Portugal dos Pequeninos* ou A Tragicomédia do BCP

Portugal é um país muito pequeno, é verdade. Estamos acostumadas, sempre que vamos ao cabeleireiro (e não há a Hola, que pelo menos dá graxa à monarquia espanhola ou a qualquer outra que se ponha a jeito e tem umas fatiotas nas suas fotografadas dignas de se admirarem) a sermos apresentadas a inúmeras figuras supostamente conhecidas do público em geral que se dedicam a uma actividade inventada em Portugal: são modelos/actores/apresentadores-de-televisão/cantores/relações-públicas. Estas criaturas polivalentes por vezes, nos casos de talento genial, chegam a ser escritores!

Até agora eu tinha estado descansada: pensava que esta polivalência se confinava à televisão e às passereles; como quase não vejo televisão e não frequento a Moda Lisboa, estava a salvo destes talentos ramificados.

A política também evidenciava sinais destes talentos indecidos. Muitos não sabiam se tinham vocação para ministro ou para representante da Iberdrola, ou para ministro ou administrador de um banco (público ou privado, não costumam ser esquisitos), ou para deputado ou administrador de uma empresa pública. Os nossos políticos, gente inteligente, resolvia a indecisão profissional ocupando estes lugares sucessivamente, de forma a não ter esquecido as impressões do emprego passado quando as comparasse com as do emprego actual, de forma a conseguir tomar a decisão mais proveitosa para a última década antes da reforma.

Para minha paz de espírito, pensava eu que as criaturas de fato da Brooks Brothers, camisa branca e gravata lisa de cor sóbria – que são, já adivinharam, os banqueiros – eram imunes a estas convulsões interiores que agitam as pessoas indecisas quanto ao seu percurso profissional. Afinal não, a doideira – e a falta de vergonha – chegam até aos menos suspeitos.

O Governador do Banco de Portugal, que nunca considerou que algo grave se passava no BCP, apesar de denúncias várias (temos que ver que nunca tinham chegado à comunicação social não-económica, pelo que ninguém de bom senso lhes liga; e afinal já se sabe que estas coisas da regulação e da fiscalização em Portugal servem só para dar uns tachos aos amigos políticos e para se fazer boa figura lá fora com um irrepreensível sistema fiscalizador; desde que “as coisas” não se saibam, toda a gente finge que tudo corre bem, quem sabe se o próximo emprego não é um lugar de administrador não-executivo numa das empresas presentemente fiscalizadas) mandou os actuais administradores retirarem-se. Por contactos de bastidores, não encontraram ninguém mais qualificado para liderar o maior banco privado português do que o presidente do maior banco (público) português, concorrente do BCP. O Estado (aparentemente) patrocinou esta solução e os maiores accionistas concordam.

Eu, nem recorrendo a esta explicação da polivalência nacional percebo esta solução. Acho-a grave e uma falta de vergonha (de quem a propõe, de quem a aceita podendo não o fazer, de quem sai de um banco para liderar directamente um seu concorrente). E nem parafrasear o Obélix com “estes banqueiros estão doidos” me tira a vontade de emigrar para um país onde a realidade não pareça de faz-de-conta.

* TM do João Gonçalves, claro.

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6 respostas a Portugal dos Pequeninos* ou A Tragicomédia do BCP

  1. Só Maria diz:

    É realmente vergonhoso, de uma ponta à outra, não há um único pormenor em todo esse processo que se “aproveite”, desde os banqueiros, ao governo e à oposição… é bem o estado da nação!

  2. panaxginseng diz:

    Sinto semelhante indignacao… especialmente pelo facto de que o accionista do CGD, nao se importa de perder o seu Presidente para o concorrente BCP… que os accionistas do BCP se embrulhem, isso ee laa com eles…

    Parece-me no entanto precipitado que se diga que o Governador achava ou nao achava nada grave no BCP… haa muito mais a correr na relacao entre supervisor e supervisado que o que os jornais noticiam… o Banco de Portugal tem demasiadas responsabilidades para fazer barulho irresponsaavel quando deviam, em primeiro lugar, ser os accionistas a questionar as praacticas de gestao do BCP… se a corporate governance do BCP estaa conforme as regras impostas pela CMVM para empresas cotadas, isso ee outra coisa…

    Parece-me que muita da indignacao ee mais moral que outra coisa: quais as regras prudenciais que nao foram aplicadas?

  3. Carmex diz:

    Só Maria, só dá mesmo vontade de emigrar e pedir a nacionalidade num país onde pelo menos tenham a vontade de aparentar um mínimo de ética. É vender acções do BCP que se tenha (quando valorizarem, o que pode demorar), fechar a conta no BCP e abrir num banco estrangeiro.

  4. Carmex diz:

    João Pedro, eu não partilho da tua fé na regulação, mas neste caso, se o governador do banco de Portugal andava a investigar maroscas com off-shores e créditos concedidos em condições suspeitas, porque arquivou estas investigações no primeiro round e considerou “satisfatórias” as explicações que o BCP lhe deu? E porque só se preocupou quando estas situações foram denunciadas (anos depois)de forma madiática?

    Disgusting! Era ser posto na rua sem reforma milionária já!

  5. panaxginseng diz:

    Pergunto-me se todos achamos que uma operacao off-shore tem necessariamente algo de ilegal… o que a torna problemaatica ee que estas operacoes num banco nao podem ser ocultadas…

    Pergunto-me se nos entendemos em relacao ao que o supervisor bancaario tem realmente de fazer em cada momento…

    Pergunto-me se cada vez que eu tentar clarificar os factos – ao, por exemplo, perguntar quais as regras prudenciais em vigor que foram, de facto, alvo de esquecimento por parte do Governador – me acusarao de ter uma fee inabalaavel na regulacao…

    Pergunto-me se todos sabemos os princiipios do regime de supervisao banacaaria (risk-based supervision) que vigoram em Portugal…

    Pelo que leio nos jornais, nao me parece que eu tenha menos informacao que a Carmex acerca desta confusao…

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