Lendo

“A duração média de uma espécie na Terra é de cerca de quatro milhões de anos, portanto, se quiser ficar por cá durante uns biliões de anos, terá de ser tão versátil quanto os átomos que o constituem. Tem de estar preparado para mudar aquilo que o caracteriza – forma, tamanho, cor, espécie a que pertence , enfim, tudo – e fazê-lo repetidamente. Coisa que é muito mais fácil de dizer do que de fazer, uma vez que o processo de mudança é feito ao acaso [nota minha: segundo Darwin](…). Portanto, e ao longo de vários períodos, duarante os últimos 3,8 biliões de anos, o leitor não tolerou o oxigénio, depois ficou totalmente dependente dele, cresceram-lhe barbatanas, membros e curiosas velas, pôs ovos, cortou o ar com uma língua bífida, teve pele lustrosa e depois coberta de pêlo, viveu debaixo de terra, em árvores, foi tão grande como um veado e tão pequeno como um rato, e mais um milhão de outras coisas. Se tivesse havido o mais minúsculo desvio desta linha evolucionária, poderia estar agora a lamber algas nas paredes de uma gruta, ou a arrastar-se  dengosamente como uma morsa nalguma praia pedregosa, ou a expelir ar através de um orifício no topo da cabeça antes de mergulhar 20 metros de profundidade para uma copiosa refeição de deliciosas minhocas do mar.

O leitor não só teve a sorte de estar ligado desde tempos primordiais a uma linha evolucionária beneficiada como também teve a sorte extraordinária, diria mesmo milagrosa,  com os antepassados que lhe calharam. Pense só que, durante um período de 3,8 biliões de anos, período anterior à formação das montanhas, dos rios e oceanos da Terra, cada um dos seus antepassados de ambos os lados foi suficientemente atraente para encontrar um companheiro, teve a saúde necessária para s reproduzir, e foi suficientemente bafejado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para o fazer. Nenhum dos antepassados necessários à sua existência foi esmagado, devorado, afogado, moreu de fome, foi atacado ferozmente, ferido mortalmente, ou de alguma outra forma desviado da missão vital de deixar uma minúscula carga de material genético ao parceiro certo, no momento exacto, de forma a perpetuar a única sequência possível de combinações hereditárias que, eventualmente, espantosamente, e com uma rapidez incrível, resultariam na sua pessoa.”

Bill Bryson, A Short History of Nearly Everything

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