Agora a sério

Carmex, eu não me consigo categorizar ideologicamente. Aliás, acho isso uma tontice (basta ver a abstrusidade do panorama político português onde se chama direita ao PSD…) maior que aquele Political Compass cujas perguntas são cretinas e as hipóteses de resposta demasiado dogmáticas.
É claro que simpatizo com algumas ideias de direita e não consigo sequer suportar a hipótese de ser de esquerda, mais pela conduta do que pelas ideias, mas onde não posso deixar de me rever é na generalidade da Doutrina Social da Igreja (sobretudo no que respeita à orientação para o bem comum – em que assentam os princípios da solideriedade, subsidiariedade e o enquadramento do trabalho humano – e ao papel celular da família na sociedade) e isso coloca-me onde? Na direita ou na esquerda?
Sinceramente, acho que essa divisão é absolutamente falaciosa e resulta apenas da necessidade que temos de nos fechar em compartimentos estanques para facilitar as definições. Odeio o frenesim com que se procuram incoerências ideológicas numa atitude de total intransigência e descrédito para com quem, por uma qualquer razão, “abandona” a ideologia em que o catalogaram para executar uma medida necessária, ainda que antagónica, para atingir o fim que considera melhor segundo aquilo em que acredita.

Não precisamos de quadrantes, precisamos de ideias e de prática, de executar o melhor de cada doutrina, de cada pessoa ou de cada grupo para atingirmos a justiça e paz necessárias para o mundo (isto de andar a ouvir muitos discursos do Obama anda-me a fazer mal).

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10 respostas a Agora a sério

  1. panaxginseng diz:

    “If someone would be greatly helped by something belonging to someone else, and the seller not similarly harmed by losing it, the seller must not sell for a higher price: because the usefulness that goes to the buyer comes not from the seller, but from the buyer’s needy condition: no one ought to sell something that doesn’t belong to him.” (Thomas Aquinas, Summa Theologica)

    Ainda haa encontros mensais? Porque nao pedir a um Jesuiita para contar um pouco sobre esta visao da forma como os precos deviam ser determinados?

  2. hirudoid diz:

    Fabuloso!
    Podíamos pensar nisso, sim…

  3. panaxginseng diz:

    como ee que fazes aquelas palavras que sao links?

  4. Pingback: Eu, de direita? Não me ofenda! « Farmácia Central

  5. Carmex diz:

    Mas vocês ainda não repararam que sempre que a Igreja fez análises científicas errou e se deu mal? Ainda não descobriram que a função da Igreja não é fazer ciência, seja biologia ou economia?! Do que vos conheço pensava que o que procuravam na religião fosse outra coisa diferente respostas a como se devem determinar os preços de um produto?” (ou “como surgiu o universo?”). Por amor de Deus!

  6. panaxginseng diz:

    Nao nao, isto ee economia, por mais que nao seja porque importa aas pessoas… mas tambeem porque ee sobre uma perspectiva moral da realidade que estaa impliicita em tudo o que aprendemos na escola de economia… apenas nao nos ensinam isso…

    Acho que nao reparaste no alcance das palavras do S. Tomaas de Aquino, e na forma como o gajo, no Sec. XIII, antecipou toda a literatura do Sec. XX sobre falhas de mercado (e market power), e sobre a diferenca entre “private costs (benefits)” e “social costs (benefits)”… hoje em dia, aprende-se na escola partes deste refinamento em cadeiras de economia puublica (para nao falar de macroeconomia), por isso ee tao estranho que tudo se esfume da memooria, e da opiniao… talvez seja uma falha brutal do nosso sistema de ensino que pelo menos nao haja curiosidade para pensar nas conclusoes: “a alocacao de recursos jaa nao ee ooptima”

    Tenho andado preguicoso, porque seria um post grande (mas talvez innutil), mas sinto vontade de pedir a todos um “refreshment” da consequencia destes “wedges” para a alocacao de recursos…

    Olha que o S. Tomaas de Aquino estaa a falar de economia tambeem… e o Adam Smith foi brilhante, tao brilhante que para aleem do capiitulo VII do livro 1 do Tratado e do exemplo do talhante (que fascina tanta gente), escreveu o resto do Tratado tambeem…

    E acerca do fasciinio pelo capiitulo VII do livro 1 to Tratado, ee mesmo estranho que numa obra de mais de mil paaginas (nas duas versoes que tenho), o Adam Smith soo tenha falado da mao invisiivel uma vez…

  7. Carmex diz:

    João Pedro, como qualquer entendido em literatura ou História ou… te poderá dizer, é um ERRO CRASSO lermos livros escritos em contextos históricos muito diferentes dos actuais e colcarmos lá conceitos actuais e inexistentes na época em que foram escritos.

    Foi exactamente esta presunção que levou a que no Renascimento se assumisse que a Bíblia tratava também de ciências naturais e biologia, quando esses conceitos eram desconhecidos à época da escrita dos textos bíblicos e estiveram portanto absolutamente ausentes.

    De facto para a exegese bíblica, é determinante perceber o contexto histórico, social, cultural, económico, religioso em que um determinado livro foi escrito para percebermos o que o livro diz. Ler um livro histórico com os conceitos presentes leva inevitavelmente ao erro. Presumo que a Igreja que determina isto para a Bíblia também o determine para S. tomás de Aquino.

    Estás a colocar em S. Tomás de Aquino pensamentos, opiniões e conceitos que ele não tinha – não podia ter – e isso não só é errado como é perigoso. A teologia da libertação tem alguma coisa a ver com estes métodos utilizados para ler os evangelhos.

  8. panaxginseng diz:

    “If someone would be greatly helped by something belonging to someone else, and the seller not similarly harmed by losing it, the seller must not sell for a higher price: because the usefulness that goes to the buyer comes not from the seller, but from the buyer’s needy condition: no one ought to sell something that doesn’t belong to him.” (Thomas Aquinas, Summa Theologica)

    Em linguagem moderna, S. Tomaas de Aquino insurge-se contra o resultado de transaccoes em que as partes teem poder negocial desigual, por exemplo quando uma das partes toma partido das circunstancias diffiiceis da outra parte contractual. O argumento ee moral, mas noos podemos perguntar hoje em que situacoes ee que de facto esse poder negocial desigual se exerce de facto (esse ee o sec. XX da Economia). Marx fez as mesmas perguntas, e estava claro quanto ao desigual poder negocial que os donos de faabricas e proprietaarios rurais tinham em relacao ao proletariado sem terra (mas que tem que comer todos os dias, e resolver o problema mais premente da sua existencia, todos os dias).

    500 anos depois de Aquino, o Adam Smith, professor de moral, e fundador da ciencia econoomica, insurge-se contra a tentacao do governo de regular precos em resposta a “famines” ou de restringir os “traders” nessas situacoes. Smith explica a importancia do mecanismo de precos descentralizados e dos “traders” para nao soo aspirar a uma alocacao eficiente de recursos, mas tambeem para o aumento de oferta de alimentos e reducao do desperdiicio que poderia resolver a “famine”. Este foi o comeco da viagem. Ee a Adam Smith que todos devemos estas intuicao, que mais tarde gente como o Walras e o Marshal formalizaram no conceito de “general equilibrium” (assente em “competitive, full information, no uncertainty, no money, frictioneless markets”).

    Mas o que ee brilhante em Smith, ee que no Tratado, ele nao se ficou por ai, e deixou o suficiente para o autentico revival actual. Quando ele fala em economias de escala a propoosito dos benefiicios do comeercio, ele estaa falar de concentracao de mercado tambeem, ou seja, que produz capacidade desigual de negociar precos (tudo coisas que o Sec XX formalizou, mas que estava jaa no tratado, brilhante). O Tratado nao pode ser visto como uma biblia, mas tem que ser lido.

    Como ee que o mercado de trabalho funciona? Para Smith, era claro que o mecanismo necessaario para se aspirar a uma eficiente alocacao de trabalho na economia depende da fixacao descentralizada e livre de salaarios, em igualdade de circunstancias negociais, e foi claro em dizer: “…in the long run the workman may be as necessary to his master as his master is to him; but the necessity is not so immediate…” Ou como Marshall concretiza: “labour is often sold under special disadvantages arising from the closely connected group of facts that labour power is ‘perishable’, that the sellers of it are commonly poor and have no reserve fund, and that they cannot easily withhold it from the market.” Ou seja, tipicamente, um trabalhador estaa mais desesperado por um trabalho que o empregador…

    Estes nao sao argumentos contra o mercado. Sao as origens da descoberta do que o mercado ee, e das suas implicacoes para a alocacao de recursos e distribuicao de benefiicios (que os claassicos sempre olharam numa perspectiva moral, mas que os neoclaassicos esquerecam, resultado inadvertido do utilitarianismo e mesmo ainda do Solow – coitado do senhor, que atee ee Keynesiano, para quem gosta de labels). O resultado deste exemplo do mercado de trabalho ee que alguns salaarios ficarao abaixo do que uma sociedade considera um miinimo de dignidade (sem qualquer relacao com o conceito imaginaario de produtividade marginal, que quanto muito fixa um “upper-bound” para o empregador), e ee um convite para polliticas de correccao que podem tornar o outcome mais justo (se a sociedade assim o observar). A implicacao oobvia de admitir que o mercado de trabalho nao funciona como o mercado das laranjas, ee que (i) a alocacao de recursos estaa sempre longe do ooptimo de pareto, (ii) que haa uma oovia implicacao em termos de distribuicao do excendente bruto de explocacao.

    O que liga gente deste seeculos diferentes, ee a mesma preocupacao com descobrir e opinar sobre a realidade, que nao ee pre-determinada, mas fruto do pensamento, tal e qual como Hayek escreve.

    S. Tomaas de Aquino nunca pensou numa palavra chamada monopsoonio, mas na moralidade dos resultados de algo que alguns seeculos mais tarde, os economistas comecaram a aprender a formalizar. A forma como uma sociedade aprecia os resultados da actuacao dor mercados estaa embuiida do conceito de utilidade do agente representativo, ou no conceito de welfare mas de forma muito simplista. Ou seja, compara-se outcomes atravees do impacto no welfare: por outras palavras, eficiencia. Comecar a apanhar o fio aa meada nao ee difficil, e tremendamente liberador. Assim, como as ideias do Padre Arrupe.

  9. panaxginseng diz:

    Aa hora de almoco pus-me a ler o calhamaco (o Tratado que toda a gente cita, mas que poucos leem) e deparei com isto (queria ler o capiitulo 8 sobre o mercado de trabalho):

    “A man must always live by his work, and his wages must at least be sufficient to maintain him. They must even upon most occasions be somewhat more; otherwise it would be impossible for him to bring up a family, and the race of such workmen could not last beyond the first generation.”

    “Is this improvement in the circumstances of the lower ranks of the people to be regarded as an advantage or as an inconveniency to the society? The answer seems at first sight abundantly plain. Servants, labourers, and workmen of different kinds, make up the far greater part of every great political society. But what improves the circumstances of the greater part can never be regarded as an inconveniency to the whole. No society can surely be flourishing and happy, of which the far greater part of the members are poor and miserable. It is but equity, besides, that they who feed, clothe, and lodge the whole body of the people, should have such a share of the produce of their own labour as to be themselves tolerably well fed, clothed, and lodged.”

    Completamente descontextualizado assim, neste comentaario, mas ainda provocante ou nao?

  10. Pingback: E’ o que da’ ouvir Obama em excesso… « Farmácia Central

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