Só agora reparei que o post com o emblema do Sporting era para eu ler atentamente

Querido Panaxginseng,

Todas as intervenções estatais, em qualquer área, são sempre restrições à liberdade dos cidadãos. Reconhecer isto não é defender o fim de qualquer intervenção estatal. A Lei e o Direito são restrições à liberdade dos cidadãos impostas pelo Estado; e se eu posso defender que há leis muito estúpidas ou mesmo perniciosas, tal não implica que defenda o niilismo e a anarquia. A existência de uma entidade reguladora para o sector da saúde, por exemplo, é uma intromissão na liberdade dos cidadãos (podem inibir médicos de exercer a sua actividade profissional, obrigarem os estabelecimentos de saúde a adquirirem determinados equipamentos,…) mas não é necessariamente má a sua existência (apesar de poder ser), uma vez que os consumidores comuns dificilmente obteriam informação suficiente para fazerem as suas escolhas de forma esclarecida (ou racional). O mesmo se passa no sector famacêutico, energético, bancário, e mais alguns de igual complexidade.

O problema surge quando os economistas – que, como qualquer outro profissional, gostam de se sentir especiais e providenciais e ser-lhes reconhecido o mérito de saber mais que toda a gente – e profissionais ligados aos sector público se convencem que a intervenção estatal é essencial, que os cidadãos e os mercados entregues a si próprios caminham para a catástrofe, que o melhor é regular tudo e mais alguma coisa e pôr o estado a fornecer serviços públicos para tudo e mais alguma coisa. E chega-se ao ponto em que o Estado deixa de ser benéfico para ser pernicioso – e esta passagem acontece SEMPRE que não se põe rédea curta no estado. É inevitável, porque toda a gente gosta de mandar em alguém.

Eu entendo que por defeito de profissão sintas que um estado é essencial para o desenvolvimento de um país, em especial de países que têm muito para desenvolver. Claro que é! Não é indiferente para o desenvolvimento económico o nível de fiscalidade de um país, ou as barreiras à entrada e saída dos mercados, ou as infraestruturas existentes, ou a legislação laboral, ou… (Se bem que há uns tempos conversámos – e até me enviaste uns artigos – que se chegava à conclusão que o enquadramento legal, político e fiscal que se considerava necessário para o desenvolvimento económico não era tão determinante como se pensava há uns dez anos.) O meu ponto de vista é o seguinte: o Estado deve ter a menor intervenção possível de forma a deixar os cidadãos escolherem o que lhes aprouver e os mercados funcionarem. Como é que se define intervenção mínima? Bom, caso a caso se verá, que isto não é coisa que se decida em duas ou três linhas e por regra geral.

O problema que eu tenho com o teu ponto de vista – muito keynesiano, sim, senhor – é que tu pensas que a intervenção estatal nos mercados é necessária SEMPRE, porque os mercados NUNCA funcionam bem. E quando há alguma crise num mercado, lá vêm estes economistas de Delfos (talvez depois de mastigarem louro em excesso) dizer “nós bem vos avisámos, deixaram os mercados sozinhos e agora vejam a desgraça a que isso levou”. E têm-no feito desde a WWII – todas as crises foram resultantes de mercados à solta; o crescimento económico não, isso já foi provocado pelas boas políticas dos economistas keynesianos e neo-keynesianos que são muito bonzinhos e nos protegem a todos…

Já agora refiro que os modelos de real business cicles (neo-clássicos) me aprecem muito mais realistas: consideram normal a existência quer de períodos de expansão económica quer de contracção económica, provocados por choques produtivos ou pelas decisões de cada um dos agentes económicos que resultam num agregado com comportamentos difíceis de prever.

(Tens razão na não-existência de multiplicadores nos modelos neo-clássicos, fui eu que me expressei mal; queria dizer que em termos de efeitos no crescimento do produto, gastos públicos são equivalentes a consumo e investimento privados.)

Eu confesso que oiço falar em estabilização macro-económica e desconfio logo. E não entendo que tu, que percebes tão bem as limitações dos modelos teóricos que se têm utilizado, penses que afinal há um grupo de economistas que SABE qual é a taxa de crescimento óptima para um país, e qual é a taxa de juro óptima, e exactamente que regulamentos se devem impor aos mercados para atingir os nobres objectivos por si definidos. E se é isso que se tem feito durante a segunda metade do século XX, então os economistas keynesianos devem estar muito envegonhados, porque houve períodos de crescimento intercalados de crises; estabilização macro-económica pode ter sido tentada mas não surtiu efeito – ah, mas já me esquecia que isto se deveu a alguma variável que os prestimosos economistas keynesianos não conseguiram ter sob o seu controlo. A pena é que vai haver sempre variáveis incontroláveis….

Só mais uns pontos:

1. Quanto à equivalência entre gastos públicos e consumo e investimento privados dos modelos neo-clássicos, não se aceitam insultos a esta ideia; se queres contra-argumentar, fá-lo por favor com argumentos teóricos e evidência estatística, que não é por chamares “história da carochinha” a um facto que este fica desqualificado.

2. Se o Krugman usa argumentos ideológicos num texto de opinião, porque hei-de eu deixar de discordar dele? Até concordo em certa medida com o texto dele sobre a globalização, e que eu saiba o senhor não teve nenhuma epifania política antes de o escrever e renegada logo de seguida. Mas não te esqueças como eu sou dogática por não concordar com as tuas opiniões.

3. O liberalismo que eu humildemente defendo não pode ser confundido com o laissez faire, laissez passer de oitocentos, quando as funções que se atribuíam ao Estado eram substancialmente diferentes das actuais e as sociedades e as economias eram consideravelmente mais simples.

4. Para estabilizar os mercados na sequência da crise dos subprime, os bancos centrais têm lançado dinheiro para cima dos bancos comerciais e fazem muito bem. Também fazem muito bem (no resto do tempo) em controlar a inflacção, de forma a manter o valor do dinheiro detido pelos particulares e empresas. Parece-me que isto é radicalmente diferente de manipular taxas de juro ou a liquidez no mercado bancário para se atingir a taxa de crescimento x. Isso já me parece messianismo económico. (Para não falar de casos como este.)

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