A globalização e a necessidade de fugir de economistas “esclarecidos”, parte 2

Não tenho réstea de dúvida sobre isto: a defesa da globalização é um imperativo moral no século XXI. Neste caso é tudo muito simples: os países mais pobres precisam de produzir e ter clientes para os seus produtos e serviços, de forma a enriquecerem e proporcionarem à generalidade da população um melhoria na sua vida – e em alguns países a melhoria de vida não é a compra do último ipod, mas sim fazer o intakerecomendado de calorias diárias, ter cuidados de saúde mínimos,  ver diminuir a probabilidade de os filhos morrerem antes dos cinco anos e outras fantasias capitalistas similares.

Qualquer pessoa de bem e informada sabe que medidas proteccionistas nos países ricos têm uma consequência: os países pobres vão continuar pobres.

Não há que ter second thoughts: a busca da paz e da justiça obrigam a que não haja barreiras ao comércio entre países.

Há mais. Nos países ricos e que compram massivamente aos países mais pobres que produzem mais barato, também há pobres. Esses pobres têm a possibilidade de comprar mais coisas e mais barato devido à baixa dos preços no seu país provocada pela globalização. Veja-se, por exemplo, um computador: seria um bem de luxo apenas para alguns se fosse produzido na Europa ou EUA, é um bem cada vez mais barato e acessível a quem tem baixos rendimentos devido à produção de componentes nos países mais pobres. O mesmo se passa com a roupa; os preços da Zara não são simpatia ou génio comercial; os preços da roupa da Zara são resultado da globalização.

Claro que os radicais anti-globalização (e alguns pensadores mais soft)  e o Mário Soares consideram que pagar 100 euros a um trabalhador no sul da China é uma horrível forma de exploração, que apenas ganham com isto as multinacionais que produzem a baixos preços e vendem aos consumidores dos países ricos a preços “normais”. O resultado – caso alguma malfadada alminha resolvesse dar seguimento às propostas dos tontinhos anti-globalização – seria que o trabalhador chinês que ganha 100 euros (o que em paridades do poder de compra dá um ordenado simpático em Portugal) ficaria sem emprego e sem ganhar os 100 euros com que ajuda a sustentar a família e os consumidores dos países ricos não poderiam comprar tantos bens, uma vez que estes seriam mais caros. Mas – e por isto os radicais anti-globalização ficariam felizes, independentemente do resto, até porque geralmente são meninos burgueses sem problemas financeiros – as multinacionais ganhariam menos dinheiro.

Também não suporto os argumentos anti-globalização encapotados como a exigência de os trabalhadores chineses ou vietnamitas ou indianos ou filipinos terem as mesmas regalias laborais do que os europeus ou americanos (das quais esses chineses, vietnamitas,… prescindem quando emigram para um país mais rico) – ou seja, cujo trabalho encareça – ou do respeito por normas ambientais (que os países ricos não respeitaram enquanto se desenvolviam; não esqueçamos os smogs londrinos do sec. XIX) pelas empresas dos países que vendem aos países ricos e que são aplicadas nas empresas desses mesmos países ricos. O objectivo é criar entraves aos países mais pobres, como se o excesso de regalias laborais em grande parte da Europa não se tivesse transformado um entrave ao crescimneto da própria Europa e como se um país já rico não tivesse uma responsabilidade pela preservação do ambiente muito superior à de um país em desenvolvimento.

A globalização tem provocado uma contínua melhoria das condições de vida nos países mais pobres e que dela fazem parte. Os países cujas populações nos últimos anos continuam a empobrecer são aqueles que têm défice de globalização – por exemplo os que produzem bens alimentares que não conseguem vender no mercado internacional devido ao proteccionismo americano ou europeu.

O problema da globalização é a reorganização que implica nas economias dos países mais ricos, com a deslocalização de empresas para países com mão-de-obra mais barata ou com a concorrência do que é produzido muito mais barato nas economias emergentes. A solução está em apostar na produção de bens tecnologicamente avançados e que as multinacionais ainda não querem produzir por exemplo numa China (até pela protecção da propriedade desses conhecimentos tecnológicos mais avançados; uma Volkswagen não produz na China os modelos de tecnologia mais avançada), em produtos que se consigam diferenciar no mercado (entre outras: pelo design, pela origem da produção – por exemplo o vinho -, pelo reconhecimento de uma tradição de bem-fazer – por exemplo os sapatos em Itália -, pela marca) ou no turismo (os chineses vão começar a viajar massivamente). Em resumo, em produtos que os novos mercados em crescimento queiram adquirir.

Não estou muito preocupada com os States, que têm imensa coisa que os chineses e indianos querem comprar. Em Portugal já a imagem se turva, e em grande parte devido às rigidezes introduzidas no mercado de trabalho que os pensadores “esclarecidos” europeus gostavam de ver aplicadas nos mercados dos países mais pobres.

Há outro problema com a globalização, mas esse não me incomoda nada: é o desconforto que os economistas e burocratas que tanto gostam de controlar e regular a vida alheia sentem face a uma realidade demasiado grande e demasiado complexa para ser controlada. Que curtam a sensação de irrelevância, desejo eu.

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5 respostas a A globalização e a necessidade de fugir de economistas “esclarecidos”, parte 2

  1. panaxginseng diz:

    Tantas certezas…

  2. panaxginseng diz:

    Quase como uma profissao de fee…

    Atee amanha…

  3. panaxginseng diz:

    “Não estou muito preocupada com os States, que têm imensa coisa que os chineses e indianos querem comprar. Em Portugal já a imagem se turva, e em grande parte devido às rigidezes introduzidas no mercado de trabalho que os pensadores “esclarecidos” europeus gostavam de ver aplicadas nos mercados dos países mais pobres.”

    Sacanas da rigidez… que ee a fonte de todos os problemas…

  4. Pingback: uma voz… « Farmácia Central

  5. leila margarete diz:

    tenho um trabalho de pesquisa sobre Países ricos e Países pobre e globalização

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