Os disparates que uma pessoa lê

“5 reasons why exclusive maternity leave is bad for women”, no Times.

Quando as pessoas têm que justificar um insucesso (ou algo que vêem como um falhanço) gostam sempre de culpar outras pessoas, realidades externas e incontroláveis, as empresas, “o sistema”, e por aí adiante. Agora parece que a culpa de não haver mulheres a rodos nas chefias de topo das empresas é da licença de maternidade. Eu aqui páro, respiro e faço o propósito de não chamar muitos nomes a estas tolinhas feministas radicais (a quem, estou certa, gelaria o sangue se fosse proposta qualquer redução de benefícios às mulheres que abortam).

Em primeiro lugar (o que não deveria vir em primeiro lugar, que há coisas mais importantes a serem ditas, mas enfim, perante textos destes…) recorde-se que nenhuma mulher é obrigadada a gozar a totalidade da licença de maternidade. Na lei portuguesa (desconheço a britânica) são obrigatórios dois meses de licença; de seguida, uma mãe pode apresentar-se no local de trabalho e recomeçar a actividade profissional.

Em segundo lugar – e que deveria ter estado em primeiro lugar – a presença da Mãe junto ao filho recém-nascido é de vital importância e acho que uma mulher deve ser Mãe tendo em conta esse facto. Pessoalmente penso que deveria haver uma licença de maternidade de seis meses, podendo depois ser estendida, mediante prestações da Segurança social mais baixas, às mulheres que assim o entendessem. Não é só a presença da Mãe fulcral para o bom desenvolvimento emocional e cognitivo dos bebés, como até aos seis meses os pediatras e a Organização Mundial de Sáude recomendam a amamentação exclusiva para a alimentação dos bebés – o que, sabe-se, lhes traz benefícios para toda a sua vida. (E este é um assunto lateral, mas merece aqui uma pequena inclusão: é uma vergonha que a amamentação seja tão mal-sucedida na maioria das mulheres, na maior parte dos casos por desconhecimento do processo, sendo que seria muito barato ao Estado ensinar às grávidas como amamentar bem; certamente muito mais barato do que pagar urgências a bebés com alergias ao leite de vaca ou com doenças que poderiam ser evitadas caso estivessem a amamentar).

Terceiro. Não acho nada que as empresas devam subsidiar as escolhas familiares das suas trabalhadoras, mas é um disparate sugerir que é pela maternidade que as mulheres são preteridas nas carreiras. Claro que se uma mulher pretende ter muitos filhos em escadinha, faz sentido que páre de trabalhar durante uns tempos (e, no regresso, obviamente há que ter bom-senso e humildade e perceber que se vai ter de recomeçar mais em baixo do que nos últimos estádios da carreira – o mesmo sucederia a um homem se tirasse liçença durante uns cinco ou seis anos). Mas uma mulher que tem um ou dois filhos – a maioria – e que até espera uns anos entre gravidezes não tem razão nenhuma para ser prejudicada. Só numa empresa de gente incompetente é que se preferiria um homem menos qualificado só porque é homem a uma mulher ideal para o lugar mas que é mulher em idade fértil. Essa escolha seria prejudicial, em primeiro lugar, para as empresas. Porque não assumir que tantas mulheres que têm filhos se desinteressam mais facilmente da sua carreira, que não investem tanto nela (mesmo nas situações em que o possam fazer, que é sem dúvida difícil organizar o tempo entre o trabalho e a família), que a sua fonte de realização passou do trabalho para os filhos? Não vejo vergonha em admitir esta verdade. Porque teremos todos de ser hiper-competitivos e comprometer tudo o resto para chegarmos aos lugares cimeiros? Eu, pessoalmente, lamento mais os homens e as mulheres profissionalmente muito bem-sucedidos e sem vida para além do trabalho. É que o topo não custa só às mulheres. E uma mulher (ou um homem, mas mais as mulheres, cujo período fértil é limitado) que sacrificou a vida familiar em favor da carreira pode sentir-se tão aprisionado na sua escolha como alguém que decidiu, ou foi levada a decidir, ser “apenas” Mãe.

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2 respostas a Os disparates que uma pessoa lê

  1. sargenor diz:

    Um pequenissimo comentário de uma “apenas mãe”.

    O princípio básico de tudo isto é que quando se escolhe ser mãe, é-se mãe.

    Ou então andamos a escolher ter filhos porque não podemos deixar passar a vida sem “ter essa experiência”. Então não somos mães somos consumistas de experiências. Neste caso, para mulheres que preferem ter experiências sugiro que vão a uma boa loja e percam a cabeça. É uma experiência… um filho não é uma experiência é uma pessoa. E não é uma coisa minha… é uma pessoa autónoma mas que durante algum tempo está muito dependente da mãe

  2. Mário diz:

    «Então não somos mães somos consumistas de experiências.»

    Excelente comentário, especialmente esta observação mortífera.

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