Enseada

images.jpg

Parte 2 –  Recolher Obrigatório 

No Café/Bar “Náufragos”, doca seca de mil memórias do oceano, o timbre das dezenas de vozes, enroladas em espirais invisíveis, deixava antever conversas intensas e animadas. Junto ao balcão curvilíneo um grupo de velhos lobos-do-mar recordava, porventura, velhas odisseias entre cervejas e sorrisos. Ao centro alguns jovens brindavam efusivamente, moldados por uns quantos casais e outros tantos grupos de amigos. Ao balcão o velho Eurestes afagava os copos com um pano carcomido pelo tempo enquanto ditava sentenças à Dona Eugénia, personagem residente da cozinha que uma pequenina janela de madeira deixava antever.

A porta da rua abriu-se uma vez mais para deixar sair um casal, porém antes de se fechar o fresco da rua trouxe consigo uma figura cinzenta que se sentou indiferente ao balcão no seu extremo mais afastado e vazio. Isidro acomodou-se á banqueta de madeira forrada com o seu casaco lanzudo, e acenou para Eurestes que a para ele se lhe dirigiu arrastadamente

– Então Isidro como te corre a vida? Perguntou Eurestes enquanto agarrava no seu caderninho branco na expectativa de um pedido.

– Venho da Pedreira – retorquiu Isidro agastado – as coisas não estão fáceis por lá. Hoje calhou-me a mim e a mais uns tantos. Já não falta muito para aquilo fechar. Traz-me aí um cheirinho de qualquer coisa para ver se animo a alma.

O velho Eurestes agarrou numa garrafa meio cheia de tinto da casa e colocou-a ao alcance de Isidro, endossando-lhe um sorriso de compreensão.

– Toma lá Isidro, vinga-te nesta. Já te trago qualquer coisa para encheres a barriga. Olhou-o por mais um instante e afastou-se na direcção de um recém-chegado grupo de Clientes. Isidro contemplou a garrafa, rodou-a sobre si mesma fitando o rótulo de mau gosto, e encheu um copo. A cor rubi aquosa do vinho carrascão filtrou a luz do candeeiro mais acima, apenas por alguns instantes, apagando-se logo de seguida nas suas entranhas.

 Lá fora, sob o imenso Oceano azul, o sol mergulhava vagarosamente, rumo a um novo dia, algures noutras paragens. Mais acima, o céu, num tom arroxeado deixava antever o rendilhado de estrelas que dentro em breve se revelaria desavergonhadamente. Nas ruas as pessoas dirigiam-se apressadamente para as suas casas e o comércio fechava as suas portas.

Enseada via chegar o fim de mais um dia. Mais um pouco e a noite, sem lua, sentar-se-ia de novo no seu trono, as ruas ficariam despidas de gente, e o uivo do mar e do vento seriam as únicas notas na pauta vazia em que Enseada se iria tornar.Por estes dias, na noite escura e profunda, poucos eram os que se atreviam a sair á rua, especialmente depois dos candeeiros se apagarem, o que acontecia por volta das nove.

Desde 2660, há já quase dois anos, que o recolher obrigatório depois das nove horas fazia parte da vida das pessoas. Apesar de relativamente calma, Enseada era obrigada, tal como todas as comunidades do cantão, a seguir as leis do primado central. E assim seria, noite após noite, até que melhores dias chegassem.

 Isidro saiu do “Náufragos”, com a restante clientela, por volta das oito, e olhou a avenida junto á praia que bordejava Enseada com os seus típicos casarões redondos envidraçados. Pensou por instantes em não ir já para casa e passar a noite na praia, a contemplar os céus. Mas logo deu por si a caminhar na direcção oposta antes que qualquer decisão mais ousada tomasse posse de si. Isidro sempre fora respeitador das leis do Cantão e fiel seguidor das regras do primado. (continua)

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Genéricos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s