Está-se a ver que o Governo também podia escrever um livro sobre estratégias de negociação

O novo código laboral foi hoje aprovado em conselho de Ministros (ver Público), depois de o Governo – tchan, tchan, tchan – ter desistido da proposta do despedimento por inadequação do trabalhador à função e à empresa. Claro que se entra sempre para uma negociação com umas tantas exigências para deixar cair, na tentativa de salvaguardar o essencial, de forma a que se se chegar a um acordo ninguém perca a face e todos possam dizer “eu consegui que aquela condição absolutamente inadmissível fosse posta de lado”. Este (des)governo não é o inventor desta estratégia. Só perde é um bocadinho na subtileza. A forma como foi anunciada a desistência desta proposta do Governo mostrou que afinal era só para enganar, que nunca haviam querido legislar o despedimento por inadaptação, que queriam só assombrar os sindicalistas para que não vissem que outras iniquidades (na opinião socializante) se propunham, que esperavam no fim até serem considerados uns porreiraços. Mas há que saber fazê-las. A forma propagandística como o governo anunciou a desistência – como se o Messias tivesse descido de novo à Terra, fossem aqueles incréus acreditar nestas coisas – saíu mal. Se se tivessem empenhado nesta medida, a desistência seria silenciosa e pesarosa. Assim, mostraram que já não sabem anunciar nada sem estrépito (em si um grande pecado) e que andaram a gastar dinheiro aos contribuintes com propostas-fantasma.

Convenhamos que o resultado prático do novo código do trabalho com e sem despedimento por inadequação é igual. Toda a gente sabe que o despedimneto por inadequação seria um conceito de tal forma vago e subjectivo que nenhum trabalhador incompetente conseguiria ser assim despedido – tal como o actual despedimento por justa causa por incompetência devia ser apagado dos códigos, já que não serve para absolutamente nada. De resto, tal a idiotia da nossa legislação laboral, para mim uma boa medida para poupança da despesa pública seria o encerramento dos tribunais do trabalho: se um trabalhador quisesse recorrer a um tribunal do trabalho, de imediato lhe seria atribuída razão na sua queixa (que é o que acontece com a existência dos ditos tribunais); se a entidade empregadora quisesse contestar, recorreria para um tribunal superior, que é a única forma actualmente de uma empresa sair de um caso que envolva tribunais do trabalho sem pagar valores que não deve. O resultado seria o mesmo e sempre se poupava dinheiro aos contribuintes.

Escrevendo sobre dinheiro dos contribuintes: para que andou o (des)governo a gastar tempo pago por nós para elaborar um codigo em que a única medida que – num país que não o nosso – poderia fazer algum impacto foi retirada? Mais valia terem tirado férias prolongadas.

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2 respostas a Está-se a ver que o Governo também podia escrever um livro sobre estratégias de negociação

  1. PR diz:

    Toda a razão, as usual… Este “deixar cair” da proposta do despedimento por inadequação mostra bem a sede propagandística do “engenheiro”. Até as desistências são amplamente difundidas!
    Imagino o que seria se os sindicalistas tivessem recuado em alguma das suas propostas…

  2. Carmex diz:

    Pois, PR, nem faço ideia se as centrais sindicais abdicaram de alguma reivindicação; acho que o processo todo, para as alterações mínimas que vai introduzir, nem devia ter existido.

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