-Will you marry me? -Hmmm, how long it takes to get divorced?

Não sei se foi no mês passado se foi no anterior que li uma peça na Vogue, escrita por uma menina que sabia muito bem manejar o teclado (cujo nome agora não recordo; em casa acrescento-o), sobre uma experiência da própria em Itália. A autora havia viajado para Itália aos vinte e poucos anos, conhecido um italiano, namorado com esse italiano e ponderado ficar em Itália permanentemente, casando com o dito namorado. A decisão vai ser de não casar e regressar aos Estados Unidos. Vários factores pesaram nessa decisão. Ela era filha de um pai rico mas ausente e de uma mãe artista; ele pertencia a uma rica e aristocrática família florentina, com os seus rituais peculiares, católicos, num círculo social onde esperar que as senhoras se sentem e beijar a mão às senhoras casadas são normas básicas de boa educação e quem não as segue é um selvagem. As ideias e os valores de família eram claramente diferentes (more of which later). Algum snobismo da família italiana incomodava a autora. Entre os vinte e cinco e os trinta anos a autora considerava que não devia casar porque ainda não se conhecia a si própria (esta razão é muito reveladora, desde logo de imaturidade; não que eu não aprecie o auto-conhecimento, pelo contrário, acho-me um assunto fascinante, eh, eh, eh, e sou uma admiradora incondicional do Eneagrama, mas não concebo que uma pessoa apaixonada e casada não se consiga conhecer a si própria – claro que a paixão e o amor causam distorções no nosso comportamento, tanto para melhor como para pior, mas só causam as distorções que a nossa personalidade permite). Havia indícios de sangue fraco, resultante de séculos de casamentos entre as mesmas famílias, em crianças aparentadas com o namorado. Contudo, a razão para não casar dada pela autora que mais me chocou (desde logo por ser ter sido uma razão) foi o tempo que demora um divórcio em Itália (três anos).

Não sei se se referia a divórcio litigioso – e nesse caso tivémos até agora uma legislação semelhante – se a divórcio por mútuo acordo. Nem interessa. O que é relevante é o facto de a facilidade ou dificuldade de obter um divórcio pesar na decisão de qualquer pessoa casar – decisão que, não obstante o facto de se poder assumir como erro no futuro e, logo, dissolver-se através de um divórcio, implica (ou deveria) uma vontade de permanência, vontade essa muito benéfica para a constutuição de família. Claro que quem pondera no divórcio enquanto pensa em casar faz muito bem em nunca casar. Mas que seja normal argumentação deste género, com destaque para esta frase no meio do texto e tudo, é revelador dos valores que uma sociedade não deve ter. A liberdade não é equivalente a irresponsabilidade, a egoísmo ou a recusa de deveres – e menos ainda quando o uso da nossa liberdade tem consequências tão significativas em outros, por exemplo nos filhos.

Contudo foi neste sentido que se legislou em Portugal por estes dias.

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