O regresso das amazonas livres de Darkover III

Ontem estava cansada e meia engripada, o gaiato está doente e não comentei aqui devidamente este hilariante texto da Fernanda Câncio.

Hilariante? Sim hilariante, não reparou o caro leitor nas frases “Enfim: as mulheres deram em ser como os homens. Em fazer o que lhes apetece, em assumir o que lhes convém. Tornaram-se uma coisa terrível, que se ouviu no outro dia, num Prós e Contras sobre esta questão, como um dos busílis: “egoístas”. “?! “Enfim,:as mulheres deram em ser como os homens”?! E uma pessoas não se agarra à barriga de tanto rir por ler isto num texto escrito em 2008? Pois. Cuidado com as hérnias enguinais, é o que vos digo.

Que nos anos sessenta e setenta do sec. XX houvesse algumas feministas que não entendessem que a diversidade e complementaridade entre homens e mulheres é muito mais interessante, agradável e divertida do que a igualdade entre géneros, não espanta; que estas feministas perdurassem a sua influência até aos eighties e nineties, já foi objecto de algumas gargalhadas saudáveis. Agora que uma proeminente feminista portuguesa venha com este discurso em 2008 é uma dádiva do deus do bom-humor a não se repetir nos próximos cinco anos. Aproveitem com precauções.

E, han, seus mariolas de género masculino, são uns egoístas e só assumem o que querem e o que lhes convém… E andam para aqui a fingirem-se de pessoas responsáveis, dispostos até a mudarem umas fraldas mal-cheirosas e a comprometerem noites de sono, tudo por um (agora revelado inexistente) desejo de constituir família… Ai seus mentirosos….

E, meninas, que é isso de acharem que há valores e que por vezes o nosso comodismo, egoísmo, hedonismo, consumismo, etc. não devem falar mais alto do que a nossa consciência (e a nossa natureza)?

Que é isso de se andarem a enganar pensando que esta ideia, de senhoras que não gostavam de fazer a depilação, que as mulheres se deviam comportar como os homens estão ultrapassadas? Porque andam a perder tempo lendo jornais e revistas estrangeiros, chegando à conclusão que a família é cada vez mais bem vista e mais cobiçada nas “sociedades-piloto” como a americana ou a britânica, e que valores como a maternidade são muito mais respeitados actualmente do que há trinta anos? Que esse bastião do liberalismo americano que é Hollywood, percursor de comportamentos no “mundo real”, só nos mostra actualmente actrizes que desejam ardentemente serem mães (biologicamente ou por adopção) e que em alguns casos se dão ao luxo de pararem de trabalhar durante alguns anos para aroveitarem a infância dos filhos? (Estou-me a lembrar assim de repente da Annete Benning – aproveito para lhe dizer que se ainda não a viu em Theatre, vá agora a correr a uma loja de dvds.)

Nada disso, cara leitora: o seu comportamento deve ser reminiscente do de Casanova ou de Don Juan ou de Luís XV (por amor de Deus não vá escolher um homem daqueles que aparece uma vez por século e que é um irremediável apaixonado pela sua mulher e pelos seus filhos, não perca oportunidades!); seja egoísta; não pense sequer passar pelas penas de uma gravidez (que são só mesmo penas, não há nenhuma graça interior em cada mulher, nem momentos adoráveis como ver o filho nas ecografias ou ouvir o seu coração a bater, nem ficamos – ainda – mais bonitas, nem é comovente partilharmos o corpo com o nosso filho, …, não, é tudo muito desagradável) ou submeter-se a uma cesariana (essa operação terrível que lhe permite estar a tratar normalmente de um bebé dois dias depois); queira ainda menos um bebé a dar-lhe cabo do sossego das noites (os sorrisos e os sons que nos fazem e a comunicação que aqueles pingentes recém-nascidos estabelecem connosco não são nada enternecedores nem nos compram para o resto da vida, não se preocupe); e então a amamentação (que permite momentos de amor com um filho, de expressão física e animal) é absolutamente disgusting – pense em mamilos gretados!

Se, depois de escolher ter uma vida em que o seu prazer e o seu egoísmo são as bitolas por que se rege, terminar tendo uma vida patética, já sabe, não se queixe: só acredita na Fernanda Câncio quem quer. É que textos como o que linkei lá para cima mostram, melhor do que qualquer saloíce portuguesa, como somos um país tacanho e atrasado, considerando modernos e actuais discursos que já não se ouvem nos “grandes” há muito, muito tempo (excepto nas relíquias de woodstock e similares).

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