O perfeito burocrata

A entrevista de António Nunes, inspector-geral da ASAE, à Tabu (no Sol do último fim-de-semana) é reveladora de como funciona um burocrata que adora ter poder para controlar os cidadãos que fornecem os impostos (e multas) que lhe pagam o ordenado. Segundo António Nunes, tudo o que faz é cumprir a lei: sempre que os jornalistas o questionavam sobre o excesso de alguma actuação da ASAE, a resposta pronta era uma variante de “a legislação é assim e eu apenas a aplico”, rejeitando qualquer responsabilidade pelas consequências da sua actuação, numa manifestação de fé na Lei só semelhante à de um mujahiddin na sharia. Mais, António Nunes não aceita que a ASAE siga um interpretação da Lei muito estrita (isto de haver várias interpretações da Lei é para comunidades decadentes).

Contudo, mesmo não tendo ABSOLUTAMENTE nenhuma responsabilidade pela actuação da ASAE, António  Nunes lá vai revelando que metade dos cafés e restaurantes não tem viabilidade económica, que temos o dobro dos restaurantes por habitante que os restantes países europeus, que os operadores da restauração se queixam da crise. Como se fosse o IG da ASAE que tivesse de decidir o que tem viabilidade económica ou não – claro que não apresentou dados para a propensão dos portugueses comerem fora em comparação com a dos restantes europeus, ou da dimensão média de cada restaurante, ou do horário de abertura; no entanto, mesmo que metade dos restaurantes não tenha viabilidade económica, quem é António Nunes para decidir pelos donos de um café ou restaurante que estes não podem alegremente perder dinheiro desta forma? Com esta conversa de António Nunes fiquei a temer que a breve prazo haja uma comissão que estabeleça o número de restaurantes necessário em cada zona do país e que atribua licenças de acordo com as “necessidades” de cada população, tipo regulamento de abertura de farmácias. Também há outra possibilidade para este disparate de António  Nunes: a mesma percentagem de restaurantes e cafés que não tem viabilidade económica também não está equipada de acordo com os critérios da sacrossanta Lei, mas deve ser só coincidência de números.

António Nunes faz inúmeras referências à “economia paralela”, esse perigoso monstro criado por pequenos agricultores, geralmente idosos, que vendem meia dúzia de vegetais aos restaurantes da zona, ou pelas donas de casa que vendem bolos e tartes caseiras aos cafés das redondezas. Tudo isto é proibidíssimo, anátema numa sociedade civilizada e segura, e quem não gosta pode sempre emigrar.

Sobre os numerosos e detalhados regulamentos para os restaurantes, a Tabu cita nas páginas seguintes o (genial) chefe Luís Baena, primo do nosso Borostyrol e que já correu mundo a trabalhar nos mais distintos restaurantes e hoteis e, dizem-me, pondera a abertura de um restaurante numa cosmopolita capital europeia: só os portugueses levam estes regulamentos à letra e a sério; a ASAE encontraria razões para encerrar os melhores restaurantes do mundo; os custos ambientais do abuso de produtos descartáveis são significativos; torna-se complicado cozinhar com produtos de grande qualidade e especificidade, cuja produção não seja industrial.

E, sobre a colher de pau – esse inimigo da segurança pública, ASAE dixit – digo eu que há uns anos contactei uma grande empresa brasileira de cutelaria, a Tramontina, do Rio Grande do Sul, sobre as novas utilidades de cozinha em madeira que estavam a produzir. A madeira utilizada, diziam-me, provinha de florestas ecologicamente sustentáveis e eram certificadas por isso; questionei-os sobre umas notícias lidas uns tempos antes quanto à pouca qualidade da madeira para utilização na cozinha e foi-me informado que os estudos mais recentes norte-americanos apresentavam a madeira como o material mais aconselhável para utensílios como as colheres de pau ou as tábuas de pão. Pois é, por alguma razão a humanidade pré-ASAE não soçobrou devido a intoxicações alimentares.

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