A guerra falhada

A 1 de Setembro de 1939 os Governos da Grã-Bretanha e de França comunicaram um ultimatum ao III Reich: deveria retirar em 48 horas as tropas alemãs que haviam desde essa madrugada entrado em território polaco. Este ultimatum resultou de uma garantia dada à Polónia poucos dias antes (após o Pacto Ribbentropp-Molotov) por estes dois países de lhe darem assistência militar e declararem guerra à Alemanha caso esta invadisse a Polónia.

 Nos círculos britânicos pacifistas – muito mais numerosos, influentes e aristocráticos do que agora é confortável admitir (a imagem das “Debs at War” é mais apelativa) – esta garantia representava uma loucura do governo de Chamberlain: os interesses britânicos não estavam em causa com a anexação pela Alemanha dos territórios do corredor de Danzig, que se tratava de uma questão regional no meio da Europa continental (o que era verdade); a própria questão do corredor de Danzig era uma injustiça nascida no infâme Tratado de Versalhes (e tanto assim era que todos os países europeus, Vaticano incluído, pressionaram a Polónia para aceitar negociar com a Alemanha uma cedência de territórios de forma a evitar um conflito militar); caso a Grã-Bretanha se enredasse numa guerra com a Alemanha, consumiria recursos que se utilizariam de outra forma na manutenção do Império, o que levaria, não se gastando esses recursos, à desagregação do Império Britânico e à consequente perda de influência geo-estratégica da Grã-Bretanha (o que se verificou).

O próprio Lord Halifax – o maior impulsionador do Gabinete desta garantia – a defendeu porque sempre acreditou que a Alemanha não queria comprar uma guerra com a Grã-Bretanha e que se este fosse o preço de um ataque à Polónia, o atque não se verificaria.

O resto é da História: a 3 de Setembro, pela manhã, e continuando os exércitos alemães a esmagarem os militares polacos (podemos sempre recorrer àquela imagem da cavalaria polaca montada mesmo em cavalos enfrentando o suicídio e as divisões Panzer germânicas), Grã-Bretanha e França declararam guerra à Alemanha. Foi considerado inútil fornecer ajuda militar à Polónia.

Quinze dias depois a URSS deu a sua dentada à Polónia na parte oriental, sendo até uma dentada maior do que a alemã. Não houve reacção contra a URSS da parte da França e GB; anos depois, a URSS seria um acarinhado aliado britânico.

Seguiu-se a phoney war, aquele período peculiar em que havia guerra mas não havia guerra.

Seguiu-se a campanha na Noruega em inícios de Maio de 40, desastrosa para os britânicos, em grande parte devido às confusões do desempenho da Royal Navy, à época da responsabilidade de um senhor chamado Winston Churchill, que haveria de ser um dos líderes vitoriosos em 1945. A vergonha recaíu sobre Chamberlain e, numa volta do destino que Churchill acreditava ter tido mão de Deus (e eu não estou longe de concordar com ele), o responsável pela derrota que fez caír o Gabinete torna-se Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha (além de outras improbabilidades de ordem partidárias que não vela a pena aqui referir).

Seguiram-se mais derrotas humilhantes. Com o blitzkrieg o exército alemão varreu a Holanda, a Bélgica e encurralou a British Expeditionary Force e parte do exército francês no Norte de França. Nos últimos dias de Maio e primeiros dias de Junho mais de 300.000 homens, britânicos e franceses, foram evacuados de Dunquerque, abandonando toda a artilharia britânica nas praias. Esta evacuação (novamente: quase milagrosa) foi apenas possível porque, por razões até hoje não totalmente descortinadas, Hitler deu ordem às forças alemãs para pararem o avanço para a costa norte francesa durante dois dias; sem esta paragem misteriosa poderiam ter acontecido uma de duas alternativas: ou as tropas francesas e britâncicas encurraladas lutavam até provocarem um retrocesso no avanço imparável dos alemães ou, mais provavelmente, acontecia a captura da BEF e de grande parte das tropas francesas e, num prazo muito curto, uma vitória nazi nesta guerra europeia.

França caíu e a Alemanha virou-se gulosamente para o próximo alvo: a Grã-Bretanha. Depois de uma “vitória” com uma evacuação bem sucedida, o próximo “sucesso” seria conseguirem os britânicos evitarem a invasão alemã da sua ilha. Tudo o resto piorou consistentemente: as cidades britânicas foram devastadas pelos bombardeiros germânicos, os alemães irromperam pelo Egipto, Singapura caíu, Hong Kong foi ocupada, a URSS foi invadida pela Alemanha e a China pelo Japão, a tonelagem perdida no Atlântico Norte tem valores que arrepiam. As mortes militares e civis cresciam e multiplicavam-se.

O ponto de inflexão deu-se com a vitória de El Alamein no Norte de África e o fracasso do Reich em Estalinegrado, em finais de 42. No entanto, para vencerem a guerra, os aliados na Europa demoraram 11 meses depois do Dia D até fazerem a Alemanha soçobrar; no Extremo Oriente, os americanos recorreram (duas vezes) a uma arma tão pavorosa que, felizmente, não voltou a ser usada.

No final de uma guerra iniciada para salvar a Polónia, este país foi arrebatado para a URSS, um destino tão mau ou pior do que aquele que teria com os nazis.

Tudo isto para dizer o quê? Que, segundo os argumentos anti-americanos actuais (comparem-nos com os de Oswald Mosley em finais dos anos 30 e espantem-se com a coincidência), a Grã-Bretanha e a França não deveriam ter iniciado a IIGM; Hitler deveria ter sido deixado à solta e a prosperar; os estrategas militares e políticos dos aliados eram uma verdadeira corja de incompetentes que não percebiam de batalhas, como se comprova pelas derrotas que sucessivamente sofreram até ao fim da guerra (que venceram, mas isso não interessa nada).

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14 respostas a A guerra falhada

  1. hirudoid diz:

    A história não se repete, porque se aprende com as experiências anteriores…

    As duas situações não são comparáveis.

  2. Carmex diz:

    Discordo: a História repete-se porque não se aprende com os erros anteriores, até por uma questão de distanciamento histórico, de esboroamento da memória, de convicção de que cada situação tem as suas particularidades que a tornam única e, logo, profundamente original em todos os pontos, ….

  3. Carmex diz:

    Já agora, Rui, alguma vez leste alguma coisa sobre o que diziam os fascistas britânicos ou os pró-germânicos na Grã-Bretanha antes da guerra? Se não leste, recomendo vivamente. Quase podes atribuir esses discursos a muitos anti-bushistas actuais só mudando os nomes dos países. E, curiosamente, quase tudo o que previam concretizou-se. O que não quer dizer que tivessem razão na questão de fundo.

  4. Carmex diz:

    E só mais uma coisa, que me parece evidenciada no post: a solução que eu penso ter sido a melhor não surgiu sem custos e teve também consequências negativas para muitos países. A História também nunca é a preto e branco.

  5. panaxginseng diz:

    Parece-me que esta ee uma batalha perdida… a vontade de encontrar argumentos para defender a administracao Bush leva-te a procurar episodios histooricos, e a fazer interpretacoes dos mesmos, para obteres equivalencias no sequinte:

    (a) a tua leitura de interpretacoes contemporaneas da eventos histooricos escolhidos a dedo por ti (ou seja, nem reflectem uma regularidade histoorica), e

    (b) a tua especulacao em relacao aa interpretacao futura de uma temaatica especiifica da histooria contemporanea, que obviamente ningueem pode atestar (soo os nossos netos)…

    Extraordinaario nao? Para nerds, isto soo tem paralelo no exercicio de correr uma regressao para testar uma identidade contabilistica = a hipootese nula nunca se pode refutar.

  6. Carmex diz:

    Tem muita piada (para não dizer que é confrangedor) verificar como quem não conhece a História é pronto e rápido a rejeitar paralelismos com o presente. Mas também só quem não sabe de História (e de outras coisas…) é que tem tantas certezas sobre o presente.

  7. panaxginseng diz:

    Pois, deve ser isso, para ti nao percebo nada de histooria… mas parece-me que estou em muito boa companhia…

  8. panaxginseng diz:

    Faz-me lembrar aquele comentaario de algumas semanas atraas em que te imaginaste dando-me uma licao de histooria quando afirmavas sem duuvida alguma que comunismo tinha sido sinoonimo histoorico de pobreza…

    Ai Carmex Carmex…

  9. Pingback: Em 2003, por outro que nao percebe nada de histooria, como eu… « Farmácia Central

  10. Carmex diz:

    João Pedro, desculpa-me, mas não vale mesmo a pena. Há assuntos que percebemos e outros que não, isto não é vergonha para ninguém. História é precisamente my cup of tea, em especial alguns momentos, e entre os meus momentos preferidos está a IIGM; não acredito que me possas dar muitas lições sobre isso. O comunismo, precisamente, também já foi um dos meus temas preferidos; há quem saiba muito mais, mas se dizes que o comunismo combateu eficazmente a pobreza e contribuiu para desenvolver os países onde foi experimentado, então não é o teu caso.

  11. panaxginseng diz:

    Nao, tambeem nao me parece que este seja o teu “cup of tea”…

    Para interpretar factos histooricos e fazer afericoes por exemplo como a que fizeste outra vez no teu comentaario 10, terias que ter mais do que concepcoes simplistas para ajudar a ler a histooria…

    Para uma correcta leitura da histooria, tem que se ter “ooculos” bem informados, e nao somente uma coleccao de “verdades” feitas…

    Para tua informacao Carmex, muitos processos de instauracao de um estado socialista resultaram em reducoes tremendas de niiveis de pobreza em relacao a um ponto de partida… simplesmente porque esse ponto de partida era o de sociedades autocratas e feudais, tremendamente desiguais no acesso aa terra, e com vastas porcoes da populacao rural em situacao de sub-emprego… aliaas, como qualquer interessado em ciencia e economia poliitica sabe, foi por oposicao esse ponto de partida que tantas revolucoes socialistas se dinamizaram com apoio popular…

    [Mesmo nas maiores loucuras da humanidade se observa esta sequencia. Quando os Khmer Vermelhos chegaram a Phnom Penh, foram recebidos em incriivel apoteose… a populacao inteira estava em festa… um dia depois, quando a loucura que guiava os seus liideres – a tentativa de instaurar uma sociedade exclusivamente agraaria e sem dinheiro – foi posta em praactica, aconteceu um dos maiores pesadelos da humanidade. Mas este episoodio histoorico do Cambodja nao se pode comparar com o exemplo do Vietname, ou de Cuba? Compara-se mais com o exemplo de alguns paiises africanos a que nunca apelarias de regimes socialistas…]

    EE esta uma ode ao comunismo? adivinha laa? Pois, claro que nao ee… sao simplesmente os factos… nao haa que ter medo dos factos Carmex, nao ee por isso que a malta passa a acreditar que o comunismo ee opcao para paiises com “verdadeira” democracia…

    Porque tanto medo de deixar cair a ficcao que sociedades comunistas sao sentenca de miseeria acrescida?

    Chega de ter medo Carmex, a histooria de que o Estaline comia criancinhas nao ee verdade, ele nao era flor que se cheire, mas isso nao significa que de repente se tenha uma interpretacao cega da histooria… pois nao?

    Nao, o comunismo tambeem nao ee o teu cup of tea…

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