O acordo ortográfico é um assunto daqueles que eu não sei o que pensar. Oiço os pró e vejo benefícios; escuto os contra e penso que estão cheios de razão. Entendo que a diversificação entre o português de Portugal e o do Brasil possa levar a que a lígua deixe de ser uma apenas e que isso trará sobretudo prejuízos para o “nosso” português, pela simples força dos números “deles”. Não entendo como um acordo ortográfico, ou este acordo ortográfico (que muda apenas a ortografia em casos de letras mudas e não harmoniza as situações em que uma letra é muda em apenas um dos lados do Atlântico, por exemplo), vai prevenir tal catástrofe.
E um por cento das palavras?! É um excesso. E, pior, o critério passa para somente fonético, abandonando a lógica na construção de uma palavra. Eu sei que os ingleses têm as mais variadas fonéticas para a mesma grafia e isso não os sobressalta (faz-me lembrar um poema que me deram no British para aprender a pronúncia de moth versus a fonética de both – era both?), mas eu gostava deste rigor no Português, o de ter regras menos anárquicas.
No fundo, o que me incomoda é não entender porquê. Que fim tão nobre, tão importante, tão indispensável será alcançado com o acordo para que eu deixe agora, aos trinta e tal anos, de saber escrever português. Para que eu deixe de sentir esta língua como minha. Para que o meu filho, que apanhará a mudança em plena primária, seja sujeito a ortografias cambiantes. Para que eu passe a vergonha de, perante o meu filho, não saber a ortografia de “úmido” e outros que tais. Mas pode ser que, tal como no dito poema, o meu filho possa dizer deste portugês pós-moderno “I mastered it when I was five“. E me ensine.