Oh meu Deus…

Caro Panax, não vejo onde estão as manifestações de fé. Apenas constatei evidências: os países “globalizados” que têm conseguido vender os seus produtos aos países mais ricos têm tido melhorias nos índices económicos e de qualidade de vida; é necessário, para um país pobre se desenvolver, produzir e vender os seus produtos no mercado externo – ou será que tens andado no Cambodja a vender a ideia que vão conseguir um nível de desenvolvimento igual ao do Japão (para ficarmos na mesma zona do globo) apenas graças à sua fulgurante procura interna? Sinceramente, Panax, andas a discordar de mim porque estás com pouco trabalho? É que vejo-te a contrariar-me muito, mas continuas sem apresentar alternativas; neste caso, um caminho de desenvolvimento que não passe pela globalização.

Este powerpoint não contraria em nada o que eu escrevi; de facto reafirma-o, até porque, na sua simplicidade, as conclusões de que a globalização não é a cura para a pobreza (apenas uma ajuda, e não sempre) não são sustentadas pelo que foi apresentado anteriormente, que vai no sentido oposto. (E a afirmação dos consumidores pagarem mais pelos produtos com a globalização beats me; os senhores não têm absolutamente nenhuma noção do que dizem.)

Quanto ao resto, é demasiado tonto para comentar. Digo apenas – e para defender a minha reputação perante quem não me conhece – que não só não sou um homem como sou uma menina bem feminina e vaidosa. E tendo mais para o romântica do que para o prática.

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7 respostas a Oh meu Deus…

  1. panaxginseng diz:

    1a Constatacao histoorica: nenhum pais prosperou na histooria atravees de uma estrateegia de fechar as suas fronteiras ao mundo. Globalizacao ee o caminho a seguir. Qualificar o que isto significa ee que ee mais complicado. O que sabemos de certeza agora ee que nao significa simplesmente eliminar tarifas ou subsiidios e abrir portas. De facto os paiises que conseguiram integrar as suas estruturas produtivas no sistema internacional de trocas beneficiaram de um mudanca estrutural da economia tal que levantou as suas populacoes da pobreza, e isto foi fruto, acima de tudo, da sua capacidade de aprender a fazer coisas novas. Mas… vamos aa 2a constatacao histoorica.

    2a Constatacao histoorica: nenhum dos paiises mais bem sucedidos nos uultimos 40 anos no catching-up para niiveis da OCDE se absteve de usar proteccoes tarifaarias, subsiidios, acordos laborais geridos pelo estado, parcerias directas do estado na producao de certos novos produtos, enfim, tudo o que pudesse ajudar as suas economias a evoluir no product space e a descobrir novas aareas de vantagem comparativa. Sem escruupulos, e em total ignorancia do conceito de eficiencia alocativa estaatica. Perceber exactamente o que ocorreu ee o esforco actual de muitos economistas, mais interessados em aprenderem o que se passou nos paiises bem sucedidos do que em anticipar conclusoes. Tudo isto gerou a chamada New Trade Theory (uultimos 30 anos), que afinal nao ee nada nova, e consegue-se mesmo encontrar em… Adam Smith e Ricardo. Extraordinaario.

    3a Constatacao histoorica: outra regiao do mundo (Ameerica Latina) que em contraste se absteve, por imposicoes externas, de usar instrumentos puublicos na economia, estagnou como um todo, apesar de arrancar em melhores circunstancias que o Este Asiaatico. Mais, no Este Asiaatico, o uunico paiis, que por influencia externa, se absteve de imitar o que toda a gente fazia aqui, ee um case-study de falhanco econoomico (i.e. falta de integracao internacional): Filipinas.

    4a Constatacao histoorica: como documentado em trabalhos que referenciei aqui haa alguns dias (posts da semana passada), os paiises que estao agora na fronteira tecnoloogica fizeram tudo menos laissez-faire quando estavam a criar os upgrades tecnoloogicos da revolucao industrial. EE por esta razao que Chang de Cambridge usa a analogia do “throwing away the ladder”…

    5a Constatacao histoorica: a globalizacao ee uma histooria humana, que nao tem nada de inevitaavel, como a histooria do seeculo XX bem demonstrou. A globalizacao impoe custos reais que sao sentidos desproporcionadamente por alguns, em paiises de vaarios niiveis de desenvolvimento. Nos anos 50 e 60, o mundo tinha “buffers” como um sistema monetaario internacional que criava policy space aos governos para abordarem estes problemas com intervencoes fiscais. Hoje em dia nao existe esse policy-space nas negociacoes da WTO. Negoceia-se acesso de mercado em vez de policy space para lidar com problemas internos. Era este o contexto no iniicio do seeculo XX quando o mundo se fechou outra vez. EE este o contexto que se estaa a criar outra vez. Ignorar este perigo de political economy ee o harakiri. EE por isto que se tenta salvar a “globalization from the cheerleaders”.

    Nada disto significa que uma pessoa se torne proteccionista, apenas que nao se tente empurrar pela garganta abaixo de paiises pobres a reducao de tarifas com promessas de ajustamento interno automaatico. Se eles querem baixar tarifas, muito bem. Nos uultimos tempos tenho feito aqui posts que explicam tudo isto mesmo, com evidencia empiirica e tentativas de interpretacao. Nao sei se tive algum sucesso a promover a leitura desses trabalhos.

    Ao contraario do que escreves, nao haa assim tantas certezas aqui, nao haa nada de cristalino. Haa muitas duuvidas em relacao aa melhor forma de cada paiis se conseguir integrar rapidamente com o resto do mundo, e ter a performance da China ou do Viet Nam, tal como Coreia, Taiwan, Malaasia etc tiveram antes. O que se torna cada vez mais evidente, e no contexto actual de acordos bilaterais, ee que a capacidade de um paiis pobre ganhar mercados nos EU e na UE depende muito mais dele, do que das concessoes aduaneiras multilaterais que os paises ricos se lembrarem de fazer.

    No teu post vejo muitas certezas:

    “Não tenho réstea de dúvida sobre isto: a defesa da globalização é um imperativo moral no século XXI. Neste caso é tudo muito simples…”

    “Não há que ter second thoughts: a busca da paz e da justiça obrigam a que não haja barreiras ao comércio entre países…”

    O que ee estranho ee que muitos paiises criaram a capacidade de competir nos mercados externos com a imposicao de barreiras (tarifas, subsiidios, etc). Isto, de oobvio, nao tem nada. Apesar de muitos outros paiises falharem miseravelmente o upgrade tecnoloogico, nenhum evoluiu rapidamente no product-space sem usar o seu policy-space (isto, sem economistas a explicarem).

    O uultimo paraagrafo do outro post teu faz, na minha opiniao, muito pouco por esta discussao.

  2. panaxginseng diz:

    “(E a afirmação dos consumidores pagarem mais pelos produtos com a globalização beats me; os senhores não têm absolutamente nenhuma noção do que dizem.)”

    Eu explico… mas espera ai, essa explicacao estava dada pelo Samuel Brittan a propoosito do trabalho de Amartya Sen, no seu uultimo livro, e que eu postei aqui…

  3. Carmex diz:

    Panax, Como dizes – e é inevitável dizeres – não houve nehum país que se desenvolvesse sem que tenha tido um crescimento muito significativo das suas exportações. Não dizes, mas de certeza concordas, é necessário desenvolvimento económico para a melhoria das condições de vida das polpulações.

    Estas foram as únicas certezas que evidenciei e são mesmo certeza.

    Donde, considero que é um emperativo moral a globalização, porque só assim os países mais pobres se podem desenvolver.

    Não vejo onde está a obtusidade do argumento.

    Que tu tenha visto este post com um ingrediente em que em nem toquei – a necessidade da não-intervenção do Estado – é um problema que vais ter que resolver sozinho, porque eu não acrescentei à necessidade da globalização a necessidade de o estado de um país pobre ficar quietinho e ir de férias.

    Depois disto, claro que a globalização tem custos para alguns trabalhadores dos países mais ricos, uma vez que o que produziam vai passar a ser produzido em países mais pobres com mão-de-obra mais barata. Mas para outros trabalhadores dos países ricos vai ser melhor, e para os consumidores dos paíes ricos (incluindo os que ficam sem emprego) vai ser melhor.

    A isto junta-se o facto de, por exemplo, os EUA terem uma economia flexível onde é fácil a mobilidade geográfica e laboral. Quem perde o emprego pode encontrar outro com facilidade, porque há sempre novas empresas e indústrias (não no sentido de fábricas, please) a aparecer. Além disso têm indústria cinematográfica e musical, aeronáutica, de armamento, ……. até às marcas de designers americanos (todos têm apostado fortemente no sudeste asiático, muito mais do que na Europa, tal é a propensão dos orientais para as consumirem).

    O problema real passa-se em Portugal, onde graças à rigidez da regulação e legislação económica não temos esta facilidade de reconverter trabalhadores e abrir muitas novas empresas e negócios. Para piorar também não temos muitos produtos que encham o olho aos asiáticos. Estou-me a lembrar da cortiça e pouco mais.

  4. Carmex diz:

    Panax, tenho que te dizer isto. Estás demasiado embrulhado na visão da teoria económica e das instituições governamentais ou semelhantes dos problemas mundiais. É que nem tudo se resolve com sistemas de equações ou com políticas económicas. Talvez te faça falta ires trabalhar para uma empresa, que de facto “faz economia” para verificares que as modelagens são muito bonitas e interessantes (eu, por mim, é a parte que mais gosto) mas só de longe existem no universo de decisão de uma empresa (pelo menos revestidas de outras roupas diferentes). E para perceberes que realidades que são sentidas pelas empresas e individuais não começam a existir apenas quando se verifica que teoricamente essas realidades existem.

  5. panaxginseng diz:

    No teu post: “Não há que ter second thoughts: a busca da paz e da justiça obrigam a que não haja barreiras ao comércio entre países…”

    O argumento ee claro:

    Os ‘successful globalizers’ fizeram-no com e (pelos vistos) devido a barreiras internas, e apesar das barreiras externas impostas nos anos 70 pelos paiises ricos…

    Os paiises ricos se forem obrigados a ajustamentos demasiado dolorosos, e sem policy-space para abordar estes problemas internamente (que pode ser ajustamento por baixo em termos de rendimento), facilmente caiem na tentacao a que se assiste actualmente nos EU de proteccionismo.

    O problema de Portugal nao crescer haa 8 anos nao tem nada que ver com a legislacao laboral… mais depressa tem que ver com outras coisas, sobre as quais jaa fiz posts e comentaarios aos teus posts para provocar alguma discussao, mas pronto, embirraamos com a legislacao laboral…

    Mudar a legislacao laboral nao resolve o problema do encolhimento dos nossos sectores transaccionaaveis ou da falta de expansao para novas aareas de produto exportaavel (uma falha de mercado apelidada de self-discovery)… vide evidencia empiirica…

  6. Carmex diz:

    “Eu explico… mas espera ai, essa explicacao estava dada pelo Samuel Brittan a propoosito do trabalho de Amartya Sen, no seu uultimo livro, e que eu postei aqui…”

    Panax, may I remind you que trabalho exactamente numa empresa cujo pano de fundo é o comércio internacional? E que verifico como é que o preço dos bens produzidos na China e Índia tem diminuido (se compararmos o mesmo bem ou o mesmo tipo de bem) e isso se reflecte em preços mais baixos nos mercados europeus e americanos? Que actualmente te posso vender uma mota nova(fabricada na China) por 100 contos? Que um candeeiro que há 15 anos custava 10 contos agora custa 15 euros? E que, como consumidora, vejo esta baixa de preços acontecer em todos os bens transaccionáveis que compro? (Já dei exemplos de computadores e roupa.)Que podes adquirir uma tábua de passar a ferro por uns 1000 escudos se procurares bem? Que para as pessoas de menores rendimentos estes preços mais baixos fazem toda a difereça? Que a inflaccão na Europa e EUA tem sido contida também com a ajuda da diminuição dos preços de produtos importados do sudeste asiático?

    E o Samuelson não é aquele senhor cujo modelo de desenvolvimento económico já foi desmontado e ultrapassado por toda a gente?

  7. panaxginseng diz:

    Vejo que nao te apetece ir ver o post que referi. Nao faz mal, dou-te outro exemplo. Se globalizacao significa que paiises ricos deixem de subsidiar os produtores alimentares como o fazem agora, o preco mundial da “batata” vai subir, o que basicamente beneficia produtores de batata nos paiises pobres, mas penaliza os consumidores de “batata” nesses paises tambeem. Percebes agora aquela frase no power-point do senhor?

    Repara ainda no que escreveste: “claro que a globalização tem custos para alguns trabalhadores dos países mais ricos, uma vez que o que produziam vai passar a ser produzido em países mais pobres com mão-de-obra mais barata. Mas para outros trabalhadores dos países ricos vai ser melhor, e para os consumidores dos paíes ricos (incluindo os que ficam sem emprego) vai ser melhor.”

    Incluindo os que nao teem emprego? Entao, se nao teem emprego nao teem salaario pelo qual, explicares aos senhores que teem que dar gracas porque o ipod ee bem mais barato pode ser bem difiicil. Ah!! Jaa me esquecia, nao estarao desempregados por muito mais tempo…

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