Sex and the City

Sou uma fã incondicional da série da HBO Sex and the City. Por muitas razões: é uma série sobre mulheres, sobre sexo mas também sobre afectos, sobre amizade, sobre as vidas que não correm como se pensa quando se tem vinte anos, sobre uma cidade fascinante e cintilante como New York; contém as doses certas de esperança e de amargura; é visualmente atractiva: os actores são bonitos, os cenários simpáticos e o guarda-roupa de estimular as glândulas salivares. Mas, enfim, é uma série, é ficção, mesmo na frenética New York. O sexo vende e convém, porque também vende, mostrar mulheres que têm o mesmo comportamento sexual (e gostam) do que aquele que é tradicionalmente atribuído aos homens: muito sexo sem afectos misturados. O livro de Candance Bushnell em que se inspirou a série e os que se seguiram são mais sombrios, repletos de relatos de relações de sexo, com ou sem afecto, menos que prazentosas ou indiferentes. Por muito que chateie, mulheres e homens são propensos a comportamentos sexuais diferentes (de resto a sexualidade das mulheres é diferente consoante as idades, que nós gostamos de complexidade). O que não é sinónimo de mulheres castas versus homens devassos. Para parecença com a realidade, Les Liaisons Dangereuses de Choderlos de Laclos é bastante mais fiel à natureza feminina ou masculina do que a série referida. Tal como os livros da Candance Bushnell, que ilustram que uma vida sexual agitada não garante de forma alguma a felicidade das mulheres (garantirá a dos homens? se sim, e os que sim, são seres de grande pobreza emocional).

Por isto não entendo esta necessidade de referir esta série como se um manual das novas mulheres se tratasse, no meio do entusiasmo (que eu partilho) pelo filme que se aproxima – como se tem lido, por exemplo, no Times. É certo que as quatro amigas terminaram a série bem casadas (Miranda e Charlotte) ou em relações estáveis (Samantha) ou no momento em que uma longuíssima relação turbulenta se vislumbra como possível e satisfatória (Carrie), pelo que a importância dos afectos foi reconhecida.  E a série refere pontos com que muitas mulheres se identificam, seja o gosto pelo prazer, seja a vida de solteiras e trintonas (que se organiza de forma diferente da das trintonas casadas), seja a importância das amizades femininas, sejam os alimentos que as mulheres financeiramente bem-sucedidas gostam de fornecer à sua auto-estima (sapatos, carteiras, vestidos de designers conceituados) e a recusa de colocar estes bens como substitutos inferiores de uma vida familiar, seja a relutância (ou o espanto) com que a sociedade ainda encara mulheres que não casaram, sejam as desilusões com o sexo oposto. (O filme, pelo que li, gira em torno do casamento de Carrie com Big – com vestido do designer novaiorquino Zac Posen, comme il faut, que a guru dos vestidos de casamento das fashionistas novaiorquinas, a Vera Wang, já foi utilizada pela Charlotte no seu primeiro casamento). Sex and the City também nos apresenta quatro mulheres excessivamente exigentes com os homens que conhecem, ao mesmo tempo que não se demonstram dispostas a aceitar que a mesma exigência lhes seja dirigida e só terminam felizes porque encontram os seus principes encantados. E, sinceramente, esta visão é francamente infantil (perdoem-me o abuso de advérbios de modo). Nem o amor termina quando um casal tem dificuldades (pelo contrário, pode fortalecer-se) nem existem relações duradouras sem que haja compromissos dos dois lados, por vezes resultantes de intenso regateio conjugal. Espero que as mulheres saibam que nem sempre a verdade vem dos ecrans.

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