A globalização e a necessidade de fugir de economistas “esclarecidos”, parte 1

Este género de conversa é sintomática da ambição que economistas e burocratas têm de definir as regras com que se regem as vidas das outras pessoas.

Um economista keynesiano ou neo-keynesiano – aliás como qualquer bom vendedor de qualquer sector de actividade muito ansioso para que os fregueses reconheçam a bondade do que vendem – está sempre pronto a mostrar como todos os sucessos económicos e todos os períodos de desenvolvimento desde os tempos dos Fenícios resultaram de um adequada intervenção estatal na economia e como todos os falhanços e colapsos empresariais e económicos se ficaram a dever à iniciativa privada sem vigilância, a esses inconscientes que pensam que podem exercer a sua actividade sem dar muitas satisfações às pessoas “esclarecidas”.

Por mim, como não gosto de discutir com pessoas que têm sempre razão, portadores de (apenas) enormes sucessos das suas ideias e incansáveis a encontrar (apenas) falhanços nas ideias contrárias, dou-me por vencida. Imaginem-me a acenar com a cabeça: claro que sim, todos os sucessos da economia se deram debaixo da intervenção estatal, mesmo inspirados em qualquer manga-de-alapaca centralizador.

E digo mesmo mais: admiro intensamente estas pessoas que consideram uns patetas (quando estão bem dispostos) todos os que não concordam inteiramente com elas, que sabem (por revalação divina) qual a taxa de crescimento óptima de um país, quanto deve custar arrendar uma casa, qual a taxa de juro que se deve manter, qual o preço do leite e do pão e de uma camisola, o limite de bens sumptuários que se devem aduirir, etc. etc. etc.etc. etc. etc. etc. etc. Admiro intensamente essas pessoas que sabem tanto sobre aquilo que deve condicionar a vida dos outros. Espero é  nunca ser uma delas.

O problema com estes economistras providenciais é que um mínimo conhecimento de História (e não apenas História da Teoria Económica) tira-lhes a razão. Nem vale a pena recuar ao tempo da revolução industrial e de como o liberalismo puro e duro – o laisser faire, laisser passer – construiu a riqueza das nações que se industrializaram, ainda que com custos sociais demasiado grandes para que os tolerássemos actualmente. Basta-nos ver, por exemplo – e aceitando por um segundo a premissa de que os trinta gloriosos anos de crescimento económico depois da WWII existiram devido a alguns cérebros inteligentes que puseram a economia nos carris – que a crise provocada pelo choque do aumento do preço de petróleo em 1973 foi também provocada por estas mentes inteligentes que puseram a economia nos carris. Isto a ir pela mesma lógida dos que atribuem insucessos à falta de regulação.

Mas quanto a estes “trinta gloriosos anos”, a verdade é que o crescimento económico desta época não pode ser explicado apenas por causas estritamente económicas. Há que ver o contexto – como, de resto, sempre se deve fazer.

Em primeiro lugar, esta época de crescimento verificou-se na América do Norte e na Europa e é conveniente não sermos umbiguistas nestas questões. Não tenho aqui estatísticas, mas de certeza que o crescimento do PIB per capita para aquele sexto da população (uma ninharia!) que vive na China tem sido maior desde a década de 90 do que do fim da WWII a 1973. Relativamente à India (mais um bilião de pessoas!) diria o mesmo. (Nem vale aqui a pena referir os milagres económicos que foram os países da Cortina de Ferro.)

Disto se retira que é muito bonito fazermos bonitas frases sobre a intervenção estatal e a globalização quando nos esquecemos das necessidades de crescimento dos outros (que geralmente são os mais pobres).

Por outro lado, é conveniente lembrar condicionantes históricas para estes resultados económicos (onde eles aconteceram). Por exemplo (só uns poucos) ter sido uma época de paz na maior parte dos países e de anos; por exemplo aplicarem-se à indústria avanços tecnológicos conseguidos durante a WWII; por exemplo a entrada das mulheres no mercado de trabalho, o que aumentou a quantidade disponível de um dos factores de produção – o Trabalho – e, ainda, criou novos mercados de produtos que estas mulheres com dinheiro para gastar queriam adquirir; por exemplo desenvolvimentos em transportes aéreos e melhorias nos transportes marítimos e ferroviários; por exemplo inovações nas comunicações de longa distância.

Quando queremos colher louros para o nosso clube económico, é conveniente sermos mais criteriosos nasa escolhas dos “sucessos” que apresentamos.

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7 respostas a A globalização e a necessidade de fugir de economistas “esclarecidos”, parte 1

  1. Só Maria diz:

    hoje não tem nada a ver com o post este meu comentário, ou até tem… com este e com tantos outros que vou lendo por cá e eventualmente deixando a minha opinião.
    assim, em jeito de reconhecimento pela qualidade que vejo no vosso blog, tem lá no Só Maria um prémio simples, mas cheio de intenção para a equipa da Fármácia Central.
    Keep up the good work!
    Abraço

    Só Maria

  2. panaxginseng diz:

    Carmex,

    Reparo que continuas a gostar de labels… nao ee palavrao nenhum nao senhora ser chamado de keynesiano… afinal de contas, ee o grupo que tenta interpretar as ideias acerca da realidade econoomica do economista mais influente do sec XX… que se insurgiu contra a visao terrivelmente limitada do paradigma marginalista da altura, a propoosito de um problema bem real na sociedade…

    Na verdade, as poucas vezes que me ponho a pensar nisso, a minha interpretacao da realidade coincide mais com as duuvidas e a procura de outra escola, mas nao te digo qual ee, porque seria cair no mesmo erro… nao tarda nada e estarias a escrever que nao valia a pena discutir, que eu era NR e que tal… labels sao tontos, porque dao a impressao que nao se pode aprender com gente de outro label, acerca de uma realidade tao complexa que nenhum label consegue perceber totalmente…

    O que nao lembra ao diabo ee olhar para o problema do desemprego com um modelo de equilibrio geral em full-employment. Assim, quase como um oximoro… enfim…

    Os problemas reais das pessoas podem beneficiar da visao analiitica dos economistas sobre a realidade e o resultado da interaccao dos agentes, nao fosse acreditar nisto e eu estaria noutra profissao… mas para evitar disparates, os economistas nao se podem empurrar uns aos outros para gavetas, porque nao haa pior forma de fomentar a preguica intelectual… e o medo de arriscar perceber que “blanket arguments” sao espuurios… a preguica e o medo dao em dogmatismo…

    Se um dia, distante, eu me tornar um economista razoaavel, eu terei ao meu dispor o conhecimento de como vaarios grupos de economistas inquiriram sobre a realidade, e um leque variado de visoes sobre diversos problemas… terei naturalmente uma inclinacao, “I’ll have a stance”… o que nao pode acontecer ee eu nao ter tentado descobrir do que falo quando digo que Keynesianos dizem isto, ou os RBCs dizem aquilo… isso nao pode ser… por vaarias vezes, nestas trocas, deixei dicas quando me dizias que nao conhecia o modelo neoclaassico, ou que os RBCs diziam aquilo (ou que eu tinha dito o profundo disparate que os neo-claassicos eram todos dogmaaticos), que devias ir dar uma vista de olhos aqueles livros laa em cima da estante… vejo que nao sentiste a necessidade de te certificares das frases que escreveste…

    Vai um exemplo? Recentemente fiz um post sobre a posicao de um tal de AAA em relacao ao estado, aas obras puublicas e ao crescimento da economia. A tua resposta imediata e telegraafica foi que o problema ee que eu sou um “indefectível das ideias keynesianas”… pumba, mais um label, que como resultado, fecha a porta aa discussao…

    Ora, isto deve ser um lapso na tua memooria, porque eu tenho a certeza que tu foste a estas aulas tambeem, mas haa coisas que se aprendem em microeconomia e economia puublica que veem directamente do pensamento dos marginalistas (e neoclaassicos), como Cournot, Pigou, Dupuit, e claro, Shraffa. Todos eles de uma forma ou outra ligados a tradicao de Marshall (e neoclaassica). Todos eles explicaram que sempre que nao se estaa numa situacao de P=Cmg, existe ineficiencia alocativa… do sec XIX atee agora, as sociedades teem vivido a aprender e aplicar este insight… da escola neoclaassica (ou marginalista)… entao, agora jaa te sentes mais inclinada para ir checar tambeem o que os RBCs dizem sobre os gastos puublicos?

    Os meus posts nao sao para ganhar o que quer que seja, sao a minha partilha das coisas que abundam nos meus pensamentos, relacionadas ou nao com o meu trabalho ou com as conversas que mantenho com outros aqui, longe dos meus amigos… sao observacoes, mas espero que sejam sobretudo interrogacoes… algumas teem que ver com esta frustracao de ler nos jornais sobre o “sick man of Europe” (alas Portugal), e perguntar-me o que pode ser feito… nao existe muita liberdade em estar desempregado, ou em ver o rendimento nao crescer… ora, se outros paiises crescem tao raapido, nao nos devemos perguntar se existe algo que possa ser feito para sair do marasmo em que estamos? ou terei que condicionar essa pergunta ao pressuposto que nao haa nada que o governo possa fazer sem ser, retirar-se da economia?

    Acho que deves tentar ler mais sobre a Irlanda, sobre a revolucao industrial, sobre a espancao do comeercio internacional, se estaas interessada nesta descoberta… eu tambeem devo… aquilo que leio nao ee “reassuring” das ideias que partilhas aqui ameuude… por isso leio mais…

    Olha, um livro que visito todos os saabados (porque ee um prazer de leitura) sobre a revolucao industrial as tantas diz algo assim: “laissez faire implies an absence of restraints; efficient markets imply well-specified and enforced property rights, which means the creation of a set of restraints encouraging productivity growth. The removal of restrictions widening the gap between private and social returns frequently required positive action by government – a government which we have seen was, as a result of the English revolution, oriented toward such developments…” Imagina laa quem escreve isto?

    Adiante. O meu post sobre os patetas fazia uma traducao interpretativa do termo cheerleaders naquele contexto do paper attachado… o objectivo principal era provocar a leitura do texto, que alerta para um problema muito real… e os perigos de deixar os patetas com argumentos “blanket” levarem a melhor… nao haa melhor que as oportunidades do comeercio internacional para fazer um pais crescer, mas a forma como se participa no comeercio internacional ee determinante tambeem… eu tenho que lidar todos os dias com colegas que ignoram a experiencia dos paiises que cresceram nesta regiao, mas entram no Vietnam e soo sabem dizer uma coisa: baixar tarifas…

    Beijos, tenho saudades tuas Carmex
    Panaxginseng

    PS1: Um aparte, Shraffa, mais tarde, tornou-se um fundador da escola post-keynesiana. Pode-se nao concordar com eles, mas nao ee nenhum palavrao chamar algueem post-keynesiano. Algueem que eu leio ameuude ee o Thomas Palley, que nos faz questionar uma data de coisas, sobre as quais tinha esquecido porque assumia, recomendo vivamente…

    PS2: Taxa de crescimento ooptima de um paiis? 50%, 100%, em resumo, a mais alta possiivel… porque ee isso que faz todos ter uma vida com mais oportunidades, mais escolha, mais conforto, mais liberdade… lembras-se do meu primeiro post citando Lucas – esse novo-claassico?

  3. panaxginseng diz:

    Correcao: Sraffa, Piero Sraffa

  4. panaxginseng diz:

    Correccao: correccao

  5. Carmex diz:

    Hummm, Panax, o tom e o conteúdo deste post é algo diferente do costume e que me agrada mais, reconheço, porque não é tão inflexível. E acho, apesar da minha simpatia pelas ideias neo-clássicas 8e porque ao contrário do que dizes, não sou dogmática) que certas políticas resultam em determinados contextos e falham noutros, e numa realidade dinâmica como a nossa a probabilidade de errar (ou de acertar na solução correcta para há 5 minutos atrás) é muito grande. É por isto que me arrepio com economistas e governantes que acham que o Estado tem que intervir em tudo – e tens que reconhecer que sofres desse mal, se até numa ninharia como a palavra promoção achas que o Estado deve intervir!

    Mas no geral concordo contigo: não há soluções providenciais e muito menos teorias perfeitas e que assentam que nem uma luva em qualquer caso prático.

    Sobre o “keynesiano”, tens que ver que foi um comentário jocoso – como é muito hábito em mim na blogosfera e fora dela. Além disso, eu sou uma menina democrática que discute com pessoas com qualquer etiqueta.

    Também estou com saudades tuas!
    Um beijo,
    MJ

  6. hirudoid diz:

    Agora que já andam se entenderam quanto à forma embora não, e bem, quanto ao conteúdo, gostava de lançar uma acha para a velhinha questão dos papéis a dizer Promoção e que a Carmex volta a referir aqui.
    Não sou especialista nestas coisas, mas parece-me um exemplo típico de “jurisprudência” (sim, eu sei que não é este o termo, mas penso que passa melhor a ideia. Podia também dizer “por uns pagam todos”) resultante de uma situação que tenha tido um resultado erróneo ou fradulento para o consumidor. Penso eu de que…

  7. panaxginseng diz:

    Sinceramente, nao encontro nem no tom nem no conteuudo algo de diferente… mas admito que essa pode nao ser a tua leitura, e como as palavras sao minhas, peco desculpa…

    Quais sao as ideias neoclaassicas? Fiquei perdido… continuamos aa procura duma descricao da realidade verdade? Diferentes modelos sao diferentes fotografias da realidade econoomica. Eu ensino o modelo de equilbrio geral (neoclaassico) todos os trimestres aos alunos da Enderun em Ortigas porque ee a melhor forma de explicar como os mercados numa economia de mercado se influenciam mutuamente, e os precos, definidos de forma atomista e descentralizada, coordenam a actividade econoomica e a utilizacao dos recursos. Para explicar os milhoes de desempregados involuntaaros neste paiis, usa-se outro modelo, mas nunca, nunca, o modelo neoclassico de pleno-emprego. Pelo mesmo diapasao, respostas a perguntas sobre o salaario miinimo, nao se respondem na aula do modelo neoclaassico. Se eu quero fazer um bacalhao com natas, nao uso ameijoas, coentros e pepitas de jamon serrano.

    Quem disse que o Estado tem que intervir em tudo??!?!? Tu ee que disseste que o Estado devia intervir o “miinimo”. A intervencao microeconoomica do Estado pode ou nao ser justificada se o incremento de bem-estar puder ser demonstrado analiticamente, fazer sentido em termos praacticos (com validacao empiirica), e ser cost-effective. Estes insights teem mais de um seeculo e sao filhos da escola neoclaassica. O crescimento institucional dos uultimos dois seeculos de todos os paiises que sao hoje da OCDE nao foi mais que a criacao de solucoes para lidar com problemas visiiveis, que os economistas soo mais tarde analisavam, e racionalizavam. Como referi em cima, existe um criteerio para definir se existe alguma coisa que o Estado possa fazer ou nao para melhorar a situacao. Esse criteerio ee teecnico, nao ee porque se ee burocrata, ou se tem inclinacao para o Sporting, ou para o Benfica… o criteerio reflecte uma interrogacao…

    Os estados, no mundo real, fazem muita intervencao microeconoomica disparatada, tonta, que tem custos, e que tem que ser abolida. Em suma, intervencao que nao passa o criteerio definido.

    Se em vez de se manter o espiirito aberto a todas as possibilidades, se diz pura e simplesmente que uma determinada regra nao faz sentido nenhum, ou que o Estado nao deve intervir, essa ee uma posicao dogmaatica. Se nunca disseste isto Carmex, entao peco desculpa, fui eu que percebi mal.

    A intervencao macroeconoomica ee filha das ideias de Keynes, Hicks, etc… em determinadas circunstancias, todas aquelas intervencoes beneeficas microeconoomicas tambeem podem ter efeitos positivos ou negativos em termos macroeconoomicos. E isso tem que ser analisado tambeem.

    Perceber isto ee perceber Economia, e histooria, e como os governos ao longo dos anos foram obrigados pelos cidadaos a fazer alguma coisa para resolver problemas, mas tambeem a sujeitarem o processo a abusos, a erros, etc. Os economistas estiveram quase sempre behind the curve, mas sobretudo na busca duma compreensao mais completa do que uma economia ee, do que os mercados sao, e dos diferentes outcomes que podem ser produzidos.

    O progresso econoomico, aquele que daa muita liberdade, ee feito de uma partilha de responsabilidades entre mercados e o puublico. Sao as empresas que criam empregos e valor. Mas isso nao acontece num vaacuo, acontece num contexto institucional em que o Estado faz muitas coisas para ajudar, para reduzir custos de transaccao, resolver problemas de coordenacao, abordar falhas de mercado, internalizar externalidades, etc., mas infelizmente, muita patetice tambeem.

    Quero laa saber da palavra ‘promocao’, ou ‘desconto’. Em nem compro muitas coisas. Para aleem de livros que nunca estao em desconto, ou musica, soo roupa, mas que ee um indiano que me vem ao escritoorio medir e entregar. Dai a fechar a porta aa possibilidade que poderaa haver uma forma analiitica de perceber um problema de externalidade negativa no abuso de palavras bandeira como “promocao” ou “desconto” que exploram problemas de informacao assimeetrica, e que pode ser resolvido por regulacao, facilitando a vida a muitos lojistas (os que se portam bem), e a meter um travao a outros (os lojistas que se portam mal), e com isso ajudar todos aqueles que ao contraario de mim compram muitas coisas, vai uma grande distancia. O que nao pode passar em branco ee dizer-se que nao tem loogica nenhuma.

    Na verdade, ligo muito pouco a questoes de eficiencia alocativa estaatica, a menos que estejamos a falar dos mercados dos factores (trabalho e capital). Sao ninharias em comparacao com as questoes dinamicas, e as possibilidades que backwardness oferece a Portugal, mas que por culpa desta onda (pequena, assim como uma seita, mas que se pode tornar moda) libertaaria, o Estado se poderaa muito facilmente desresponsabilizar de procurar…

    Dai a ler posts como aquele do AAA no Atlantico (o Pacheco) vai um passo, muito pequeno.

    Beijos
    Joao

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