Parece-me evidente

Temos que reconhecer: as mulheres às vezes são assim pouco abonadas de racciocínio; não estou a pensar naquelas situações estereotipadas tipo “bonita e burra” – uma mulher bonita que aproveita a sua beleza é sempre inteligente mesmo que faça outros acreditar que não – mas sim dos casos em que as mulheres pensam ser tremendamente espertas e perceberem mecanismos relacionais, sociais ou demais “ais” que os reaccionários ainda não vislumbraram. Estão nesta categoria as indignações que se fizeram ouvir por se ter tornado pública (em blogues, na Visão e no DN) a presença de Fernanda Tadeu, a mulher de António Costa, na mega-manisfestação de professores. (O caso está resumido de forma brilhante aqui, ainda que eu pense que certas indignações foram um bónus para o PPM, não o objectivo). (E introduzo aqui um desvio: podemos questionar se, não fossem os blogues, esta notícia teria chegado ao público que não visita a blogosfera.) (E outro, um bocadinho menos desvio: claro que não se indignaram só mulheres, mas que estas percam a tranquilidade com disparates e supostamente a defender “as mulheres” é particularmente embaraçoso.)

É mais que evidente que num casal as duas partes têm opiniões, personalidades, formas de expressão, objectivos (que convém não serem conflituantes), ideologias, gostos, etc., etc. diferentes. Ninguém questiona isso nem o dever de uma das partes se submeter às opiniões, gostos, … do conjuge. Acontece que o casamento não é uma ligação qualquer. Existe entre duas pessoas que se amam e que se orgulham do seu marido ou mulher. Não é obrigatório que o comportamento de uma parte do casal reflicta a opinião do outro, mas o normal e saudável é que nós gostamos que aquilo que o nosso marido ou mulher é ou faz se reflicta em nós; porque gostamos do que ele ou ela é ou faz. É portanto nada surpreendente que o que uma pessoa faz se reflicta em quem com ela casou; espera-se até que essa pessoa aprecie o que foi feito.

Ainda: o casamento pressupõe uma perda de liberdade para quem se casa. Porque as minhas acções implicam ou têm consequências na vida de maridos ou mulheres e dos filhos. Quem não aceita esta perda de liberdade, tem boa opção: não se case. Pode haver quem case desprevenido, mas quem está casado há tanto tempo como António Costa deve saber bem que prescindiu de parte da sua liberdade com gosto, com prazer e que o recebe de volta é mais que compensador. Isto para dizer o óbvio: a liberdade da mulher de António Costa de participar na manifestação de professores era condicionada pelas posições e cargos políticos do marido. Não é sério dizer outra coisa. E o facto de ter decidido participar na manifestação (diria eu, que não conheço a senhora) revelador da sua profunda oposição às medidas propostas pelo governo Sócrates para a avaliação dos professores, se não para a Educação.

Nada do que aqui disse implica que António Costa partilhe as opiniões da mulher – isso cabe-lhe esclarecer se assim o entender (ou se não preferir deixar viva a ideia de que concorda com a mulher). É que por (supostamente e vamos assumir que é o caso, dada a longevidade da relação) existir amor e respeito num casamento, uma das partes do casal pode ter comportamentos com que a outra parte discorde ou que a prejudiquem mas que aceita por saber como esses comportamentos são importantes (por vezes inevitáveis) para a mulher ou marido.

Perante este quadro que me parece inexcedivelmente razoável sobre o casamento, claro que são legítimas as referências e notícias da participação de Fernanda Tadeu na manifestação. Tal como são legítimas, dada esta participação, as questões sobre a opinião de António Costa neste embate entre Ministra da Educação e professores. Quem referiu, noticiou e questionou fez muito bem.

 

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7 respostas a Parece-me evidente

  1. Cara Maria João,

    Nem sempre..nem sempre…

    Podem ser marido e mulher e discordar veemente em muita coisa, ou quase tudo, como estes dois exemplos, ambos mediáticos:

    James Carville e Mary Matalin – o primeiro, consultor Democrata, que em 1992, foi o responsável da campanha de Bill Clinton. Mary, consultora Republicana, trabalhou nesse mesmo ano, na campanha de George H. Bush. Penso que ainda são casados!

    Outro exemplo:
    Arnold Schwarzenegger e Maria Shriver. Ainda há um mês assistimos ao “Governator” a apoiar John Mccain, enquanto na mesma semana Shriver participava num comício com Michelle Obama.

    Acho que em Portugal ainda não somos uma sociedade suficientemente livre para termos muitos exemplos destes. Pelo que me recordo, talvez apenas Pedro e Helena Roseta. A Sr.ª. Fernanda Tadeu, se discorda das políticas do Governo para a Educação, deveria utilizar este mediatismo conquistado nesta questão, para bater-se pelas suas ideias, sem medo de “causar” problemas ao marido. Afinal vivemos numa sociedade livre e por ser esposa, não tem de estar presa a certas opiniões.

  2. Carmex diz:

    Nuno, mas eu também concordo que duas pessoas podem ser casadas e discordar sobre muita coisa e, sobretudo, sobre política. Conheço vários casos. Só que os exemplos que deu são de casais de pessoas politicamente activas em nome próprio. Cá também temos a Paula Teixeira Cruz, casada com o Paulo Teixeira Pinto; são ambos do PSD, é certo, mas em registos muito diferentes. Mas mesmo nestes casos em que as partes do casal são assumidamente divergentes politicamente, se existe por exemplo um escândalo fiscal com um deles, o outro também é percepcionado como implicado.

    O caso da Fernanda Tadeu é diferente: não tem participação política activa própria, pelo que esta participação pontual levanta questões quanto às posições do marido. Se Fernanda Tadeu fosse sindicalista de imediato se perceberia que ali estava por vontade própria.

    Tudo se esclareceria se António Costa dissesse que a mulher tem as suas opiniões e que são diferentes das dele. O que não se deve pretender é que é indiferente, ou que nem devia ser noticiada, a participação de Fernanda Tadeu nas manifestações.

  3. alguém próximo diz:

    Acho que convinha clarificar o que se entende por liberdade (peço desculpa pelo desvio pseudo-filosófico). Por exemplo: o facto de me casar e ficar com menos tempo disponível para fazer o que me apetece não quer dizer que sou menos livre (no meu entender). Não sei se acontece convosco mas parece que a liberdade se realiza quando é oferecida a alguém. Não apetece nada abdicar da minha (auto)satisfação. O fruto (mais liberdade, mais livre) só vem mais tarde. E o entendimento de tudo isto também. Ser livre não será sair de si? (O belíssimo post sobre o fim de emissão também aborda isto). Tudo isto só para dizer que casar não me corta a liberdade. Dá-me uma oportunidade de realizá-la plenamente.

    A senhora em causa até pode concordar com os professores. Mas não seria melhor fazer uma manifestação (privilegiada) a sós com o marido em casa? Qual é a necessidade de aparecer em público? A expressão da sua liberdade passa apenas por aí? Por um direito? Então e os deveres? Não haverá conflito de interesses (entre o casamento e o que implica e a opinião pessoal)? E nesse caso não deveria de abster-se de intervir?

  4. “O que não se deve pretender é que é indiferente, ou que nem devia ser noticiada, a participação de Fernanda Tadeu nas manifestações.”

    Pois. Obviamente a sua participação é notícia. E fez muito bem PPM, que foi seguido pelo DN e Visão, em darem a noticia. Não se percebe as reacções das virgens ofendidas. Ou se calhar percebe-se…

  5. Carmex diz:

    Alguém próximo, bem-vindo/a aqui ao farmácia.

    Penso que Fernanda Tadeu pode ter considerado que a sua posição devia ser ouvida e que revelá-la apenas ao marido não surtiria tanto efeito como juntar-se à manifestação. Cada casal tem a sua dinâmica e deve ser respeitado.

    Levanta uma questão interessante, a da liberdade. Penso que de facto se perde liberdade quando se casa, tal como se perde liberdade quando se tem um filho (por exemplo, a liberdade de disponibilizar o meu tempo como me apetece). Só que as liberdades que se perdem são as liberdades egoístas de que fala, porque passamos a ser “obrigados”(porque assim queremos e escolhemos, claro) a praticar amor e generosidade para com outro; como esses outros são quem amamos isto vem naturalmente; e, nisto concordo, é o que nos realiza; uma pessoa que vive enrolado nas suas liberdades egoístas é uma pessoa triste (por muitas festas a que vá e muitos pares de sapatos que tenha).

  6. Pingback: Fernanda Tadeu na marcha da indignação dos professores (2) « O Insurgente

  7. Pingback: Silda « Farmácia Central

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