O Papa III

Há uns dias o Kruzes Kanhoto dizia num comentário aqui no blogue que gostava de Bento XVI porque, como o Kruzes, o Papa não gostava de “mouros”. Eu pensei logo que este comentário merecia um post, entretanto os dias foram passando e outros assuntos disputando a minha atenção e só agora escrevo umas linhas sobre o assunto.

Ratzinger não tem nenhum desgosto especial pela mourama, claro está. Só que também não os justifica, não os desculpa, não desiste de interpelar a fé em Maomé (como certamente considera que a fé católica deve ser interpelada) – aliás de uma forma respeitosa, de quem considera que o outro é adulto e sabe fundamentar as suas crenças; no fundo, Ratzinger tem melhor opinião do Islamismo do que os maluquinhos que correm para manifestações, vandalizam embaixadas e matam membros do clero quando Bento XVI diz umas coisas inócuas sobre o Islão -, não relativiza conceitos para dar abrigo a selvajarias. E isto, hoje neste mundo que fala de “terrorismo de estado” para Israel e de “mártires” para terroristas, é quase escandaloso.

O Papa defende duas ideias muito acertadas nesta relação entre religiões. A primeira: deve haver reciprocidade no tratatmento dos crentes. Não se pode aceitar – como tantos ateus e católicos o fazem – que um muçulmano que se converta ao cristianismo seja ameaçado de morte e obrigado a viver escondido, quando os clérigos muçulmanos na Europa se dediquem a proselitismo quase violento; não é sustentável que os cristão sejam discriminados e molestados (das mais diversas formas, muitas delas violentas) nos países muçulmanos quando são livres na Europa de viverem segundo a sua religião e hábitos (para mim, até com excessiva permissividade que nos vai sair muuuuito dispendiosa – mas isto é outra conversa).

A segunda: a certeza que o cristianismo não é uma religião entre outras; é, antes, A Religião. Apesar de haver muitos católicos (um bocadinho esquizofrénicos, diria eu) que consideram que Deus se revelou por igual em todas as religiões e que o cristianismo deve aceitar que a verdade das restantes religiões é tão válida como a sua, o Papa muito saudavelmente envia esta conversa para as urtigas. Claro que as várias religiões (não incluo aqui grupos e grupelhos de gente que quer criar uma religião para astisfazer as suas vontades e apetites) têm partes de verdade e podem ser um meio de Deus chegar aos crentes. No entanto um católico não pode acreditar que Jesus é Filho de Deus, que morreu crucificado e ressuscitou e depois achar que está bem, os judeus têm a sua razão ao dizer que Jesus não era nada o Messias, e os muçulmanos também não erram de todo ao dizer que Jesus foi um grande profeta e não foi nada crucificado, que disparate, Alá permitiria lá uma aberração dessas. Por outro lado, um católico não pode deixar de acreditar que Deus se revelou nas Escrituras e com Jesus Cristo e que a Revelação terminou aí. E que o Credo não tem lá pelo meio referências a verdades alternativas de outras religiões.

Também por ser tão claro e tão certo nestas questões eu admiro Ratzinger.

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6 respostas a O Papa III

  1. Joel diz:

    “Apesar de haver muitos católicos (um bocadinho esquizofrénicos, diria eu) que consideram que Deus se revelou por igual em todas as religiões e que o cristianismo deve aceitar que a verdade das restantes religiões é tão válida como a sua, o Papa muito saudavelmente envia esta conversa para as urtigas.”

    Porquê muito esquizofrénicos? Quanto muito não são tão egocênctricos. Eu não acredito que possa ser detentor da “verdade” só por ter nascido onde nasci, e me terem uma cultura oficial. Não faz sentido…

  2. Só Maria diz:

    não consigo e não posso concordar com nenhuma das duas ideias que o Papa defende. são ambas igualmente perigosas, subversivas e inquietantes. a reciprocidade, colocada assim, parece a lei de Talião, “olho por olho…”. já a segunda, o cristianismo é “a religião” de muitos, sem dúvida, mas não de todos… voltamos às cruzadas, de onde aliás me parece que ao longo dos séculos nunca saímos… o que é pena, sobretudo constatando agora que temos um papa que parece querer incitar mais ainda esse movimento… curioso, o sr. ratzinger sempre foi a face obscura de joão paulo II, e continua nesse papel.

  3. PR diz:

    Concordo consigo. A hipocrisia de alguns católicos faz com que aceitem como válido tudo aquilo que outras religiões propõem,em nome da tolerância religiosa.
    Obviamente que não defendo que sejamos intolerantes, mas um católico não pode colocar a sua religião ao mesmo nível das outras.

  4. Rosarinho diz:

    A Carmex tem toda a razão.

    Quanto ao que o Joel escreveu: se admitirmos, por enquanto para efeitos de raciocínio, que há uma verdadeira religião, é muito fácil concluir que houve alguns que tiveram a “sorte” de a ela se converterem e outros não.
    A religião não é, de maneira alguma, uma “cultura”. A prova é que há imensos portugueses que não são católicos (e até, algumas pessoas que vão à missa ao Domingo e que não têm fé – agem por “tradição”, por “cultura”. Isso não é a religião dos crentes).
    Pode ter a certeza, Joel, de que, se tivesse fé, nem lhe passaria pela cabeça dizer o que escreveu. Quando muito, agradeceria a Deus ter tido misericórdia de si e ter-lhe dado o dom da fé (é o que eu faço, por exemplo. E olhe que me converti apenas com 32 anos, apesar de até aí frequentar a missa dominical – hoje, confesso, que nem sei bem porque o fazia!).

  5. Carmex diz:

    Vamos por ordem.

    Joel, quem não tem fé pode considerar que todas as religiões são equivalentes, mas um católico ou acredita que Deus se revelou nas escrituras e em Jesus Cristo e, logo, não acredita noutras religiões que contraditam o cristianismo, ou não é católico. Ou, como diz a Rosarinho, é católico só de nome mas não de fé.

    Só Maria, entendeu pela negativa a reciprocidade. O que Bento XVI defende não é que façamos o que os sauditas fazem aos católicos, mas sim afirmar que os sauditas devem respeitar tanto os católicos como os europeus respeitam a religião muçulmana. Quanto à “verdade”, esta não pode ser uma coisa e o seu contrário e os católicos (e os não-católicos!) não podem aceitar que assim seja. Mas atenção, que quando se fala de verdade fala-se de fé e não de doutrina. De Jesus ser Filho de Deus e ter ressuscitado, por exemplo, e não de aspectos doutrinais como a utilização de preservativos, o celibato dos padres e assuntos semelhantes mais ou menos polémicos.

    PR, concordo. E claro que assumirmos que consideramos que a verdade está no cristianismo não implica não respeitar os crentes de outras religiões ou os ateus. Aliás, só pode ser tolerante quem tem opinião ou convicção e se depara com quem é ou pensa de forma diferente; quem não tem opinião ou convicção ou as considera todas iguais, é simplesmente amoral, não tolerante.

    Rosarinho, bem-vinda aqui ao farmácia. (Já tinha lido um comentário da Rosarinho, mas esta semana foi complicada e não cheguei a tempo de lhe responder.) Gostei muito do seu testemunho, que de resto também vai muito ao encontro do que pretende Bento XVI: que os católicos vivam uma fé profunda, fundamentada, profícua, mesmo correndo o risco de alienar os católicos que por educação se consideram católicos mas, na realidade, não têm fé.

  6. Charlyeston Gp Silva diz:

    os mais intressados no uso da camisinha sao: 1 Os hereges protestantes, ou os filhos de lutero que gostaria de fazer sacanagen a vontade. 2 os fabricantes para vivere mais a sombra do dinheiro . 3 Os vendedores para ficar com as sobras do dinheiro

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