Eu não queria…

Já tinha lido mas abstive-me de comentar, mas agora que a Carmex puxou o caldeirão aqui para dentro, tenho que dizer isto: aceito o benefício da dúvida em relacção a Bush e respeito a distância crítica que a história requere, mas considero estes argumentos um verdadeiro atestado de estupidez passado a quem os lê:

“Pouca gente admitiu que os espiões se podem ter enganado, como se enganaram quando George Tenet, o director da CIA em 2003, garantiu a Bush que o Iraque era um supermercado de armas de destruição maciça.”

Sinceramente custa-me, nos dias de hoje, estar a ler um artigo de opinião sustentado e tropeçar em coisas destas. Parece que têm medo de que tudo o resto perca a validade ao admitirmos a manipulação a que fomos sujeitos. Não vejo porque não admiti-lo. Esconder a verdade nunca foi nem há-de ser uma saída airosa e muito menos séria.

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11 respostas a Eu não queria…

  1. Carmex diz:

    Rui, estás a tirar esta frase do contexto, que é: em 2003 as agências de informação consideravam que o Iraque produzia e vendia MDW; em 2007 consideram que o Irão parou o seu programa nuclear. Não se pode aceitar acriticamente a segunda conclusão (como faz a gente bem-pensante) sabendo agora que a primeira estava errada. E se aceitam a segunda, porque criticam Bush por ter aceitado a primeira?

    E já agora, uma declaração de interesses: apesar de ter acreditado na história das MDW, eu continuo a pensar que a ditadura de Saddam era desestabilizadora de mais para poder continuar.

  2. panaxginseng diz:

    Eu devo ter estado a imaginar os uultimos 8 anos… deve ter sido tudo fruto da minha creatividade…

    Atee perco as forcas quando me pergunto sobre o porque destes posts… qual a necessidade que os justifica, qual ee o medo aqui… qual ee a fonte de inseguranca que leva a esta negacao da realidade tao presente ainda na nossa memooria?

    O tempo daa perspectiva de facto, e ajuda sobretudo a comparar circunstancias e, a comparar meeritos… mas quando temos todos tao presentes as mentiras, o desrespeito ineedito por instituicoes internacionais, a manipulacao, o prejuiizo futuro para o conceito de “intelligence”, a trageedia presente no Iraque, como ee que se pode tentar convencer algueem que a perspectiva pode absolver esta administracao??!?!?

  3. hirudoid diz:

    Carmex, não me parece que esteja a manipular o contexto. Aquilo que quis dizer está tudo contido nessa frase (“como se enganaram”) e escandaliza-me profundamente. Quanto ao resto, posso deixar passar, dar o benefício da dúvida e, eventualmente, até concordar.
    Não consigo é acreditar que aguém ache verdadeiramente que a CIA se enganou e que enganou Bush. Nem vejo necessidade de repeti-lo para não assumir aquilo em que todos fomos enganados. É apenas teimosia!

    No resto, até partilho de algumas das ideias e “esperanças”.

  4. panaxginseng diz:

    Serei eu o uunico a lembrar-me da triste (e consciente) figura do Colin Powell no Conselho de Seguranca a apresentar a “evidencia” que o Iraque tinha WMD?

  5. hirudoid diz:

    Não, não és. Porque haverias de ser? É também disso que eu estou a falar! E de tudo o mais que foi utilizado para convencer ingénuos como eu de que o Iraque constituia uma forte ameaça pelas WMD.

    Outra coisa diferente é achar que o médio oriente e o Iraque não estão melhores depois da intervenção, porque estão. Infimamente talvez, mas estão. Mas esse argumento, apesar de ser o verdadeiro (não sendo o único) não legitimava a intervenção…

  6. Mário diz:

    Realmente a coragem intelectual é coisa muito rara. Qualquer um sai do carro para ir à pancada por causa de uma questão de nada, mas fazer um racocínio que esteja conforme a realidade parece coisa de iluminado.

    Bush não foi para o Iraque por causa das das ADM, isso foi uma exigência de Blair, que precisava de algum drama para a sua opinião pública. Mas isso não quer dizer que a conversa das ADM tenha sido toda inventada, foi dramatizada sim, mas baseada em informações dos serviços secretos, que constumam falhar. E que serviços secretos? Na verdade, todos os que andaram por lá, incluindo franceses e russos. E todos achavam que Sadham era um perigo real. Se França e Rússia disseram aos jornalistas que não havia perigo algum, parece-me igualmente uma dramatização, no sentido de fingimento, curiosamente dos países que mais tinham e tiveram a ganhar com o petróleo iraquiano.

    O relatório com mil páginas, que agora não consigo situar, que foi elaborado depois sobre a situação acabou por dar uma terceira imagem. Nenhum dos lados, pró e contra invasão tinha realmente razão, apesar de ambos os lados terem ido buscar ali justificações triunfais. O Iraque tinha ADM mas não em nível realmente preocupante, apesar de Sadham esforçar-se para isso, mas não era evidente quando nem se chegaria a ser uma verdadeira ameaça em comparação com outras.

    Mas, a meu ver, nada disto é sequer relevante para aprovar ou rejeitar a invasão. Fica para o próximo comentário.

  7. Mário diz:

    A meu ver, a verdadeira razão da invasão foi fazer combate do terrorismo bem longe das fronteiras americanas. Esqueçam as ADM, a promoção da democracia, o petróleo. Nem era relevante se o Iraque apoiava ou não o terrorismo, bastava que os americanos fossem para o médio oriente para serem um chamariz irresistível. Claro que é impossível qualquer democracia assumir que vai fazer uma coisa dessas, porque é fazer tanto dos iraquianos como dos soldados americanos um alvo permanente. E desse ponto de vista a intervenção foi um grande sucesso, no curto prazo. Mas não é possível ficar no Iraque para sempre e quando de lá sairem o alvo do terrorismo pode voltar a ser o território americano e com força redobrada.

    A justificação da invasão também não pode passar por aqui, portanto. Muito menos por aquela imbecilidade da legitimidade internacional, que não passa de um jogo de interesses, incluindo os mais abjectos. A única justificação estaria dentro do âmbito da “guerra justa” de S. Tomás de Aquino, ou seja, livrar os iraquianos do ditador que os oprimia. Mas como o fazer na prática?, porque não é apenas eliminar uma pessoa e sim criar uma melhoria efectiva e estável, não sei. A comunidade internacional não resolve nada, intervenções exteriores avulsas causam grande alarido mas são mais um “baralhar e voltar a dar”, a solução interna acaba quase sempre em guerra civil. Toda a intelectualidade e candidatos a líderes de opinião não se preocupam em pensar isto. Na verdade interessa-lhes a desgraça para terem matéria para brilhar.

  8. hirudoid diz:

    Mário,
    Muito obrigado pelos seus comentários com os quais concordo na generalidade. Penso que nada retiram à minha indignação e até a sublinham porque voltou a caír no mesmo erro: “baseada em informações dos serviços secretos, que constumam falhar”.

    O que houve, sabemos e percebemos hoje com muita clareza, foi uma MENTIRA e é uma hipocrisia tentarmos desculpar isso até porque não vejo onde é que isso desvaloriza todas as outras razões que existiram. Eu recuso-me a justificar a minha ingenuidade com o “falhanço” dos serviços secretos que “enganaram o pobre” bush enquanto uma parte significativa do mundo (inclusivé a Igreja Católica) alertava para essa possibilidade…

    Eu acreditei e sinto-me enganado, mas não me custa reconhecê-lo.

    Tudo aquilo que escrevi tem apenas a ver com isto. Não com tudo o resto!

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  10. Mário diz:

    hirudoid,

    Se tivesse tempo tinha feito uma história do mundo recente vista pela blogoesfera. Uma das coisas que ficaria clara é que a questão das ADM nunca ficou esclarecida. Após a invasão havia em alguns a esperança de encontrar ADM ao virar de cada esquina. Não tendo sido descobertos arsenais colossais foi então lançada talvez a maior campanha de propaganda da história da humanidade: Bush mentiu, não foram descobertas ADM, na verdade nunca existiram. Isto foi repetido tantas vezes e de forma tão violenta que criou um constrangimento quase impossível de resistir. De nada valeu a pena aqueles que notaram que não se terem encontrado ADM não prova a sua inexistência. De nada serviu a chamada de atenção para as toneladas de antrax que comprovadamente existiam e de que agora ninguém sabia o rasto. Nem sequer as descobertas de várias armas que não era permitido ao Iraque ter em inúmeros pontos, que chegaram para publicar um livro, serviam para levantar dúvidas. Quem quer que mencionasse uma destas coisas era logo classificado como estando a soldo do imperialismo bushista, de ser burro, estúpid, no mínimo. De uma penada, o regime ditatorial iraquiano transformou-se no mais inofensivo do mundo. Já estava tudo previsto. Se por acaso fossem encontradas ADM em larga escala teriam sido os americanos a colocá-las lá para se justificarem. Mesmo aqueles que acreditavam na tese das ADM aos poucos foram desmobilizando, como se a coisa só se mantivesse de pé se fosse feita uma descoberta colossal. O próprio Bush fez a sua retratação.

    Para mim isto não é nada relevante para saber da legitimidade da invasão, que não apoiei nem fui contra, precisamente por não ter elementos suficientes. Mas como “case study” é formidável: Como se forma uma verdade oficial apenas por pressão mediática e que quase ninguém consegue resistir a isso. Mesmo que se Bush e Blair tenham mentido descaradamente, e até acho que não porque apostaram numa tese tão ingénua que seria praticamente impossível de provar, é realmente insignificante perante isto. A campanha anti-bushista, mesmo dando de barato que o homem é uma besta (e as suas concessões ao CFR parecem confirmar isso), coloca a propaganda nazi em comparação a um nível rudimentar.

    Não são os Bush deste mundo os realmente perigosos. Podem fazer muita merda, e realmente fazem, mas têm um escrutínio permanente dos media, de jornalistas que querem ganhar um pulitzer, chegam mesmo a ter que dar o dito pelo não dito. O poder do século XXI está mesmo para além do controlo dos media. Agora é o controlo dos valores a abater, das novas causas. Como é possível que o ambientalismo tenha se tornado numa religião que, no fundo, prega o suicídio civilizacional e nós ainda continuemos a avaliar as questões do poder como se as coisas ainda funcionassem como no século XIX?

  11. hirudoid diz:

    Caro Mário,
    Não é demais lembrar-lhe que a facção contra a intervenção no Iraque foi muito mais do que sectorial. Penso que a opinião moderada generalizada era de que a fronteira entre intervir ou não era muito ténue e a não intervenção tinha mais peso, evidente, por se evitar uma guerra(com tudo de mau que isso, evidentemente tem, e que não vou explicar) e pelas organizações internacionais não reconhecerem a validade da documentação sobre a qual os serviço secretos se “enganarma” (estranho não?).
    No meu caso, fui sempre a favor da intervenção porque independentemente da existência ou não de WMD considerei que Saddam estava sentado em cima do veradeiro barril de pólvora do médio-oriente. Mas, também no meu caso, justificava a minha opinião com uma ingénua confiança quer na democracia, quer e administração dos países aliados. E muito me custou não dar ouvidos às recomendações de moderação da Igreja embopra achasse que só fazia porque, obviamente, assim tinha que ser (não fazia sentido outra postura).
    Posto isto e consumados os factos, que outra saída senão reconhecer o meu erro (sem qualquer vergonha ou embaraço, faço-o com enorme facilidade até – velhos hábitos de pecador…)?
    Se alguns lideres mundiais avançam sobre uma esmagadora maioria de pessoas, instituições, organizações e autoridades mundiais baseados numa confiança cega nas provas que apresentaram ao mundo e depois vêm a reconhecê-las como falsas, como me pode pedir para continuar a acreditar que a opção tomada foi a melhor? Não entendo!

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