A Minha Opiniao, E Os Rios Que Correm Ao Contraario

 

Eu acho que o Sporting ee o melhor clube do mundo. EE a minha opiniao. Posso ter a minha opiniao ou nao? Eu acho mesmo que o Sporting tem algo de especial. Eu acho que por isso, soo mesmo por isso, o Benfica devia ser eliminado. Pura e simplesmente, eliminado. E todos os benfiquistas podiam entao, devagar devagarinho, ter mais liberdade para rumar a Alvalade. Zaas, construir um aeroporto ali mesmo, onde a banheira da Luz estava. Porque? Porque ee a minha opiniao. Pode haver discussao sobre isto? Nao. A minha opiniao estaa simplesmente fundamentada na… minha opiniao. Isto ee uma posicao dogmaatica? Nao sei. O que sei ee que ee a minha opiniao. Quando eu for Presidente da Camara, ee isso mesmo que vou fazer. Eliminar o Benfica. Vou ter que explicar? Porque? EE a minha opiniao, e isso ee que conta ou nao? Entao eu nao posso ter opiniao?  

Querida Carmex:

EE isso mesmo que eu te tenho tentado explicar. A experiencia do seeculo XX ee que, quando as pessoas teem um emprego e os seus rendimentos aumentam a ritmos elevados, o seu grau de liberdade aumenta, nao diminui, mesmo se tal foi ajudado por uma qualquer forma de intervencao puublica. Crescimento econoomico e emprego criam oportunidades para exercer mais liberdade. A experiencia do seeculo XX demonstra, que para evitar grandes oscilacoes macroeconoomicas, e para manter um ritmo elevado de crescimento (especialmente para paiises em catching-up mode), poliiticas puublicas sao cruciais.

Mas como ee que noos sabemos como e quando esta intervencao puublica tem que se materializar, e que tipo de intervencao, e quais as condicoes para que esta seja efectiva? E quais os riscos? E quais os trade-offs intertemporais? E as consequencias macroeconoomicas? E como evitar excessos? E como reconhecer as tremendas falhas governamentais que se teem observado e que podem deitar por terra uma boa intencao ou uma ideia correcta em termos conceptuais? (Portugal?!?!?!?!) Para perceber isto (e aumentar o grau de liberdade dos cidadaos), temos de nos despir de ideias pree-concebidas (nada ee sagrado, apenas o objectivo final), e analisar os argumentos conceptuais e empiiricos a favor e contra a intervencao puublica. Isto faz, mas vai muito para aleem, da chamada “Economia Puublica” (e tambeem Public Choice). Os meeritos de toda e qualquer forma de intervencao ppublica, e as suas consequencias para o crescimento econoomico, podem ser analisados e discutidos aa luz deste e de outros frameworks de anaalise. Eu tenho a certeza absoluta que tiveste uma cadeira ou duas sobre isto. Verdade? Verdade.

Por isso se percebe porque ee que eu pergunto o que queres tu dizer com uma intervencao miinima. Tu assumes, de forma dogmaatica, que essa intervencao, para aleem das coisas baasicas (?!?!?) que enunciaste, restringe liberdade individual, invariavelmente. Esse ee um pressuposto, que ignora a possibilidade (teoorica, mas acima de tudo, uma realidade empiirica) que a liberdade individual pode aumentar em consequencia dos efeitos de uma intervencao puublica. A experiencia do sec XX ee que pelo menos para todos os paiises longe da fronteira tecnoloogica que encetaram processos de crescimento raapido, a expansao brutal dos niiveis de rendimento (e de liberdade individual) se deveu a uma atitude intervencionista do estado correcta. Muitos paiises sofreram consequencias desastrosas de intervencao incorrecta. NENHUM paiis, repito, NENHUM paiis, foi bem sucedido a levantar rapidamente (raapido catch-up) os niiveis de vida (e de liberdade) dos seus cidadaos atravees do laissez-faire.

Que tipo de intervencao? Nao ee miinima, nem maaxima. Esquerda ou direita. EE a intervencao necessaaria que permite aos cidadaos ter mais oportunidades para exercerem a sua liberdade individual, na medida que para a maioria dos cidadaos, o niivel de rendimento contribui muito para que as escolhas se possam materializar. Gotcha? 

A situacao actual, se leres outra vez os artigos na imprensa internacional (jaa que nao gostas do Krugman, porque o pobre senhor tem uma cor poliitica, e por isso, tudo o que deve dizer seraa, concerteza, opiniao coxa), ilustra as consequencias sisteemicas de nao se ter tentado impor restricoes aa liberdade contractual individual dos agentes nos mercados hipotecaarios, por se assumir, que nao haviam riscos sisteemicos futuros (riscos para os niiveis de rendimento liberdade individual de todos), e que os agentes agem da forma conceptual imaginada por gente como Rand (apesar da observacao de quao diferente pode ser o comportamento dos agentes, desde para aii, Keynes? Animal Spirits?!?!?). Essas consequencias sisteemicas estao agora aa vista, outra vez, e vao estar durante 2008 tambeem, para a liberdade individual de muitos (confio a esta altura que isto seja jaa oobvio… o desemprego ou o fraco crescimento de rendimentos haa-de ter, algum impacto, no teu conceito de liberdade individual dos cidadaos). Em consequencia, estao os bancos centrais a intervir (intervencao puublica, oh pa!!!), a usar dinheiro de todos (eh la!!), a salvar instituicoes financeiras detidas por alguns (isto diz-te alguma coisa em termos de restricao da liberdade individual?), para evitar males maiores para todos (para evitar agora, que as consequencias para a liberdade individual de muitos seja mais grave). Em 2002 (?!?!? Quando o problema comecou a ser visiivel, e vaarios alertavam para os riscos crescentes do comportamento dos bancos no mercado hipotecaario), o Greespan, em minoria no Board of Governors, e em consonancia com a posicao da Administracao Bush, recusou reconhecer o problema e aborda-lo com mudancas no regime prudencial do sector financeiro. Esta recusa foi feita com argumentos dogmaaticos acerca do comportamento dos agentes, e da nao existencia de risco sisteemico (porque tudo era off-balance sheet). Por isso, seria muito natural os democratas criticarem a Administracao Republicana por mais este screw-up. EE assim tao difiicil perceber a loogica disto? Entao agora nao faz sentido criticar algueem que nao fez o que devia no inverno, quando um problema se tornou de facto visiivel, soo porque se tinha trabalhado em conjunto e bem na primavera anterior com ele?!?!?

O Senhor Greenspan, de origem republicana e formado com a influencia de gente como Rand, esteve aa frente dos destinos do FED, obrigado ao mandato institucional de cariz activista para defender uma data de coisas (full-employment, etc.). Este ee o reconhecimento da realidade do seeculo XX: que (ii) ee responsabilidadee puublica, e (iii) estaa ao alcance das poliiticas macroecoomicas da maioria dos paiises, efectuar estabilizacao macroeconoomica. Por isso usar labels ee redutor, simplista, e tonto. A realidade ee complexa o suficiente para que faca algum sentido chamar algueem de esquizofreenico (na verdade, para veres como ee non-sense olhar a estas coisas com labels, convido-te a leres sobre o que o chamado neo-liberalismo – ou Washington Consensus – diz, talvez tenhas uma surpresa) por ter uma neo-liberal dos mercados mas reconhecer que poliitica macroeconoomica ee essencial (precisamente porque nao vivemos num mundo de equilibrio geral walrasiano). Chama-lhe o que quiseres, mas o activismo macroeconoomico do tempo do Greenspan ee o reconhecimento de quao desprovido de sentido ee dizer que os modelos neo-claassicos (ou da histooria da carochinha) provam que nao pode haver estabilizacao macroeconoomica (ou aquilo que escreveste acerca de multiplicadores?!?!?!??!? No modelo neo-claassico!?!??! Existem multiplicadores?!?! Mas jaa me disseram que nao tive uma formacao profunda em modelos neo-claassicos, por isso ee melhor ir ver).

Eu leio o que escreves: “Em termos económicos, os modelos neo-clássicos mostram que os gastos públicos não têm qualquer papel multiplicador no crescimento económico que o consumo e investimento privados não tenham também… esta ideia – que, de resto, arrasa com qualquer política económica Keynesiana..”; E NAO QUERO ACREDITAR!!! TU QUERES MESMO QUE EU COMENTE?

Triste sina esta!! Entao se te dizem que os rios correm ao contraario, (i) acreditas e passas a contar essa histooria sempre que algueem te pergunta em que sentido se deve fazer a barragem, (ii) compras o disco do Rui Veloso, ou (iii) mudas-te para o Cambodja onde o Tonle Sap, de facto, corre ao contraario em certa altura do ano (assim estaraas, 10% das vezes pelo menos, correcta)? Mas por favor, antes de decidir, certifica-te que te disseram que os rios correm ao contraario. 

Tonlesap.jpg

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7 respostas a A Minha Opiniao, E Os Rios Que Correm Ao Contraario

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  2. Só Maria diz:

    não foi a “não intervenção” do estado que permitiu o sobre endividamento das famílias, porque as famílias deveriam saber o que estavam a fazer, não somos todos tolos (como disse a carmex), mas deveria ter havido sim alguma intervenção, estabelecendo limites e regras para que não se chegasse onde chegámos neste capítulo e para que em cima disso as taxas de juro ao longo do ano não tivessem que ter subido cerca de 25%, como já se concluíu, o que convinhamos, é muito, independentemente do tipo de rendimentos de que estejamos a falar… uma vez mais, a europa só tem pés quando dói o calo aos estados unidos… emigrar também não é solução… pena…

    quanto ao scp, lamento discordar… mas era mesmo aquele balneário verde e amarelo horrível que deveria ser terraplanado para fazer o portela+1… mas esta é só a minha opinião! posso ter opinião? 🙂

  3. panaxginseng diz:

    Soo Maria, a questao nao ee uma de desresponsabilizacao individual produzida por um estado paternalista. Ou de chamar tolos aas pessoas.

    Ee um questao de supervisao prudencial do sector que ee o ceerebro de uma economia, e de assessao do risco que ee para todos um abrandamento econoomico produzido por uma crise financeira. Basicamente, o sector bancaario americano encetou um processo gigantesco de tomada de risco excessivo (“unaccounted for”), emprestando a quem nao tinham rendimentos, e que ignorava o cenaario da futura evolucao de taxas de juro ou dos mercados imobiliaarios (que estao, obviamente, expostos a uma espiral de defaults). Se os agentes sao racionais segundo a definicao claassica e dogmaatica do Greenspan, isto nunca teria acontecido. Em 2002, as autoridades, confrontadas com os sinais, decidiram ignorar a questao, e escudarem-se que os mercados bancaarios estavam a funcionar muito bem, e que nao haveria razoes conceptuais nenhumas para acreditar que agentes racionais nao saberiam julgar risco… a intervencao do estado, atravees de alguma forma de regulacao, nao seria segundo eles justificada…

    Agora a intervencao do estado ee massiva, utilizando recursos de todos, para salvar alguns, cujo destino afecta todos, porque nao se queria em 2002 restringir o comportamento de alguns.

    Esta nao ee um mensagem contra o mercado. EE uma mensagem contra a posicao dogmaatica que assenta numa visao simplista do que ee o mercado (neste caso, financeiro), e que tem consequencias sempre que a discussao sobre intervencao puublica vem a baila.

    Existe um enviesamento de partida daqueles que em 2002, partiram do pressuposto que regulacao prudencial seria um ataque aa liberdade contractual individual dos agentes no mercado hipotecaario. E nem queriam ouvir falar de riscos sistemicos. Agora sao os primeiros a pedir intervencao puublica para lhes salvar o “couro”.

    Quanto a sua opiniao sobre o SCP: e eu que admirava tanto aquela foto que a Soo Maria poe no seu blog, que parece a Monica Belluci?!?!?

  4. Só Maria diz:

    talvez eu não me tenha feito entender, mas eu acho que deve de facto haver essa supervisão prudencial como lhe chama, mesmo sabendo que também com ela poderemos correr alguns riscos e que essa supervisão sempre será alvo de questões e dúvidas, mas, com relação ao panorama que se vive nos estados unidos, aqui no nosso próprio quintal e no panorama geral, teriam sido evitados males maiores, concordo consigo. e não, as pessoas não são tolas, simplesmente não têm acesso à informação e aos indicadores que lhes permitam avaliar, pelo menos a médio prazo, e com maior segurança, a forma como juros e mercados vão evoluír. em verdade, a vasta maioria das pessoas só pode avaliar com base na “liberdade” financeira de que desfruta no momento de decidir por algum tipo de investimento e com base na confiança que tem, ou não, nos dois agentes principais de todo este jogo – estado e banca – e nos sinais que estes vão passando para o exterior.

    não me diga que deixou de gostar da foto por eu não ser do scp?
    ok, então não derrubamos a luz nem o alvaláxia… construam lá na ota que sempre a minha propriedade valoriza mais qualquer coisita!… está melhor assim? 😛

  5. panaxginseng diz:

    Estaa muito melhor… soo me custa que nao fui a tempo de comprar qualquer coisita naqueles lados, os da OTA, haa uns anos atraas…

  6. panaxginseng diz:

    Repare ainda Soo Maria, que a culpa nao estaa aqui nem nas pessoas que pediram empreestimos, nem nas instituicoes que, concorrendo umas com as outras, embarcaram numa tremenda subavaliacao do risco financeiro dos candidatos ao creedito… estaa no facto dos supervisores, mesmo tendo sido alertados para os riscos crescentes ainda em 2002, das duuvidas em relacao ao risk pricing destas operacoes, e do destino das obrigacoes que financiam of off-balance-sheet dessas operacoes, terem simplesmente adoptado uma posicao dogmaatica em relacao aa nao regulacao…

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