Enseada

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Parte 4 – Noite profunda  

Theodora (Theo) desligou-se da multiplataforma e acariciou uma vez mais o seu gato Neo, saber que a Guerra havia começado não lhe causou qualquer espanto. Qualquer um podia ver que seria essa a sequência natural dos eventos das passadas semanas.

A guerra, infelizmente, fazia parte a vida dos homens, de forma quase constante, desde a sucessão de grandes cataclismos que tomaram lugar na segunda metade do séc. XXIII.

A subida dos mares, a concomitante redução da superfície dos continentes em mais de metade do seu tamanho, a míngua das reservas de água doce, em paralelo com uma série de outros catastróficos eventos, tiveram como resultado uma terrível desunião entre os povos e uma rejeição de muitos dos alicerces na qual se erguiam as sociedades pré cataclismo.

O Século XXIV fora marcado por uma nova idade das trevas na qual os homens regrediram colectivamente a uma formato tribal em todos os seus maus sentidos.

A subida dos mares que teve o seu início, sensivelmente, no ano de 2267 só cessou a sua expansão em 2288, em paralelo o inesperado e ainda inexplicado afundamento parcial das plataformas continentais, ditou que muitos dos antigos países existentes no mundo pré cataclismo fossem simplesmente apagados da superfície terrestre.

Em Fevereiro de 267, quando se começaram a manifestar os primeiros indícios dos trágicos fenómenos o humor que caracteriza o ser humano ainda conseguiu gracejar com os factos, no entanto quando a humanidade se apercebeu da dimensão do que estava para acontecer foi o caos que tomou o controlo.

As migrações em massa para as zonas secas, e não destruídas pelos fenómenos sismológicos e vulcânicos, que em paralelo se fizeram sentir, levou a uma saturação humana dessas zonas.

No início dos eventos, as populações das terras altas e da áreas interiores dos continentes estenderam a sua mão solidária para os povos apátridas, porém quando os recursos começaram a escassear e o pânico a instalar-se, num contexto de total falência das instituições e estruturas económico/sociais, foram aqueles que conseguiram manter uma mínima organização militar, politica e tecnológica que ganharam ascendente.

O Planeta no decurso do séc. XXIV foi tomado por milhares de lutas fraticidas, Populações inteiras expulsas das suas terras por grupos vindos de zonas distantes. Populações em migração selvaticamente chacinadas pelos que temiam pela sua terra e pela sua vida. Pode-se dizer que muitos dos que ficaram foram os mais fortes e agressivos e, ao olhar para trás, foi com vergonha que o que restou da humanidade se reviu na selvajaria em que esteve emersa durante tempo demais. Mas teria sido possível algum outro caminho? 

Theo tocou no seu módulo de comunicação, visualizou mentalmente Isidro, e a conexão foi feita de imediato. Isidro tomou controle do seu corpo físico levantou-se da sua chaise longue, dirigiu-se ao seu módulo de comunicação e ao aceitar a chamada, tocando no visor, Isidro e Theo ficaram unos, no limbo de comunicação cerebral que o dispositivo proporcionava. Era difícil descrever a sensação que o módulo de comunicação proporcionava aos que se amavam quando estabeleciam uma ligação entre si. Plenitude era uma palavra usada por muitos para a descrever.

– Viste o comunicado Theo?

– Esperavas outra coisa?

Já estou farto disto… Sabes que fui hoje despedido da Pedreira, não há quem compre minério, a operação vai parar. Estão a mandar toda a gente para casa. Amanhã tenho de me registar na plataforma de cidadãos e ver se aparece qualquer coisa nova. Não consigo ficar em casa sem trabalhar.

– Podes sempre falar com o meu irmão, com um possível escalar da guerra é sempre precisa gente na Fábrica.

– Pois, já tinha pensado nisso… Sabes ocorreu-me hoje passar a noite na praia, ao relento, senti o desejo de contemplar as estrelas como quando passamos a noite na praia Norte.

– Não “digas” isso aqui… nunca se sabe quem possa estar á escuta. Amanhã vou ter contigo logo quando nascer o Sol. Hoje ainda tenho de acabar um trabalho para o comité, devo estar acordada a noite toda. Assim que puder vou para aí e meto-me na cama contigo. Agora tenho de ir. Não sofras

– Não sofras também (Continua)

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