent revival. Nevertheless, the narrative flows just a bit too smoothly at times, and the skeptic might ask whether the evidence can entirely bear the weight of the interpretation. For example, although centralized wage bargaining is held up as a crucial advantage underpinning the golden age, its role has not been confirmed by growth regressions. Indeed, some countries that were very successful in the early postwar period, like France, seem much harder to fit into Eichengreen’s account than, say, Sweden, which seems to match the template perfectly.

    A fully successful explanation of how the cooperative equilibrium was sustained should also be able to account satisfactorily for its demise and for the end of the golden age in the 1970s. But a bold attempt by Gavin Cameron and Chris Wallace (“Macroeconomic Performance in the Bretton Woods Era and After,” Oxford Review of Economic Policy, 2002) to address these issues by converting Eichengreen’s argument into a formal game-theoretic model showed that answers were not easy to obtain. In a book that has clearly been written for a wide audience of students and nonspecialists, it is understandable that such technical issues are not given prominence. But it is a worry that the empirical and theoretical foundations of the grand design are perhaps less secure than the general reader might realize.

    The European Economy is beautifully written and will be widely read. It offers a powerful analysis and deserves to be a great success. But it probably isn’t the final word on European growth in the second half of the 20th century.

    Nicholas Crafts
    Professor of Economic History
    University of Warwick

  6. Carmex diz:

    João Pedro, já tínhamos falado há uns tempos dos problemas e limitaçãos das funções de produção, lembras-te? A questão é que os modelos neo-clássicos não usam a cobb-douglas, como referiste. E quanto ao resíduo de Solow, só me lembro disto de desenvolvimento económico – e também o modelo de solow já estava ultrapassadíssimo.

    Beijinhos e um feliz natal para ti, longe de todos nós, de quem tu gostas tanto (espero eu!)…

  7. panaxginseng diz:

    Carmex… ee oobvio que nesta altura, o melhor ee eu escrever apenas: Feliz Natal!!!!!!! (cheguei hoje do Cambodja a Manila, estranha esta vida de cauxeiro viajante)

  8. panaxginseng diz:

    Agora que o Natal estaa para traas das costas, pergunto-me se a Carmex teve tempo de dar uma olhada naqueles manuais que estao laa na estante, e notar como de facto o modelo neoclaassico modeliza o mercado de trabalho…

    Se isso aconteceu, entao podemos comecar a procurar o fio aa meada de forma constructiva, e nao defensiva…

    Ou deverei eu simplesmente continuar silencioso?!?!?

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