Ad Majorem Dei Gloriam (ou O Engate)

Todos os católicos que passaram por uma conversão – ou porque eram ateus, ou porque o cristianismo lhes era desconhecido ou indiferente, ou porque a sua religiosidade estava comprometida elsewhere – conhecem bem o gosto de terem sido escolhidos por Deus. Deus, que é o maior sedutor de todos os tempos, logo que percebe que uma pessoa tem disponibilidade no coração (e na cabeça, ver parágrafo abaixo) para embarcar numa aventura tão avassaladora como tentar (porque nunca se consegue passar da tentativa) viver com os critérios e valores e o amor de Jesus Cristo, começa o processo de engate. De súbito, as dúvidas começam a dissipar-se, o que antes era nebuloso começa a afigurar-se como claro e pleno de sentido; entretanto ficamos verdadeiramente embasbacados com os mimos de Deus, que em todo o lado nos envia sinais de que nos quer junto dele, nos ama e não desistirá enquanto não lhe sucumbirmos. O que, inevitavelmente, sucede. Não é todos os dias que se é seduzido por Deus.

Foi hoje ordenado padre jesuíta o meu (e de muita da lista de farmacêuticos ali do lado, e de mais uns que ficaram pela conta no wordpress e nunca postaram) querido amigo Gonçalo Castro Fonseca, um daqueles (estou certa) que Deus mais gosto teve em escolher e seduzir. Foi em São Roque, uma das Igrejas mais bonitas que os jesuítas construiram pelo mundo, com a sua Capela de São João Baptista, linda e sumptuosa, exemplo único (tanto quanto sei) de barroco italiano em Portugal, com as suas colunas revestidas a lápis-lazuli, ágata e mármore de Carrara e com o seu quadro do santo padroeiro em mini-mosaicos como os das villas romanas (dos tempo do Império, acrescente-se). A cerimónia foi muito bonita, pomposa q.b., com um excelente coro dirigido pelo P. João Caniço (amigo da geração anterior da família) e presidida por Dom José Policarpo – que fez uma homilia muito pertinente e perspicaz sobre a interligação entre a racionalidade e fé, referindo que muitos querem colocar a fé totalmente fora da razão e outros, católicos, não se empenham em ter uma cultura e maturidade espiritual que iguale a sua cultura e maturidade intelectual (particularmente adequada, a homilia, a uma ordem que sempre pretendeu viver no mundo e comunicar com todas as culturas e crenças). Especialmente comoventes foram os momentos em que todos os padres jesuítas presentes (e eram muitos) passaram pelos ordenandos e os abençoaram, reforçando o espírito de comunidade e de corpo e simbolizando como que uma passagem da experiência e santidade adquiridas ao longo dos anos de sacerdócio para os dois novos padres.

Talvez ficássemos mais descansados se todos os anos fossem ordenados mais padres, mas o certo é que quem pensa que a Igreja está moribunda não tem conhecimento dos rapazes e homens com vida feita e perspectivas de vida profissional muito promissoras (para não referir as namoradas jeitosas que alguns tiveram) que todos os anos escolhem entregar a vida ao serviço dos outros e ingressar no noviciado da Companhia de Jesus. Além dos casos de que vou tendo notícias, ainda hoje descobri – porque o encontrei em São Roque, com a simpatia, a empatia e os olhos azuis de sempre – que o Paulo, amigo de uma amiga minha das lides jesuíticas, comissário de bordo que eu costumava encontrar com frequência em voos ou no aeroporto de Lisboa (quando eu, antes de engravidar e de ter um filho pequeno que precisa da mãe, viajava muito profissionalmente), é agora jesuíta e vai já para o período do magistério.

Como diz a avó materna do meu marido, agora há menos padres mas os que há são muito melhores. Para maior glória desse grande sedutor.

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4 respostas a Ad Majorem Dei Gloriam (ou O Engate)

  1. Mário diz:

    Pode ser um disparate, mas constou-me que a fé é uma graça de Deus, e aqui estou a pensar em fé não tanto como uma crença ligeira mas mais como uma confiança profunda. Sem duvidar da importância de acontecimentos como o que descreve, uma dúvida inquietante se me depara. Não poderá Deus propositadamente deixar alguns fora da sua fé propositadamente, sem ao mesmo tempo os colocar no lado do ateísmo ou do agnosticismo, mas antes num limbo da confiança divina ou, dito de uma forma mais simples, com um pé dentro e um pé fora, porque é dessa forma que os motiva a serem mais úteis?

  2. Carmex diz:

    Não era bem esse o sentido que eu queria dar ao texto. Pretendia mais fazer um paralelismo entre alguém que se converteu e alguém que, desde pequeno, sempre acreditou em Deus sem sobressaltos.

    Acho que Deus não dá o dom da Fé apenas a quem decide, privando outros desse dom. O que me parece que sucede é que para nos convertermos temos que estar já predispostos a isso, ter liberdade interior para isso – isto não se confunde com querer acreditar, mas sim com estar disponível para acreditar. E, no fim do tal processo de sedução, somos sempre nós que declaramos que aderimos, mantemos a liberdade de não sermos seduzidos.

    Agora, há que ver que há tipos de fé muito diferentes, e que Deus escolhe os meios mais apropriados para cada pessoa, e nunca são os mesmos. Mesmo depois de convertidos, há as pessoas com fé mais emocional, ou com fé mais racional, ou com fé mais supersticiosa, ou mais conservadores, ou mais liberais, etc.

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