Deixem-me persuadir-vos

Quando encomendei a nova produção da BBC do Sense and Sensibility, aproveitei (sou uma consumidora impulsiva) e comprei também as mais recentes produções de Persuasion e de Northanger Abbey da ITV. Para ficarem esclarecidos, Persuasion está, juntamente com o Emma e depois do Pride and Prejudice, no top das minhas preferências austenianas. Northanger Abbey é uma sátira divertida mas (ou por isso) não tem o peso do PP, do SS ou do Persuasion, que conseguem ser leves, espirituosos e luminosos enquanto relatam circunstâncias aguçadas na vida de uma mulher de boas famílias no início do sec. XIX: não poder trabalhar para se sustentar e não ter dinheiro próprio nem perspectivas de o herdar.

(Deixem-me alinhavar as histórias dos dois livros, para que quem não os leu entenda melhor a minha apreciação. Em Persuasion, Anne Elliot, aos 27 anos – é a mais velha protagonista de JA – reencontra Frederick Wentworth, por quem estivera apaixonada anos antes e a quem recusara os avanços porque uma amiga da sua mãe assim a persuadira. Anos depois Frederick enriqueceu e parece apaixonado por uma das Musgrove, irmãs do marido de Mary, irmã de Anne. Anne, já uma entradota nos anos, revive todos os sentimentos por Frederick e recebe uma inesperada proposta de casamento de um homem que considera apenas inteligente e agradável mas de boas famílias e que a pode salvar de uma vida de solteirona dependente dos parentes mais abonados. Em Northanger Abbey, Catherine é uma rapariga apreciadora de novelas góticas, com donzelas em perigo, salteadores e cavaleiros galantes em abundância, dona de uma imaginação fértil e que aplica quando é convidada para uma estada em Northanger Abbey, casa antiga que ela julga esconder escabrosos segredos e onde residem o seu apaixonado Henry Tilney, a sua amiga Eleanor e o tormentoso e snob General Tilney.)

Mas as adaptações de livros dependem de muita coisa que não só a matéria-prima literária. No caso concreto, acho que dependeu de quem produziu, adaptou o argumento e realizou perceber – ou não – o mundo e a linguagem de Jane Austen. No caso da adaptação de Pesuasion, a equipa que tratou do assunto percebia tanto (e, provavelmente, apreciava tanto) Jane Austen como eu Saramago. Se por qualquer penitência eu me visse com a imposição de adaptar para televisão um livro de Saramago, a minha intenção seria corrigir o que conseguisse de forma a que do meu trabalho se aproveitasse alguma coisita. Apesar de ser sacrílejo colocar Jane Austen no mesmo parágrafo que Saramago, parece-me que os argumentistas do Pesuasion pensaram que tinham de modernizar e dar uns toques kitsch na história, que como estava não fornecia grande sumo.

A adaptação é lamentável, acreditem-me. (A léguas da adaptação da BBC do SS, que poderia ter sido melhor mas é excelente perante este desgraçado Persuasion). A única qualidade da produção é o actor que dá vida a Frederick Wentworth, um tal de Rupert Penry-Jones, que vai muito bem, consegue ser circumspecto e magoado sem perder vivacidade. Tudo o resto:catastrófico. A Anne Elliot é uma criatura apagada e sem qualquer interesse, sem a inteligência e argúcia da personagem original, que, sabe lá porque ideia que assombrou a cabeça dos argumentistas, passa parte do final do telefilme a correr pelas ruas de Bath e acaba as imagens a dançar no relvado em frente da casal ancestral da sua família (assim como num daqueles filmes para o mercado interno americano, sem história compreensível, que tentam sobreviver recorrendo a estas imagens-cliché). A irmã de Anne, Mary Musgrove, apresenta-se como uma criatura sem cérebro e de comportamento errático e sem objectivo; no livro, Mary é uma muito bem conseguida caricatura: mulher egoísta, sem grande intelecto ou discernimento, recolhe atenções alheias fingindo-se doente e reclamando para si as cortesias que são devidas a uma filha de baronete, julgando-se o objecto de atenção de qualquer homem atraente que lhe dirija a palavra. Mary tem piada por ser tão insensata e irresponsável; teria sempre que ser representada por quem percebe o que é aquela mulher no Persuasion: uma forma de JA fazer humor; que é necessária contenção e motivação nos comportamentos de Mary, não irracionalidade; enfim, a representação de Mary prova que quem fez a adaptação nao tem nenhuma noção que JA escreve com ironia, colocando as personagens a dizerem coisas e a fazerem no mesmo momento o contrário, e que os seus livros devem ser lidos com o sentido de humor ligado. As irmãs Musgrove são duas adolescentes tontinhas, nada das mulheres jovens namoradeiras do livro. E continuava… A anterior adaptação de Persuasion pela BBC (que tem defeitos suficientes) recomenda-se muito mais.

A adaptação de Northanger Abbey – em simetria – foi das mais agradáveis surpresas. Assinada pelo Andrew Davies (eu não sabia até ver os créditos), é puro espírito Jane Austen: divertida, espitituosa, inteligente, com lógica, fiel ao original (bom, eu já não me recordo tão bem dos diálogos como no caso do PP, mas o sabor era todo austeniano, além de que as mudanças de cenário em algumas cenas faziam sentido e não alteravam o tom da história), as fantasias góticas de Catherine são postas a uso e de forma deliciosa. O casting foi excelente e as interpretações inteligentes e credíveis. O Henry Tilney (JJ Feild) está cruelmente bem. A relação de Isabella com o capitão Tilney é exagerada, no entanto como é uma história secundária admite-se. A expulsão de Catherine de Northanger Abbey também é mais agreste do que no livro, tal como a reacção do general Tilney à decisão do filho casar com a nossa heroína, mas no meio de tudo perdoam-se. O ambiente mais libertino de Bath está bem recriado. Enfim, é tudo bom e uma adaptação obrigatória para devoradores de filmes e séries de época.

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3 respostas a Deixem-me persuadir-vos

  1. Só Maria diz:

    vou mesmo dar uma espreitadela a Northanger Abbey!
    bom fim de semana! 🙂

  2. Carmex diz:

    muito bem decidido!
    bom fim-de-semana!

  3. Pingback: Coisas que se vão vendo em dvd enquanto se amamenta 3 « Farmácia Central

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