Enseada

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Parte I – Isidro foi despedido

Isidro fitava com tristeza as máquinas paradas no que parecia ser a superfície lunar. Assim ficou, por alguns minutos, de mãos nos bolsos a contemplar memórias ferrugentas. Conformado, abandonou a pedreira cabisbaixo e desceu a vereda rumo á estrada de alcatrão. Ao longe o mar trazia um perfume de limos e sal que a poeira do ar não amordaçava. Caminhou pela estrada, durante duas horas, ignorando as saudações dos camionistas que a espaços consigo se cruzavam. Lá em baixo, no vale a vila ganhava forma e o mar agigantava-se sobre ela  na sua imensidão. O céu azul realçava-lhe a beleza que o seu olhar não via. Parando por instantes, antes do último trajecto, Isidro sacou de um cigarro, visualizando-se mentalmenta a dar umas passas profundas e contemplativas, não chegou porém a acendê-lo. Náufrago na antecâmara submersa de um regresso a casa. Então, dos abismos da sua alma, como um espasmo,  emergiu um violento e sonoro grito – MERDA!  Repetido durante minutos, num clamor aos céus. Passados alguns minutos, cansado, com o corpo em tremor e as veias do pescoço a explodir, Isidro dobrou-se sobre si mesmo em penitência e contemplou, entre esgares e grunhidos mudos,  a sua sombra acabrunhada e trémula no cascalho da berma da estrada. O vento e a montanha mais acima devolveram-lhe o último dos seus ecos, reduzido á sua insignificância. Isidro ergeu-se e limpou com a mão suja o fio de cuspo e ranho que lhe pendia na face, recuperou a compostura, deitou o cigarro intacto ao chão e rumou decidido para casa.  (continua)

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Uma resposta a Enseada

  1. panaxginseng diz:

    Ao Isidro disseram-lhe que nao se preocupasse, que ele, o desempregado, nao existia… ou que ao invees, existia por causa da lei laboral…

    Ao Isidro disseram-lhe que nao se preocupasse, que depressa os salaarios reais ajustariam em baixa para fazer com que uma empresa o empregasse. Se o Isidro perguntar se isso seraa suficiente para algueem o empregar, disseram-lhe que nao se preocupasse, porque o salaario real, baixando o suficiente, ajudaria a que alguma empresa o empregasse… tambeem lhe disseram que ele, o desempregado, era necessaario para que a economia se restruturasse… a economia estava em restruturacao…

    O Isidro nao ficou muito descansado… o Isidro lembrava-se da piada que o cunhado lhe contava acerca de quantos neoclaassicos eram necessaarios para mudar um lampada… isto foi antes do cunhado ser despedido com a explicacao de que nao havia mais trabalho para ele, infelizmente… o cunhado ia muitas vezes a empresas e dizia aos empresaarios que aceitaria 15% menos de salaario que o outro tipo…

    O empresario dizia sempre que nao, que nao tinha pees nem cabeca ir agora despedir algueem com que se tem trabalhado haa anos, soo para contratar o cunhado do Isidro a 15% menos… porque? Ora, porque ee assim mesmo. O Trabalho estaa ali para ser feito, e enquanto o empresaario ganhar uma margem boa, ele nao vai matar o ganso soo para contratar o cunhado do Isidro. Para mais, haa algo de estranho aqui. Um tipo que aceita 15% menos tem de ter problemas…

    O cunhado do Isidro nao ficou nada contente, e vai dai, acusou o empresaario de ser irracional, e de nao se comportar como a firma que aparece nos livros de introducao aa economia… o cunhado do Isidro tinha um filho, que atee estudava em Lisboa para ser doutor, e deixava os livros de economia espalhados… um dia, o cunhado do Isidro pos-se a ler a parte sobre desemprego…

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