Neste post é necessário um preâmbulo.
Muitos issues, acontecimentos ou países entraram na minha vida através da literatura (bom, por literatura entendam livros de vários géneros literários, não aquelas coisas soporíferas que escrevem os actuais vencedores do Nobel da literatura, com a notável excepção da laureada de 2007). A minha vontade de conhecer o México ganhou vida quando li o México de James A. Michener e não conseguia conter a vontade de visitar a Índia depois de ter lido Por Amor da Índia de Catherine Clément (neste caso a realidade não correspondeu à expectativa alimentada durante tantos anos…). O conflito israelo-palestiniano foi-me apresentado pelo Oh Jerusalem de Larry Collins e Dominique Lapierre e o Afeganistão e a sua situação armadilhada entre a União Soviética, o “Ocidente” que o pressionava e a sua própria tradição tribal foi-me dada a conhecer com o Lie Down with Lions de Ken Follet. Erich Maria Remarque mostrou-me pela primeira vez o horror da “solução final” nazi com Centelha de Vida, bem como o desespero de todo o refugiado em Uma Noite em Lisboa. A Londres de entre as guerras é-me familiar devido a Somerset Maugham, Evelyn Waugh, Nancy Mitford, Agatha Christie e muitos contemporâneos vários. E por aí adiante.
O terrorismo também foi introduzido na minha vida pelos livros, em concreto por dois: The Fifth Horseman (lido há mais de quinze anos) de Dominique Lapierre e Larry Collins (a plot desenvolve-se à volta de uma bomba nuclear escondida em NY a mando de Kadhafi e que explodirá se os personagens principais falharem a sua tentativa de descobrir a localização da bomba e a neutralizar; sem surpresa, toda a gente se recordou deste livro aquando do 11 de Setembro) e As Areias do Tempo de Sidney Sheldon. Este último livro leva-nos até à ETA e à violência a que recorrem contra os (outros) espanhois. No fim do livro há uma nota do autor (ou um posfácio, já não me recordo) significativa: informava que as reivindicações inciais da ETA – ensino de basco nas escolas, autonomia,… – já haviam sido aceites pelo governo central espanhol. Contudo, à medida que se implementavam políticas que eram também reivindicações da ETA, os terroristas encontravam novas e mais exigentes reivindicações para justificar a continuação da sua acção terrorista.
Esta foi uma lição importante que aprendi (e estou já a fazer a transição para o assunto do post presente) quando a minha vida – até aí só contactando com ameaças terroristas à minha querida pessoa em eventuais viagens a Inglaterra ou Espanha, pouco sentidas (a ETA já tendo rebentado uma bomba mesmo em frente a uma casa que os meus pais tiveram em Espanha, mas eu nunca fui visada) – finalmente se confrontou com a ameaça terrorista em qualquer lugar do planeta e a qualquer pessoa; para os distraídos, depois do 9/11.
O terrorismo é um fim em si próprio, alimenta-se da sua própria acção. Não tem causas racionais ou sociais ou económicas. É uma questão de fanatismo a ser tratada por psicólogos – o meu cunhado está a fazer o doutoramento em personalidades violentas, talvez possa ajudar – não por economistas ou sociólogos. Não sei, que felizmente estou longe destes ímpetos, mas deve partir de um desejo de domínio sobre o outro, de um atroz desrespeito pelos que são diferentes (em política, religião, nacionalidade, etnia, raça,…), de um desequilíbrio dos níveis de dopamina no cérebro, de problemas emocionais, psicológicos ou de afirmação pessoal (que levem indivíduos vulneráveis a transformarem-se em candidatos a terroristas suicídas), da loucura tradicional, de personalidades psicopatas que não consigam ter empatia com o sofrimento alheio, da necessidade de projectar noutros (Israel e EUA) a culpa dos próprios insucessos políticos e governativos, da vontade de ter poder sobre os seus seguidores, da necessidade de revestir de objectivos nobres o enriquecimento por meios sujos e causas semelhantes.
De facto, terrorismo não se explica, não se justifica, não se desculpa.
Há alguns factores que NÃO são causas de terrorismo islâmico ligado à Al-Qaeda, por muito que sejam usadas como bandeiras pelos próprios ou como justificações pelas boas almas ocidentais:
1. O conflito israelo-palestiniano. Os palestinianos foram desprezados por todos os países do Médio Oriente, com maus-tratos e algumas purgas aos refugiados à mistura, até que se criou o mito que os muçulmanos do Médio Oriente se preocupam muito com os pobres dos palestinianos por questões propagandísticas e de ataque a Israel. A existência de Israel também não pode ser utilizada como causa de terrorismo, uma vez que historicamente a Palestina não foi um país independente para aí desde os tempos dos Macabeus, com umas tentativas pela Idade Média sem grandes consequências; além disto, e para voltar aos livros, leia-se o Origens de Amin Maalouf para se perceber o conceito difuso de nacionalidade que (não) existia dentro do império otomano.
2. A guerra do Iraque ou do Afeganistão, uma vez que foram precedidas (e consequência) do ataque às Twin Towers, num quadro temporal em que os americanos se preparavam para não se incomodarem com intervenções militares para solucionar problemas overseas.
3. A pobreza dos países islâmicos do Médio Oriente. Ora muitos mujahidin provêm das classe altas dos seus países e são suficientemente cosmopolitas para se moverem com facilidade pelos vários países islâmicos (e Europa e EUA); na Europa, verificou-se com os atentados em Londres que os terroristas eram cidadãos aparentemente integrados nas suas comunidades, sem problemas financeiros. Por outro lado, a pobreza da comunidade hindu, na Índia (só um exemplo), não parece querer dedicar-se a este negócio do terrorismo.
4. As maroscas das negociatas do petróleo dos EUA. Quem mais ganha com elas são os produtores e exportadores de petróleo.
5. Caricaturas de Maomé ou teddy bears nomeados de Maomé ou denúncias de maus tratos às mulheres nas sociedades islâmicas. Se os muçulmanos não conseguem não responder com violência a contestações pacíficas, os problema não é certamente dos contestatários pacíficos.
6. A existência de infíeis e a repulsa pelos vícios “ocidentais”. Esta esbarra na evidência das mortes de muçulmanos que se agradecem aos atentados terroristas no Iraque, Bali, Norte de África, Jordânia.
7. Regimes ditatoriais. As experiências de democracia, ou de um sucedâneo semelhante, nos países islâmicos não se têm revelado travão ao terrorismo.
8. Ignorância e falta de qualificações académicas. Mais uma vez este panorama é desmentido pelos casos mais emblemáticos e conhecidos de terroristas islâmicos. De facto, além de muitas das vezes terem qualificações superiores à média dos seus pares, são exímios no diagnóstico das liberdades europeias e americanas que lhes permitem prosseguir as sua intenções criminosas sem obstáculos, e no conhecimento das brechas de segurança (desde o Iraque a Lisboa) de que se podem aproveitar para um atentado. Além disto, qualquer terrorista que se preze tem um extenso conhecimento dos textos sagrados; a iliteracia não é apreciada.