O mercado vos salvará, caros fumadores

Correndo o risco de irritar ainda mais o Panaxginseng com esta conversa de que os mercados funcionam – e estando em casa com o gaiato doente e, consequentemente, com pouca capacidade opinativa – cá venho dar umas colheradas para a discussão da lei do tabaco entrada em vigor no último dia 1.

Fumar não é um comportamento que o Estado deva facilitar e promover – han, Panaxginseng, e eu a defender que o Estado deve legislar… – tendo em conta os malefícios reconhecidos para a saúde de fumadores e não-fumadores e os custos individuais e sociais do tabaco. Junta-se a isto o incómodo causado pelo fumo de tabaco nos fumadores passivos, geralmente ignorado pelos fumadores activos sem qualquer peso de consciência (eu sei, já fumei, ainda que com um vício muito soft e de fácil abandono, mas reconheço que não me preocupava em excesso ou em defeito com o incómodo que o meu fumo causava noutros). Não me choca que um governo decida legislar sobre o assunto de forma a proteger direitos dos não-fumadores. Há decisões governativas bem piores.

No entanto, não considero que esta lei seja assim tão necessária: afinal se os não-fumadores se incomodam tanto com o fumo dos outros em bares e restaurantes, porque nunca protestaram e decidiram frequentar restaurantes e bares com zonas separadas para não-fumadores? É o que eu faço quando vou a restaurantes – a bares ainda é cedo, dizem-me – com o meu filho de quase dois anos: ou escolho esplanadas abrigadas ou espaços livres de fumo e de fumadores (e do Miguel Sousa Tavares).

Por outro lado, esta lei dá continuidade ao épico esforço deste governo de não deixar comportamento humano algum, tido fora de portas (dentro de portas deve haver alguma comissão a averiguar a possibilidade de banir toalhas de cozinha de pano ou colheres de pau dos nossos irresponsáveis lares e de eliminar o fumo do tabaco dos quartos e da sala de jantar para o concentrar exclusivamente na sala de estar), por regular e com entidade competente para fiscalizar.

Por último, não concordo com a impossibilidade dos bares e restaurantes poderem escolher serem para ou fumadores ou não-fumadores, permitindo uma escolha dos consumidores e a segmentação de mercado.

Mas, repito, já que o nosso governo teima em não resolver o problema estrutural das nossas finanças públicas, nem pretende levar a cabo políticas – tipo baixar o IVA – que desafoguem as empresas (daí resultando que contratam mais pessoas e o desemprego diminui, daí resultando que a pobreza também diminui) já que o nosso governo não se sente à altura (eles lá sabem) destas tarefas importantes, podiam ocupar-se com coisas bem piores do que esta lei do tabaco.

E agora que já está aprovada e em vigor a lei, deixem-me descansar os fumadores, que neste momento se sentem tão atacados: o mercado vai funcionar (Panaxginseng, respira fundo). Se, como dizem, os restaurantes que não aceitam fumadores vão sofrer uma quebra nos clientes e nas receitas, não tarda que decidam fazer obras, comprar sistemas de ventilação caríssimos e voltem a aceitar fumadores. Confiem em Adam Smith.

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7 respostas a O mercado vos salvará, caros fumadores

  1. hirudoid diz:

    Hoje almocei num simpático restaurantezito na Rua da Madalena e o empregado (dono?) estava verdadeiramente consternado com a situação pois em todas as notícias que passavam no telejornal encontrava pretexto para dizer: “Ali pode-se fumar”. Desde um barco chamado “Smoking” à erupção do Tungurahua, no Equador.
    Confontei-o com a sua preocupação que prontamente confirmou dizendo que “os portugueses não gostam de ser contrariados”…

  2. Carmex diz:

    Coitado do senhor!… Se até vê tabaco relacionado com a reupção de um vulcão está feito! Mas se calhar não tinha o restaurante vazio, pois não?

    Já reparei na tua fotografia do Hirudoid, muito gira, como posso fazer o mesmo com um carmex????

  3. panaxginseng diz:

    Uma histooria da carochinha podia contar como o mercado resolvia isto, apesar das externalidades negativas (imposicao de custos aos outros, sem pagar)… entao, nessa histooria da caronhinha, atee os trabalhores dos restaurantes podiam escolher nao passar o dia inteiro como fumadores passivos… optavam por estar empregados nos restaurantes para nao fumadores, ou exigiriam uma indemnizacao condizente ao proprietaario (property rights em latu sensu), que o proprietaario prontamente incluiria no preco dos bitoques…

    Os clientes tambeem poderiam escolher entre ir a um restaurante de fumadores ou a um restaurante de nao fumadores… era soo essa divisao ocorrer naturalmente no mercado, sem serem obrigados… naturalmente, os restaurantes tambeem escolheriam pois em que segmento de mercado se situarem (sem custos de ajustamento entre um e outro segmento), segmento dos bitoques com fumo ou segmento dos bitoques sem fumo…

    Na histooria da carochinha, nao haveriam barreiras aa entrada na restaurancao (como custos fixos), pelo que a estrutura de mercado nunca resultaria em situacoes de escolha limitada para o cliente, mesmo que soo em alguns locais…

    Nestes jogo de interaccao entre um nuumero limitado de restaurantes nunca se observaria um equilibrio em que todos os restaurantes escolheriam, em conluio, ser para ambos fumadores e nao fumadores, sabendo que os nao fumadores, teem que comer tambeem, todos os dias… status quo… equilibrio de mercado…

    Mas assim toda a gente escolhia… mesmo que alguns nao tivessem muitas opcoes, mas toda a gente escolhia…

    Na histooria da caronhinha, o mercado (essa entidade divina que ningueem gosta de explicar) funciona, e isto costuma por um ponto final nas conversas, mesmo naquelas em que se tenta perceber como ee que os agentes interagem e lidam com as externalidades que impoem aos outros, e que equilibrios podem resultar (estaaveis ou instaaveis) nesses espacos de transaccao entre agentes decidindo de forma descentralizada a alocacao de recursos (o mercado)… e do que ee que esses equilibrios podem depender…

    A realidade que a histooria da caronhinha nos conta ee mesmo muito pouco real… e muito menos interessante para todos aqueles que aprenderam a admirar o mercado, mas que se recusam a trata-lo como uma entidade divina…

  4. Carmex diz:

    João Pedro, afinal não são só os mercados de factores que têm peculiaridades de funcionamento… bem me parecia que era esta a tua opinião…

    Só três coisas:
    Os consumidores na situação actual já escolhiam os restaurantes a que iam. Se não escolhiam restaurantes com zonas de não-fumadores foi porque comer ao lado do fumo dos fumadores não é assim tão incomodativo, ou porque a comida de um determinado restaurante ou o ambiente ou o facto de estar na moda pesavam mais na decisão do que o ar livre de fumo. Como disse, quando levo o gaiato, o que pesa mais é o ar limpo.

    Não me chocaria nada que, num mercado onde os trabalhadores e os empregadores pudessem fazer mais escolhas, poderiam existir subsídios para os trabalhadores dos restaurantes para fumadores. Com a actual rigidez é que isso é difícil.

    Se vais começar a considerar que é uma grande barreira à entrada o investimento para abrir um restaurante, então de facto todos os mercados (excepto os que apenas implicam uma banquinha na feira, e mesmo assim…) são inviáveis.

    E mais umas coisas:
    Não entendo porque dizes que divinizpo o mercado – eu que nem Nossa Senhora ou outro santinho divinizo! – se nem me oponho a esta lei do tabaco. Ou se concorda contigo ou se é um perigoso radical?!

    E tem piada: tu usas distorções impostas de fora para justificar que os mercados não funcionam.

  5. panaxginseng diz:

    Disseste: confiem em Adam Smith?

    O de Chicago, ou o escoces de Kirkaldy?

  6. Carmex diz:

    João Pedro, tens que perceber uma coisa sobre os meus textos: eu às vezes uso recursos estilísticos que não querem dizer literalmente o que eu escrevo. “Confiem em Adam Smith” é um deles. AS falou da mão invisível e de vários mercados, portanto o que eu quero dizer é que os fumadores devem confiar no mercado – se houver procura de restaurantes para fumadores, nascerá oferta de restaurantes para fumadores.

    Os agentes económicos, ao contrário do que os intervencionistas gostam de pensar, não são parvos.

  7. panaxginseng diz:

    Confiar no mercado… laa voltamos noos ao mesmo… do mercado que nos fala Smith?

    De qual Smith ee que estamos a falar? Ee que o pobre do Adam Smith de Kirkaldy nao conseguiu fazer tudo… mas jaa fez muito, e atee falou da existencia de economias de escala imagina… isto tem implicacoes na estrutura de mercado, e nao possibilidades de conluio e e interaccao, e na possibilidade de ficar tudo na mesma, como agora…

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